Para começar a entender a Venezuela de hoje

Sylvia Colombo
Um cartão-postal que mostra Caracas nos anos 1970 (foto Arquivo)

A tarefa não é fácil, nem mesmo para um venezuelano que se debruçou sobre a história de seu país. Porém, em “Venezuela – Biografía de un Suicídio”, da coleção de ensaios da editora espanhola La Huerta Grande, o escritor Juan Carlos Chirinos, 50, consegue, em 140 páginas, reunir em um pequeno ensaio história, a força dos relatos e dos meios de comunicação na construção da narrativa do país e uma reflexão sobre a evolução do contexto histórico e cultural até chegar a este momento, o mais grave desde sua fundação, em que a Venezuela está à beira de um colapso e obrigando parte considerável de sua população a deixar seu território.

Isso passou ao próprio Chirinos, mas há mais tempo. Ele já havia deixado Caracas há muitos anos para estudar em Salamanca, na Espanha, quando viu que a situação em seu país-natal ia complicando-se, foi adiando a volta, até agora e sem data. Para começar, ele conta, na introdução, que quis encontrar algo bom para dizer de seu país, e pensou imediatamente em ligar para sua mãe, dona Ofida, na cidade de Valera, para que ela o ajudasse “com seu imbatível otimismo, seu inesgotável bom humor, seu feroz entusiasmo e a devota fé em seu Deus”. Não o fez, mas talvez sem querer, com apenas a descrição que faz da sua própria genitora parece resumir o grande tesouro desse país, o caráter bondoso, alegre e positivo da maioria dos venezuelanos.

“Pensei na minha mãe porque é preciso ouvir os mais velhos. Às vezes pensamos, e a mídia reflete isso, que a nossa história é apenas a dos últimos 20 anos, a do chavismo. Mas isso não é nada se você comparar com a formação dos alicerces do país, com o pensamento de próceres como Simón Rodriguez (1769-1854), Francisco de Miranda (1750-816) e Simón Bolívar (1783​​-1830). É preciso voltar a eles, para compreender nossa trajetória e nossa essência”, contou Chirinos em entrevista à Folha.

Sobre isso, de forma didática e com imenso poder de síntese, Chirinos atravessa algumas páginas para contar como o “bolivarianismo” transformou um conjunto de valores que está no alicerce central da Venezuela e da América Latina histórica numa política reducionista, demagógica e populista, no mau sentido.

O livro, claramente escrito por um narrador literário e muito marcado pelo olhar de sua geração, não tem o rigor de uma obra acadêmica, mas nem por isso perde a seriedade com a qual analisa os fatos. Entre eles, a tentativa de golpe realizada por Hugo Chávez (1954-2013) em 1992, e como esta foi crucial para entender o papel dos meios de comunicação na relação com o poder assim como a radicalização do regime. A lição que Chávez aprendeu com a cobertura de sua ousadia o faria aprimorar seus métodos, já no poder, de dominar o aparato de propaganda do Estado e a relação com a população, especialmente a mais humilde.

O livro também é um passeio sentimental por seus anos de infância e adolescência, trecho no qual aborda uma Venezuela pré-crise, ao mesmo tempo que reflete sobre o caráter aberto e caribenho que compõe o comportamento geral de seus habitantes. Também analisa o fenômeno do caudilhismo, com as particularidades locais, e não poupa de duras críticas o atual ditador do país, Nicolás Maduro, que vem dinamitando a economia do país e causando uma das piores crises sociais e humanitárias da história da América Latina.

Mas quem imagina que o livro caminha entre a escuridão e se trata de uma narrativa trágica apenas, está enganado. Está cheio de anedotas históricas, de indicações muito argutas a claros erros cometidos por vários mandatários, e discorre muito sobre a cultura local _algo absolutamente desconhecido pela média dos brasileiros. Ao ponto de conter um glossários das expressões venezuelanas que são uma delícia para os olhos e os ouvidos.

Chirinos, hoje radicado em Madri, não tem uma saída clara “de este pedo” (desta bagunça, em tradução livre) atual, mas aponta que a resignação é o pior que pode acontecer, assim como também critica atos de violência dos dois lados.

Lembra dos intelectuais estrangeiros que viveram aí, inclusive muitos imigrantes dos países do Cone Sul durante as ditaduras dos anos 1970, e mesmo de viajantes como o Nobel colombiano García Márquez (1927-2014), que disse ter passado um tempo no país “quando era feliz e sem documentos”.

Muito do que descreve como sendo parte da cultura venezuelana poderia servir de comparação, ou pelo menos para encontrar pontos de contato, com a brasileira. O uso repetido da palavra “malandro” por exemplo, para identificar os criminosos que estão no poder, nos soa carinhosamente próxima. Ao mesmo tempo, o drama da atual situação atravessa todo o livro. “No momento em que termino essas páginas, a Venezuela arde em seus quatro cantos, encurralada pelo fanatismo e pelo autoritarismo, pelo cansaço, pela malandragem e pela corrupção”, escreve.

Em uma obra sucinta e eficaz, Chirinos nos conta o drama, de seu país e de seus conterrâneos, muitos espalhados pelo planeta de forma desumana e desorganizada. Ao mesmo tempo, e talvez esteja aí uma das chaves para a salvação desse país, nos lembra que a Venezuela tem uma história mais longa e mais ampla que, uma cultura, que pede compreensão do mundo, de renovação e de vanguardismo político, e que, com esse legado, pode sair da escuridão desta ditadura e reencontrar o caminho da paz e da convivência.

Olhar para trás, bem para trás, da desastrosa gestão chavista e madurista, e adiante, com o espírito positivo e generoso de sua mãe, dona Ofida, talvez seja o primeiro passo para que esse pesadelo termine.