Ex-guerrilheiro lidera na Colômbia, enquanto Farc afunda

O ex-prefeito de Bogotá e ex-guerrilheiro, Gustavo Petro (Foto El Tiempo)

Há um curioso paradoxo nas recentes pesquisas eleitorais na Colômbia, e talvez uma boa notícia de renovação política. Embora as candidaturas e chapas ainda não estejam totalmente definidas para as eleições legislativas de março e para as presidenciais de maio, os números vêm mostrando um padrão diferente dos anteriores pleitos, com candidatos anti-sistema ou de fora dos partidos tradicionais tomando a dianteira.

Por um lado, temos a chegada da ex-guerrilha das Farc, agora um partido, ao cenário. Só que, por enquanto, seus primeiros atos de campanha foram marcados pela alta rejeição. São queridos em algumas regiões, especialmente nas que interagiram positivamente com algumas comunidades, porém, a nível nacional, seu radicalismo de propostas não está convencendo. Seu candidato a presidente, Rodrigo “Timotchenko” Londoño, não decola do 1% das intenções de voto. E a sequência de comícios com pouca gente e os insultos que são gritados na passagem do grupo por algumas localidades não são um bom sinal. Por ora, tudo indica que a ex-guerrilha ocupará apenas os dez postos (cinco na Câmara de Deputados, cinco no Senado) estipulados pelo acordo de paz aprovado em 2016.

Por outro lado, porém, algo curioso vem ocorrendo na cabeceira da corrida presidencial. A última pesquisa, realizada pelo instituto Invamer para um grupo de veículos, mostrava na frente o ex-prefeito de Bogotá, Gustavo Petro, 57. E o que isso tem de mais? Pois Petro foi nada menos que um guerrilheiro do M-19 em sua juventude. Hoje desmobilizado, o M-19 foi responsável, entre outros massacres, pela invasão do Palácio da Justiça, em novembro de 1985, que terminou com 98 mortos, entre magistrados, civis, guerrilheiros e soldados.

Ou seja, a sociedade colombiana está rejeitando a Farc, que até pouco tempo estava na ativa nas ações guerrilheiras. Mas mostra que é capaz de perdoar a longo prazo um sujeito como Petro, que saiu das fileiras da luta armada e rumou, pela via democrática, para a centro-esquerda. Petro também se mostrou ser um administrador capaz, que pôs foco nas diferenças sociais de Bogotá, com seus programas de redução de tarifas de água e de transporte. Além disso, é um nome que não está ligado aos partidos tradicionais, controlados pelas poucas famílias que governam a Colômbia há dezenas de anos. Petro também fez gestos na direção de reformar o sistema, pedindo que os congressistas renunciem a benefícios e a parte de seus salários para um fundo para combater a corrupção.

E Petro não está sozinho preenchendo este filão das candidaturas anti-sistema. Em segundo lugar na mesma pesquisa está o ex-prefeito de Medellín e ex-governador do Departamento de Antioquia Sergio Fajardo, 61. Apesar de ter uma trajetória na política mais longa, o matemático Fajardo tampouco está relacionado às forças de poder tradicionais. E seu legado é muito positivo. Foi durante seu governo que Medellín deixou de ser uma das cidades mais violentas do mundo para se transformar em modelo de transformação social por meio de reformas urbanísticas e educativas. A mesma coisa depois foi aplicada no Departamento, embora com mais dificuldade, pois a Antioquia é sede de algumas Bacrim (“bandas criminales”) e ainda responsável pela produção de grande parte da cocaína que a Colômbia “exporta”.

Ambos podem ser considerados candidatos progressistas, algo que quase nunca passou na Colômbia, país em que a população desconfia muito da esquerda por associá-la, não sem razão, à violência da luta armada.

Obviamente, esses resultados ainda podem mudar até a definição das candidaturas e o início da campanha, mas é significativo que estes dois apareçam adiante dos candidatos do “establishment”: o ex-vice do atual presidente, Juan Manuel Santos, Germán Vargas Lleras, e o chefe das negociações de paz do governo, Humberto de la Calle.

Também pesará muito a decisão de quem será o candidato escolhido por Álvaro Uribe, que representa uma força política de imensa presença em todo o país. Porém, desde a acusação de que Óscar Iván Zuluaga, seu sucessor favorito, estaria envolvido no esquema Odebrecht, Uribe ficou sem muitas opções de alcance nacional.

O melhor de seus candidatos é o eloquente Iván Duque, 41, combativo contra o processo de paz, sagaz, de boa retórica e que pertence a uma nova geração de políticos de centro-direita. Talvez seja a melhor opção do uribismo, até por ser mais moderado, moderno e liberal que seu líder e por dialogar com um público eleitor mais jovem. Só que seu ponto negativo é ser conhecido mais em Bogotá do que no resto do país. A popularidade de Uribe, porém, ainda pode ser capaz de eleger um poste. Portanto tudo depende de como se arma essa campanha eleitoral. Outras figuras do uribismo, pelo menos por enquanto, parecem descartadas.

Há um ar de incerteza em torno das eleições colombianas, até porque nenhum desses pré-candidatos ainda consegue amealhar 30% dos votos. Portanto, o cenário mais provável é o de um segundo turno e, aí sim, uma polarização.

Mesmo assim, a chegada de atores novos a um cenário político historicamente muito engessado é algo a ser comemorado.