Por qué no te callas? Dez anos de um hit da política latino-americana

Por Sylvia Colombo
Momento em que o então rei espanhol manda Chávez ficar quieto Foto (Reprodução)

A América Latina não é mais a mesma, a Espanha tampouco e os protagonistas da maioria dos países envolvidos naquele episódio mudou. Mas, num dia como hoje, há 10 anos, durante a Cúpula Iberoamericana ocorrida em Santiago, no Chile, o mesmo tema que ainda causa preocupação a todos _a situação da Venezuela_ irrompeu na forma de uma anedota, a catarse do então rei espanhol, Juan Carlos, que, cansado de ouvir as repetidas ofensas que o então presidente do país caribenho, Hugo Chávez (1954-2013), fazia ao ex-presidente espanhol José María Aznar, soltou a indagação autoritária que virou “hashtag”, meme, estampou camisetas e viralizou nas redes: “Por qué no te callas?” (por que não cala a boca, em tradução livre).

Remontando os fatos. Em sua intervenção, Chávez havia insultado Aznar, chamando-o de fascista e acusando-o de estar fazendo uma campanha contra a Venezuela pelo mundo. O então presidente espanhol, José Luis Zapatero, saiu em sua defesa: “Pode-se estar nas antípodas da posição ideológica de alguém e não serei eu quem se mostrará próximo às ideas de Aznar, mas ele foi eleito pelos espanhóis, e por isso peço respeito”. Enquanto Zapatero tinha a palavra, porém, Chávez, com o microfone desligado, seguia soltando impropérios contra Aznar, até que o rei Juan Carlos deixou sua posição de mera contemplação do debate e esbravejou, apontando o dedo a Chávez: “Por qué no te callas?”

O ambiente era tenso, a presidente Bachelet, que hoje está de volta no cargo, pediu calma aos presentes. O rei levantou-se e deixou a sala, enquanto alguns mandatários se solidarizaram com Chávez, como o nicaraguense Daniel Ortega (desde então, e sabe-se lá até quando, ainda no poder), que aproveitou para reclamar do ainda presente imperialismo espanhol.

O que parecia apenas uma piada foi transformando-se em problema diplomático verdadeiro, uma vez que Chávez continuou, após a reunião, com suas críticas à Espanha, tudo isso às vésperas da comemoração dos 200 anos de independência de vários dos países da região. Por fim, como a Espanha era, então, um dos principais investidores na Venezuela, Chávez acabou amenizando sua posição. Cruzou o Atlântico e foi fazer as pazes com o rei, em Madri.

Desde então, o rei foi caindo num processo de descrédito, com acusações de corrupção de familiares e outros dramas palacianos, além de passar por vários problemas de saúde. Abdicaria em nome do filho, Felipe, em 2014.

Já a Venezuela, naquele 2007, parecia apenas um país que começava a entrar em crise, com um governo que causava entusiasmo nuns, pelo experimento esquerdista de século 21, e preocupação noutros, por mostrar-se cada vez mais autoritário. Chávez morreria em 2013, de câncer, e o regime, nas mãos de seu sucessor, Nicolás Maduro, aceleraria a segunda vertente, transformando-se na ditadura que é hoje.

A Espanha, por sua vez, deixou de ser o alvo que era naquela Cúpula, na qual foi atacada não só por Chávez e Ortega, mas também pela representação de Cuba e pelo boliviano Evo Morales. Foi ensimesmando-se em sua própria divisão interna. Por sua vez, Zapatero terminaria seu governo também em descrédito, mas voltaria a ser chamado para mediar as negociações, igualmente frustradas, entre Maduro e a oposição.

O “Por qué no te callas” foi um episódio engraçado quando ocorreu, uma anedota divertida a romper a burocrática e modorrenta rotina de reuniões desse tipo. Uma lástima que hoje não exista motivo algum para graça com relação a nada do que esteja ocorrendo na Venezuela, onde de fato existe uma ditadura instalada, com meios de comunicação opositores calados, uma crescente limitação das liberdades civis, um cerco até mesmo à internet, presos políticos e eleições manipuladas.