Caracas antes do caos

Por Sylvia Colombo
O escritor e jornalista venezuelano, Aníbal Nazoa (Foto Divulgação)

Nem tudo é penúria em Caracas. Se ainda é possível topar numa rua popular com uma obra de Cruz-Diez, encontrar edições baratas de obras da incrível Biblioteca Ayacucho, que formou gerações de estudiosos da América Latina, e ter notícias de cineastas se reiventando em outros países é porque nem tudo está perdido.

Pelo menos foi essa a sensação que tive ao ler “Puerta de Caracas”, uma edição nova, em homenagem aos 450 anos da cidade, que reúne as melhores crônicas do sarcástico jornalista venezuelano Aníbal Nazoa (1928-2001).

Trata-se de uma coletânea das colunas que o escritor publicou regularmente no jornal “El Nacional” nas décadas de 1970, 1980 e 1990. O “El Nacional”, cabe lembrar, chegou a ter um dos melhores cadernos culturais da região, onde escreviam, entre outros, intelectuais sul-americanos que tiveram de emigrar durante as ditaduras dos anos 1970, como o argentino Tomás Eloy Martínez (1934-2010) _que chegou também a editar a seção.

Em suas colunas, Nazoa não falava de temas políticos, ao menos não diretamente. Elas tratavam da vida e das idiossincrasias de Caracas, e de como o cronista via de modo vertiginoso sua transformação: crescendo em população, em arranha-céus, em obras públicas, no trânsito e na proliferação de centros comerciais, entre os anos de 1972 e 1992.

Entre os alvos de suas ácidas críticas estavam, por exemplo, os grandes cartazes de propaganda que começavam a proliferar ao longo das grandes avenidas da cidade. Não só por sua feiúra, alertava, mas também “pelos erros de ortografia que fariam Andrés Bello revirar-se no túmulo”, referindo-se ao filólogo, ensaísta e poeta venezuelano (1781-1865).

Aspectos do dia-a-dia eram seu tema mais corrente, sempre com bastante bom humor. Num dos textos, trata dos então peculiares táxis de Caracas, que até bem pouco tempo atrás não eram regidos pelo taxímetro _hoje em dia, infelizmente, esse tipo de transporte sequer circula muito, por conta das barricadas e dos protestos, foram substituídos pelos moto-taxis.

De todo modo, dizia Nazoa em seu tempo: “Nem o melhor matemático do mundo é capaz de estabelecer um cálculo aproximado sobre o custo real de uma corrida de táxi em Caracas.” De fato, por muito tempo foi assim. O passageiro entrava no carro, dizia onde ia, e o motorista dava o preço. Podia-se aceitar resignadamente, barganhar ou simplesmente sair do automóvel e buscar outro.

O trânsito era um assunto que o angustiava profundamente. Ao voltar de uma viagem a Londres, compara as soluções da urbe europeia com as da cidade-natal, e joga questões às autoridades locais. “Por que todas as linhas de ônibus têm de rumar para um só local (El Silencio)? Em Londres podem mover-se, sem tropeço, dez ou doze milhões de pessoas todos os dias, enquanto aqui temos escassos dois milhões e vivemos dentro de engarrafamentos.”

Uma das crônicas mais divertidas é ficcional. Um sujeito acorda acreditando que está louco e por isso busca um hospital, mas encontra apenas centros comerciais _que tiveram um “boom” em Caracas nessa época. Pede informações, mas todas incluem atravessar um mar de centros comerciais, até que chega ao hospital, agora transformado também em centro comercial. Decepcionado, ao tentar voltar para casa, descobre que a mesma está sendo demolida para dar lugar a um novo… centro comercial.

Nazoa culpava a transformação caótica da cidade a uma “guerra que os magnatas da construção declararam a Caracas, uma cruel guerra destinada a converter esta capital no lugar mais desagradável do planeta”.

As críticas ao crescimento desordenado da cidade são mescladas com comentários sobre os costumes. Ataca de forma irônica os que, a essa altura da história, ainda queriam ver touradas na cidade ou a mania de se transformar parques em cinemas ao ar livre, nos quais, segundo ele, ninguém dava bola para o filme. Comenta, ainda, o uso da língua, os modos no comércio, as diferenças entre as distintas partes da cidade.

Nazoa também passeava pelos bairros mais humildes e tratava o abandono por parte dos partidos que se revezaram no poder até a chegada do chavismo, a Ação Democrática e a Copei. É nesse ponto que sua escrita se torna mais política, ao demarcar a divisão que até hoje caracteriza a cidade. Os bairros do centro e do oeste, contra os de elite, do leste, polarização que está no centro dos enfrentamentos atuais.

É uma pena que o autor não tenha vivido para ver a Caracas da atualidade com seu olhar lúcido, crítico e, acima de tudo, apaixonado pela sua cidade. Seria de grande valia para que impedisse sua diluição em tempos tão turbulentos e violentos.