Soldados caídos nas Malvinas finalmente recebem sepulturas com nome completo

Sepultura de soldado argentino em Darwin (Foto Sylvia Colombo)

O cemitério de Darwin, nas ilhas Malvinas, oferece uma das imagens mais desoladoras que um ser humano pode esperar ver.

Num descampado aberto, em que o vento forte é constante dia e noite, estão espalhadas 230 sepulturas, algumas com os restos de mais de uma pessoa. Grande parte delas, até hoje, não tinha identificação, e dizia apenas: “soldado argentino, somente conhecido por Deus”.

São de oficiais argentinos que morreram na Guerra das Malvinas, em 1982. Na ocasião, apesar de pedidos de repatriação feitos pelas famílias, os generais que governavam o país disseram que “não”, eles deveriam ficar ali, como símbolo da luta da Argentina para recuperar uma suposta soberania do país sobre o arquipélago _motivo de controvérsia entre historiadores, uma vez que entre os primeiros a chegar a elas estiveram franceses, espanhóis e ingleses, os argentinos nunca se assentaram nas ilhas.

Nas duas vezes em que visitei o cemitério, senti um aperto no coração. Havia uma espécie de melodia fúnebre que não deixava de castigar os ouvidos. Era o vento cortante e suas consequências, entre elas, a de fazer com que se chocassem, de modo contínuo, os rosários pendurados nas cruzes brancas. Enquanto ia avançando entre elas, a repetição da mesma frase nas lápides, no chão, “soldado argentino, somente conhecido por Deus”, incomodava até quem não tivesse nada que ver com essa guerra. Era evidente que o que estava diante dos meus olhos era uma tragédia inacabada, um drama sem epílogo, uma ferida aberta, como tantas que a Argentina carrega. Quem foi cada uma das pessoas que agora estavam por trás de cada túmulo? Qual sua história, idade, como morreram? Ao longo desses 36 anos desde o conflito _o aniversário da invasão ocorre no próximo dia 2_ os poucos familiares que vieram visitar as sepulturas de seus parentes costumavam rezar ou deitar flores em tumbas aleatórias, uma vez que não era possível saber qual delas era a de seu ser querido.

O cemitério de Darwin vinha sendo um atentado aos direitos humanos dessas famílias desde então. Por serem os soldados, em sua maioria, de províncias distantes e pobres, seus familiares não tinham dinheiro para comprar os caros bilhetes aéreos para fazer uma viagem desse porte. Além disso, até 1991, a ida de argentinos às Malvinas era cheia de obstáculos burocráticos, que por sorte caíram devido ao esforço de uma política de aproximação promovida pelo então presidente Carlos Menem (1989-1999). Quando por fim chegavam, davam com esse cenário desolador, e, desorientados, buscavam pistas inexistentes sobre quais daquelas tumbas poderiam conter os restos de seus filhos.

Este aniversário da Guerra, porém, traz ao menos uma boa notícia. Pela primeira vez, um grupo de familiares viaja às ilhas na próxima semana para conhecer, com exatidão, qual a lápide de seus parentes. Depois de um trabalho de exumação e estudos que durou meses, uma equipe coordenada pela Cruz Vermelha conseguiu identificar 88 dos 121 corpos de Darwin. Os que seguem sem reconhecimento são aqueles cujas famílias não foram localizadas para realizar a coleta de DNA ou daquelas que recusaram, diante da perspectiva de reviver uma dor que custa tanto fazer passar.

Há algumas histórias comovedoras relacionadas a Darwin. E a principal delas é a do ex-capitão do Exército britânico Geoffrey Cardozo. Ao final da guerra, em meio à confusão do embarque de repatriação dos soldados vencidos, da tensão no ar entre os moradores exasperados, da preparação para a partida das tropas britânicas e dos cadáveres dos soldados britânicos, Cardozo coordenou os enterros precários dos argentinos que morreram nas ilhas _no total, a Argentina teve 649 baixas, mas a maioria delas era de tripulantes do navio Belgrano, e a Inglaterra, 255, mas estes tiveram a autorização de serem levados para serem enterrados no Reino Unido.

Como havia poucos recursos e os soldados argentinos mortos não traziam muita informação sobre eles consigo, o que Cardozo fez foi uma proeza. Os embrulhou em lençóis ou naquilo que encontrou, escreveu, nos que pôde, o nome ou apelido de cada um que conseguiu de seus companheiros de tropa, cuidando para que cada um tivesse consigo alguns de seus objetos pessoais, que num futuro talvez pudessem ajudar em sua identificação. Por fim, coordenou a realização dessa cerimônia triste e incompleta que ocorreu em 19 de fevereiro de 1983 e foi oficiada pelo bispo católico britânico das ilhas.

O modo cuidadoso, ainda que precário, empregado por Cardozo, junto a uma pesquisa de fotos e arquivos realizados pelo historiador argentino Federico Lorenz e, por fim, o trabalho de cotejar DNAs realizado recentemente pela Cruz Vermelha deram resultado, ainda que com um atraso de décadas. O impulso final para que o reconhecimento dos corpos fosse levado adiante ocorreu após um entendimento entre os governos da Argentina e do Reino Unido, em 2016. Apesar de ainda não concordarem sobre a solução da questão sobre a soberania das ilhas _ambos as reivindicam_ os dois Estados concluíram que era necessário um esforço para dar uma sepultura digna a cada soldado argentino caído.

Na semana que vem, quando os familiares de 89 soldados desembarcarem nas ilhas, serão levados diretamente à lápide de seu filho, neto, pai ou primo. Pode parecer algo distante ou vazio para quem olha de fora ou que pouco ou nada sabe sobre esse conflito distante. Mas não o é para os que, desde o dia em que receberam a notícia da morte de seu ser querido, sonham com esse momento de dizer adeus. É como se apenas agora esses garotos, com nome e sobrenome, e que morreram numa guerra absurda e desnecessária, possam, de fato, descansar _o máximo que se lhes pode oferecer, uma vez que suas vidas lhes foram roubadas pela sanha de uma ditadura que agonizava.

Cardozo estará nesse grupo que visitará Darwin na semana que vem, junto com os familiares e representantes de grupos de direitos humanos. Haverá, por fim, algum barulho em Darwin. Além do vento movimentando os rosários, se ouvirá o nome e o sobrenome daqueles que por quase quatro décadas moram aí, mas que até então eram chamados apenas de “soldado argentino, somente conhecido por Deus”.

Algo de Justiça com aqueles garotos, por fim, será feita.