Onde está Santiago Maldonado?

Por Sylvia Colombo
Manifestante se prepara para marcha em Buenos Aires, na última sexta-feira (Foto Infobae)

Há um mês, esta é a pergunta que mais se escuta e se lê na Argentina. Está em todas as partes. Ganha de longe das outras preocupações atuais dos argentinos: A inflação vai cair? Carlos Tevez vai ou não voltar ao Boca Juniors? A vitória apertada de Cristina Kirchner nas PASO abre mesmo a porta para que volte à Presidência? O novo filme de Ricardo Darín tem chances de levar o Oscar? Desta vez o frio vai embora de vez? A Argentina vai mesmo ficar fora da Copa da Rússia?

Todas essas preocupações foram para um segundo plano depois que os dias, as semanas foram passando, e nada de notícias sobre o paradeiro de Santiago Maldonado, o artesão de 28 anos que desapareceu no último dia 1 de agosto, depois de participar de um protesto de apoio à causa dos indígenas mapuche da região de Chubut.

Como contamos em reportagem para a Folha Mundo, Maldonado havia viajado à Patagônia para apoiar manifestação de um grupo mapuche instalado aí e que exige a saída da empresa Benetton de um território comprado junto ao governo argentino nos anos 1990 e que os indígenas reclamam pertencer a eles.

A desaparição de Maldonado foi ganhando cada vez mais amplitude nacional e internacional. Hoje, em Buenos Aires, é impossível andar pelas ruas e não ver a imagem do rapaz, barbudo e de olhos claros, em cartazes colados em muros e em pontos de ônibus. A indagação aparece em grafitis em casas, edifícios públicos e até nas faixas de pedestres. Há duas semanas, a indagação virou também um protesto que viralizou nas redes sociais. Famosos e não-famosos passaram a dizer onde estavam, o que faziam e, ao final, lançavam a pergunta: “Onde Está Santiago Maldonado?”.

Na última sexta-feira, na Praça de Maio, diante da Casa Rosada, sede do governo argentino, houve uma imensa marcha pedindo sua reaparição, da qual participaram ativistas, famílias, gente das mais diferentes vertentes políticas. Ao final, houve confusão quando um grupo mais violento reagiu à ação das forças de segurança _houve 23 feridos e 30 pessoas foram detidas. No domingo, depois de darem depoimento, foram liberadas. O ambiente, porém, como se pode imaginar, segue tenso.

Mas por que a questão importa tanto? Em primeiro lugar, porque o fato de que uma pessoa desapareça sem deixar rastro depois de um ato reprimido pelas forças do Estado é algo a ser questionado até que se expliquem os menores detalhes e até que essa pessoa reapareça, e de preferência com vida. Em segundo, o tema ganha ainda mais relevância num país em que a repressão da ditadura militar (1976-1983) “desapareceu” com pelo menos 20 mil pessoas.

Embora a comparação que muitos façam deste caso com o que acontecia durante o regime dos generais não tenha cabimento _estamos em democracia, com um governo eleito pelo voto popular e com boa avaliação até aqui_ a violência de Estado é, sim, um trauma nacional que faz parte da cultura política local com o qual o presidente Macri, por mais que queira se distanciar dos acontecimentos dos anos 1970, precisa administrar com muito cuidado sob o risco de ter sua imagem desgastada.

Organismos sociais e de direitos humanos e partidos de oposição vêm exercendo cada vez mais pressão sobre o governo. Este, por meio de sua secretária de Segurança, Patricia Bullrich, responde que está buscando o rapaz de todas as formas, nega que tenha detido Maldonado durante a manifestação e muito menos que ele tenha sido morto e seu cadáver, escondido. Também acusa os mapuche de não deixarem que a polícia reviste seu acampamento no local. Testemunhas entre os mapuche afirmam terem visto Maldonado ser levado num dos camburões da Gendarmeria.

É preciso ressaltar que os mapuche não são um grupo unificado, e seus modos de ação às vezes provocam controvérsia. Tanto no Chile quanto na Argentina, foram perseguidos e mortos durante a expansão dos limites desses Estados Nacionais no século 19. Em ambos os países se reivindica a reparação de crimes históricos cometidos contra eles e há debates sobre demarcação de terras. Por outro lado, entre as diversas tendências dentro da população mapuche _de quase 2 milhões de pessoas nos dois países_ há desde os que protestam de forma pacífica a grupos mais extremistas, que usam violência, causam incêndios e cometem atentados, o que gera imensa rejeição por parte de ambas as sociedades. É preciso ressaltar que este não é o caso da comunidade que está em Chubut. Até aqui, não usaram a violência senão para reagir, mas de fato estão ocupando parte do território da Benetton e inviabilizando o trânsito e o turismo local com barricadas e manifestações constantes. Seu líder, Facundo Jones Huala, se encontra preso na cadeia de Esquel e espera a definição de um pedido de extradição feito pelo Chile para que responda por delitos cometidos lá.

Como se pode notar, o caso Santiago Maldonado, que nem é mapuche e nem está associado a uma causa ou partido, acabou virando o principal ator político na Argentina de hoje. Se sua desaparição continuar sem explicação, não é apenas Patricia Bullrich quem pode perder o posto, mas também o governo Macri pode chegar desgastado à eleição legislativa de outubro. Por outro lado, os kirchneristas, que abraçaram a causa Maldonado, por um lado estão ganhando pontos junto a ativistas de direitos humanos, mas por outro estão perdendo credibilidade junto aos que consideram que a desaparição do rapaz não pode virar um instrumento político.

Cristina Kirchner, em ato que pede a reaparição de Santiago Maldonado (Foto Clarín)