A Guatemala arde, outra vez

Por Sylvia Colombo
Guatemaltecos vão às ruas, novamente, pelo fim da corrupção (Foto Reuters)

“A Guatemala precisa de outra praça. Nesta já não cabe mais ninguém”, postou nas redes sociais o jornalista Carlos Dada, do site salvadorenho “El Faro”, enquanto acompanhava os protestos na capital do país centro-americano, na semana passada.

Na verdade, se um guatemalteco tivesse entrado em coma em 2015 e acordado por esses dias, pensaria não ter perdido nem um só dia da história de seu país. Agora, como há dois anos, há centenas de milhares de pessoas indo às ruas quase que diariamente e pelo mesmo motivo: protestar contra a corrupção.

Em 2015, surgiu uma denúncia da CICIG (Comissão Contra a Impunidade na Guatemala), um órgão composto por magistrados de vários países, mas comandado pelas Nações Unidas, contra o então presidente Otto Pérez Molina.

As evidências apontavam para um esquema armado pelo ex-militar eleito presidente, conhecido como La Línea, que desviava fundos aduaneiros. Para investiga-lo, porém, era necessário que o Congresso retirasse seu foro privilegiado. A pressão das ruas começou discreta, mas os atos começaram a aumentar. Logo, chegaram às centenas de milhares, que passaram a exercer tal pressão contra os parlamentares, que estes acabaram retirando a imunidade do mandatário. No dia 2 de setembro daquele ano, temendo um “impeachment”, Pérez Molina renunciou. No dia seguinte, foi preso.

Faltava pouco para a eleição, e como não é incomum nesses casos em que há descontentamento com a chamada “política tradicional”, a maioria dos guatemaltecos elegeu um “outsider”. O aventureiro vencedor, com 67% dos votos, foi Jimmy Morales, um ex-comediante televisivo, que se lançou na política com um novo partido, porém composto por figuras conhecidas _ex-militares que haviam combatido na sangrenta guerra civil (1960-1996) e que, até hoje, têm contas à prestar com a Justiça por crimes contra a humanidade.

Eleito Morales, parecia que a normalidade havia se instalado. A Guatemala, em meio a uma região em guerra civil, mostra uma economia vigorosa, que vem crescendo a 3% ao ano. Mais que isso, o país de 16 mihões de habitantes dava um exemplo ao resto da região, mostrando que a força das ruas pode ajudar a mover as máquinas da Justiça e da política.

A decepção, porém, não tardou em chegar. A mesma CICIG, que ampliou suas investigações desde então, finalmente topou com supostos delitos de Morales. Ele teria recebido financiamento ilícito para sua campanha, além de ter vários membros de seu partido envolvidos em acusações de corrupção. Também estaria participando de um escândalo de lavagem de dinheiro. Em vez de oferecer explicações, Morales declarou o representante do órgão, o colombiano Iván Velázquez, “persona non grata” na Guatemala.

A Procuradoria local, porém, acolheu a denúncia e pediu ao Congresso que retirasse a imunidade de Morales para que se possa investiga-lo. Houve uma primeira sessão, em que os parlamentares se negarem a abrir o caminho para as investigações contra o presidente. As praças e ruas voltaram a encher-se de gente.

Na última quinta-feira, uma nova sessão para tratar do mesmo tema foi marcada. O Congresso foi cercado pelos manifestantes. Ainda assim, os parlamentares decidiram que Morales não perderia o foro privilegiado. Talvez isso esteja relacionado com o fato de que um quinto deles também esteja no foco da Justiça. Talvez.

Esse dia e essa noite foram largas. As pessoas não deixaram a praça e impediram a saída dos 130 congressistas. Alta madrugada, a polícia chegou e dispersou o protesto, dando espaço para que os assustados e cansados políticos voltassem às suas casas.

Nada, porém, está terminado. Ao contrário. A novela recém recomeça. Agora melhor organizada, a sociedade se mobiliza para seguir protestando. A tendência, por ora, é que as manifestações continuem. Até quando Morales seguirá tendo o Congresso a seu lado, dependerá de como armará seu xadrez político, ao que parece movido pela corrupção tanto quanto o de seu antecessor. Mas o fato é que, ainda que consiga segurar-se na cadeira, a credibilidade do presidente está em queda livre. Como demonstram os cartazes dos manifestantes, que voltam a evocar a sua ocupação anterior, a de palhaço num programa de TV.

Além da imagem de Morales com o nariz vermelho típico dos “clowns”, multiplicam-se os dizeres: “elegemos um palhaço e isso virou um circo”.

É preciso esperar que essa novela termine para tirar dela conclusões definitivas. Mas uma parece clara: a pressão das ruas, nos dias de hoje, é um fator importante e pode determinar a continuidade de um governo desacreditado.

Outra, talvez, seja a de que eleger um chamado “aventureiro”, um não-político, pode não ser a melhor opção caso não se repense também a velha maquinária de financiamentos de campanha. No caso da Guatemala, o caso ainda expõe a necessidade urgente de elucidar os crimes de direitos humanos cometidos pelos ex-militares durante a guerra civil guatemalteca, isso porque os que a levaram à cabo movem a estrutura de vários partidos. Se ficaram impunes por delitos contra a humanidade, porque sentirão que devem prestar contas à sociedade por atos de corrupção?

A história dirá. A boa notícia é que, no caso da Guatemala, a sociedade não parece se contentar mais com a falta de transparência.