Com Darín presidente, Argentina é tentada a trair o Brasil

Por Sylvia Colombo
O ator Ricardo Darín, em cena de “La Cordillera” (Foto Divulgação)

Estreou nesta quinta-feira (17), na Argentina, o esperado “La Cordillera”, novo filme do diretor Santiago Mitre, recebido positivamente em Cannes, e que traz Ricardo Darín no papel de presidente da Argentina.

Toda a situação guarda pouca ou nenhuma coincidência com a atual realidade política dos dois países. Ainda assim, alguns paralelos com a dinâmica das relações de poder na região podem ser estabelecidos.

No filme, Darín é Hernán Blanco, presidente argentino recém-eleito e que ainda não se firmou no poder. Recebe várias críticas da imprensa e tem de camuflar um escândalo familiar que pode abalar ainda mais sua frágil imagem. Todo o contrário do presidente real, Mauricio Macri, que anda surfando numa boa onda em termos de popularidade e de respaldo nas urnas.

Já o presidente brasileiro, Oliveira Prete (Leonardo Franco), surge como um líder regional audaz, inflado de vaidade, aprovação e encabeçando a iniciativa de formar uma aliança energética entre os países da região, sob seu comando. Como se pode notar, também o contrário do atual mandatário brasileiro, que de líder regional tem muito pouco, e de popularidade vai muito pior que seu par argentino.

Toda a ação se passa durante os poucos dias de uma imaginária cúpula latino-americana, em plena Cordilheira dos Andes, no Chile. O imenso e gélido hotel onde as intrigas de bastidores têm lugar aproxima o filme político ao gênero de suspense _há algo de Hitchcock e de Kubrick em algumas das situações e na construção do ambiente.

Pois os países ali estão para votar o projeto faraônico do brasileiro. A Argentina se vê, a contragosto, levada a apoiar Oliveira Prete, “porque a relação com o Brasil é estratégica e intocável”, como diz Blanco ao mandatário mexicano, quando este sugere uma ação para derrubar a iniciativa brasileira.

Acuado e prestes a ecoar o que diz dele um jornalista crítico, de que seria “um presidente invisível”, Blanco recebe um inesperado chamado de um agente do Departamento de Estado dos EUA, que o convoca para uma reunião clandestina em Santiago. Ali, sua lealdade com o parceiro estratégico é colocada à prova, assim como sua honestidade como homem público.

No que diz respeito à política, o filme sugere apenas uma caricatura da realidade. Seu foco mais interessante está na história pessoal de Blanco, que vai se revelando mais complicada do que a ideia de “homem comum” com a qual teria ganho a eleição.

Sua filha, Marina (Dolores Fonzi) aparece em frangalhos, com distúrbios psiquiátricos, jogando móveis pela janela do luxuoso hotel e revelando que ainda mantém uma relação com um ex-marido também problemático, envolvido no vício e que acaba de acusar Blanco de corrupção. Para ajudar a filha, o presidente chama um psiquiatra, que a hipnotiza e que, misteriosamente, a faz dizer coisas que não viveu, mas que parecem ser reais e sugerem um passado, ou um outro lado, de Blanco do qual este prefere não falar.

Mitre vem de dois ótimos filmes, “El Estudiante” (2011) e “La Patota” (2015). Neste, porém, sua ambição de criar um thriller político de maior impacto deixa um pouco a desejar. Apesar disso, “La Cordillera” vale ser visto, pelas boas atuações de Darín, Fonzi e do elenco internacional, com Daniel Gimenez Cacho fazendo um mordaz presidente do México, e a veterana do teatro chileno, Paulina García, fazendo uma versão aproximada de Bachelet como presidente do país que hospeda a Cúpula.