“Se você escreve sobre qualquer mulher que abre a boca, já te consideram feminista”, diz Atwood

Por Sylvia Colombo
A escritora canadense Margaret Atwood (Foto Divulgação)

Durante uma hora na noite da última segunda-feira (11), a escritora canadense Margaret Atwood, 78, dialogou com o diretor da Biblioteca Nacional, o argentino Alberto Manguel, 69, sobre literatura, feminismo, televisão e o mundo após a eleição de Donald Trump.

Com uma narrativa de cadência pausada e uma fina ironia, a autora do romance “The Handmaid´s Tale”, que recentemente foi adaptado a uma série de TV, falou de sua longa trajetória, que começou quando tentava, junto ao irmão mais velho, desenhar e escrever roteiros para histórias em quadrinhos.

“Para a minha geração, o grande medo dos pais eram os comic books. Do mesmo modo como os pais de hoje temem a influência dos celulares nos cérebros das crianças, os nossos pais tinham horror à influência que podiam ter os quadrinhos. Eu admirava as histórias do meu irmão, ele tinha super-heróis que combatiam imensas guerras. Os meus quadrinhos eram mais líricos, se pareciam a fábulas”, contou.

Indagada sobre quais foram suas leituras de infância, Atwood fez a plateia rir ao dizer que as primeiras coisa que tinha lido eram as histórias originais dos Irmãos Grimm. “Todo esse universo que foi censurado depois na era Disney, eu li tudo na versão original. Depois que se começou a criticar o teor das histórias, foi a vez de meus pais se sentirem culpados por terem nos dado aqueles livros, preocupados com o impacto que causaria em nós.”

Descreveu sua infância no norte do Quebec, onde vivia com a família, como uma mistura de sensações. “Íamos para a beira dos lagos no verão, conversávamos com pescadores, e de vez em quando visitávamos as cidades grandes. Mas no geral, foi uma infância muito isolada”, contou. Mas logo acrescentou que em sua casa quase não havia silêncio. “Porque minha mãe, desde antes de eu saber ler, lia histórias em voz alta. E ela era uma grande leitora. Ali não havia TV nem rádio, e logo as crianças do bairro se juntavam em nossa casa para ouvir minha mãe contar histórias.”

Depois dos Irmãos Grimm e das histórias em quadrinhos, Atwood diz que se apaixonou por Sherlock Holmes, “e pela ideia de que eu podia ama-lo, porque ele nunca se casaria”. Daí a começar a escrever, foi rápido. “Eu me dei conta de que tanto uma história curta como um romance sempre seriam parecidos a uma novela policial, todos têm algum mistério, algo a ser descoberto, e um desenlace”.

Não deu certo em sua primeira tentativa, contou, divertida, porque resolveu contar uma história em que a protagonista seria uma formiga. “E nos primeiros dois terços da vida de uma formiga nada acontece, ela é uma larva, cresce e vai se transformando. Mas eu logo abandonei essa trama falida.”

Quando tinha 16, conta que começou a flertar com a ideia de se mudar a Paris, “conhecer escritores, virar garçonete, ter tuberculose e escrever um grande romance. Não fiz nada disso, mas logo passei a publicar contos e poemas em revistas no Canadá.”

Apesar de sempre ser identificada com o feminismo, Atwood faz ressalvas. “Quando comecei a escrever e publicar meus primeiros livros, o feminismo como vinha sendo formulado nos EUA ainda não tinha chegado ao Canadá. E se editavam muito poucas mulheres. Dizem que meu romance “The Edible Woman”, publicado em 1969, é um livro feminista, mas eu não sabia do movimento quando o escrevi, em 1964. A verdade é que hoje em dia, qualquer coisa que você escreve em que há uma mulher que abre a boca, faz com que te considerem uma escritora feminista. Dá uma ideia da lentidão com que se avança nessa questão”

 

Ainda assim, conta que depois dessa obra, o tema passou a preocupa-la mais, lendo autoras como Doris Lessing (1919-2013) e Simone de Beauvoir (1908-1986). Logo suas mulheres protagonistas foram sendo influenciadas pelo movimento cujos efeitos tardios chegavam ao Canadá. Sobre a literatura feminina ou feminista hoje, fez uma reflexão. “Creio que você tem feminismo em vários formatos, tem mulheres que lutam por direitos iguais, com as quais estou a favor, as que creem que somos seres humanos, com quem também estou a favor (risos), mas igualmente as que pensam que mulheres são anjos, e nós sabemos que não são ou não somos anjos. Mas não é porque existem mulheres más que os direitos não devam ser iguais. Senão você não teria direitos iguais para homens também, pois há muitos homens maus.” E acrescentou: “É preciso lembrar que o eleitorado de Donald Trump é formado por muitas mulheres. Isso me intriga, porque elas veem nele algo diferente do que representa, ou não acham que o o efeito negativo de sua Presidência para os direitos das mulheres seja algo com que uma pessoa razoável tenha de se preocupar.”

Há muitos anos como professora de jovens autores, Atwood contou que, em seus cursos, coloca o foco em ensiná-los a escrever bem até a quinta página. “Se você escolheu um bom título e uma boa capa, e escreveu uma primeira página que me deu vontade de pular da segunda e daí até a quinta. Se eu o ajudei até aí, é porque pode sozinho ir até o final. Nenhum livro bom melhora tendo as primeiras cinco páginas ruins.”

E acrescentou uma dica. “Sempre que um editor quiser colocar uma flor na capa de seu livro, diga que não. A maioria deles faz isso automaticamente, porque acha que romance é sempre uma coisa para mulher e que toda mulher gosta de flores. E colocam lá a flor que nada tem a ver com a trama. Fica horrível, além de desviar o assunto. Lutem pelas suas capas.”

Também aos jovens escritores, recomendou muita leitura e que escrevam todos os dias. “E leiam o que quiserem, não sejam guiados por obrigações ou listas de recomendação. Seguir o gosto na leitura ajuda a formar seu estilo.”