Líder indígena esquenta campanha no México

Por Sylvia Colombo
A líder indígena Marichuy, que quer se apresentar como candidata independente (Foto El Universal)

María de Jesús Patricio Martínez, conhecida como Marichuy, 53, será a primeira representante indígena a participar de uma corrida presidencial no México desde o transformador Benito Juárez (1806-1872). A campanha da zapatista já deixou o interior de Chiapas e ganhou os cafés e pontos de encontro da esquerda na Cidade do México. Intelectuais e artistas vêm se juntando à campanha para tentar arrecadar as assinaturas de 866 mil eleitores necessárias até 12 de fevereiro para viabilizar sua candidatura.

Apesar de já ter se lançado em maio, foi apenas nos últimos meses que a possibilidade de uma candidatura real de Marichuy se concretizou. O fato de a corrida eleitoral estar sendo liderada por um candidato esquerdista veterano, Andrés Manuel López Obrador, já derrotado duas vezes consecutivas, de o PRI (Partido Revolucionário Institucional) estar com dificuldades para encontrar um candidato em meio ao descrédito de Enrique Peña Nieto e o PAN (Partido da Aliança Nacional) estar rachado internamente, vem fazendo com que Marichuy se destaque. Os terremotos que o México sofreu nos últimos meses, afetando principalmente as regiões mais pobres do país, também ajudou a impulsar sua candidatura, ganhando apoio de parte da população dos locais que mais sofreram suas consequências.

Os que a apóiam, porém, não creem que uma candidatura sua, pelo menos por enquanto, possa desbancar os partidos tradicionais. Ainda assim, veem nela um símbolo de transformação necessária no país e uma espécie de recado aos políticos tradicionais. O escritor e ensaísta Juan Villoro diz que sua candidatura ajudaria a “dar visibilidade à população indígena e a criar um movimento cidadão de longo prazo”.

A população de origem indígena do México é de cerca de 20% de seus 125 milhões de habitantes. “A ideia desse movimento não é ganhar as eleições, mas permitir que as vozes indígenas se expressem”, completa Villoro.

A eleição presidencial mexicana ocorre em julho de 2018.

Marichuy, da etnia nahua, originária do Estado de Jalisco, trabalha em sua comunidade como curandeira, e já há tempos milita no Congresso Nacional Indígena, braço político do Exército Zapatista de Liberação Nacional, que ganhou projeção nos anos 1990, quando se opôs ao Nafta, tratado de livre-comércio com os EUA e o Canadá, agora em processo de revisão por conta da opinião negativa que tem sobre ele o presidente norte-americano, Donald Trump.

A pré-candidatura de Marichuy está sendo viabilizada por uma mudança na regulamentação eleitoral mexicana realizada em 2014, que passou a permitir a inscrição de candidatos independentes de partidos, desde que consigam as assinaturas necessárias antes do prazo estabelecido.