Recuerdos de Província

Sylvia Colombo

 

 

Em seu famoso livro de 1850, “Recuerdos de Província”, o intelectual argentino Domingo Faustino Sarmiento (1811-1888), nascido na distante San Juan, traçava um retrato do interior do país num período de intensa transformação das Américas.

 

O campo argentino, comparado à movida portenha, era ainda reduto de muitos hábitos coloniais, que o período pós-independência tratava de tentar varrer do cotidiano. A influência das missas, os horários das refeições, dos estudos, e também a organização dos lares.

Numa das passagens mais famosas, Sarmiento e suas irmãs debatem o destino de imagens de santos que a mãe possuía e a organização da sala de estar, que tinha um lugar específico, de inspiração mourisca, para as mulheres ficarem trabalhando no tear ou em outros afazeres domésticos, enquanto os homens conversavam no principal canto do recinto sobre suas guerras e aventuras.

 

É claro que o interior argentino hoje é diferente. O tempo passou, e basta reparar que, numa cidade pequena, ao lado da igreja, da prefeitura e da prisão estão uma loja de celulares, um cyber café e uma locadora de filmes. Mulheres dirigem motocicletas e manifestações são marcadas por meio de mensagens de texto.

 

Mas foi inevitável lembrar do livro de Sarmiento nos últimos dias que passei no interior de La Rioja, província encostada na Cordilheira dos Andes, ao lado da San Juan do prócer.

 Tudo começa na arquitetura. Mesmo as casas “modernas” seguem a estrutura sólida, sóbria e consistente das construções coloniais, principalmente dessa zona gelada encostada na Cordilheira dos Andes em que qualquer esforço para conter o calor interior é benvinda. A igreja de Famatina, onde estive, expõe a data de sua fundação, 1886, e as cores de sua restauração imitam a pintura antiga daquele tempo.

 

Mas a principal característica que distingue o campo das cidades é o trato das pessoas. O provinciano é mais suave, solícito e doce que o portenho, acostumado a um nível de fricção social mais constante.

A comida também é outra, e abundante. Ao ver-me reclamar do frio de -2, uma das moças que trabalha na “finca” onde me hospedei disse que se encarregaria de “engordar-me” um pouco. “Desse jeito você não aguenta”, olhando-me de cima a baixo, e dá-lhe doces, nozes, pão gordo e, por que não, uma aguardente no fim da refeição.

O interior é conservador, religioso, moralista. Todos casam-se e têm filhos cedo. “Onde está sua família” é a pergunta que fazem de cara, ainda que só com o olhar, ao forasteiro/a. Escutando de orelhada uma conversa entre dois compadres, um deles perguntava ao outro, inconformado, por que um terceiro não havia tido filhos. Este respondia que a mulher tinha ficado doente logo depois que se casaram. O primeiro pergunta, ainda não convencido: “e por que não adotou?” O outro responde: “ele já tem 50, é velhote para adotar”. Com a dureza do clima, a pobreza, o fantasma das doenças, casar-se e criar família rápido não é uma escolha, mas uma emergência.

Já é difícil entender bem esse país com apenas observar os encantadores portenhos. Mas, para conhecê-lo bem, é preciso meter-se nas entranhas de suas províncias. Um aprendizado que certamente deve durar muitos anos.

 

 

 

Comentários

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