O enigma Humala

Por Sylvia Colombo
Ollanta Humala em seus tempos de Exército (Foto Arquivo)

Dos ex-presidentes latino-americanos dos últimos quinze anos, Ollanta Humala (2011-2016) é o que tem a trajetória mais difícil de classificar e das mais fascinantes em termos de reviravoltas e mistérios. Humala é uma demonstração concreta de que a simples aplicação dos termos “direita” e “esquerda”, do modo como foram concebidos originalmente, não são de fácil ajuste no Peru, um país excepcional em vários aspectos em relação a seus vizinhos.

Ali, entre outras coisas, um militar protagonizou uma ditadura de esquerda (Velasco Alvarado, entre 1968 e 1975) e realizou várias reformas de cunho social, enquanto grupos indigenistas adotaram um discurso confrontativo que permaneceu fiel ao território que havia antes das fronteiras do chamado Peru moderno. Enquanto isso, guerrilhas extremistas de esquerda povoaram a Cordilheira desafiando o poderio de Lima. Durante anos, correu muito sangue daquelas montanhas devido a disputas ideológicas que misturam teorias do passado e do presente.

Para entender um pouco este homem que caiu na rede do esquema de corrupção da Odebrecht e cumpre agora uma prisão preventiva de 18 meses, enquanto se investiga sua bastante provável participação nele, é preciso voltar às suas origens e às de sua família.

Humala é o terceiro de sete filhos de Isaac Humala, 86, uma figura algo mítica no Peru. Trata-se do idealizador do “etnocacerismo”, um movimento político ultranacionalista, que mistura militarismo e indigenismo. Os etnocaceristas evocam o período de hegemonia do Império Inca e têm também como referência, justamente, o “socialismo militar” do general Velasco Alvarado. O nome homenageia ainda o general Cáceres, um herói da luta peruana contra o Chile durante a Guerra do Pacífico (1879-1883).

Foi sob o comando do pai, Isaac, que Humala e seu irmão Antauro participaram de ações paramilitares até hoje envoltas em neblinas, até que o ex-presidente entrou para o Exército e ajudou a combater a guerrilha do Sendero Luminoso. Em 2000, já na reta final do governo Fujimori, às vésperas da retirada deste para o Japão, Humala e Antauro voltaram a protagonizar um levante rebelde juntos, desta vez contra o então presidente.

Presos, mas depois anistiados, os irmãos tomaram rumos distintos. Enquanto Humala seguiu carreira militar e aproximou-se da política, Antauro seguiu nas ações ilegais, comandou um ataque classificado como terrorista contra uma estação policial em Andahuaylas, em 2005. Foi condenado e desde então está preso, cumprindo uma pena de 25 anos. Logo que soube da prisão do irmão Ollanta, Antauro comemorou, pois guarda até hoje rancor pelo fato de este não tê-lo indultado quando estava no poder.

Humala seguiu carreira como adido militar nas embaixadas peruanas em Paris e em Seul. Quando retornou, em 2004, aposentou-se das armas e criou o Partido Nacionalista Peruano, aos moldes do “socialismo do século 21” que já despontava na região, comandado por Hugo Chávez, na Venezuela. A primeira campanha eleitoral de Humala, em 2006, foi marcada por sua relação com o chavismo, que forneceu apoio político e financeiro para a campanha.

Não funcionou. A rejeição dos peruanos ao projeto bolivariano fez com que Humala perdesse para Alan García (2006-2011), que se apresentou como voz moderada, apesar de ser também um populista clássico. Além disso, também nessa época surgiram acusações, nunca comprovadas, de que Humala, com outros oficiais, teria cometido abusos contra a população civil em sua atuação contra o Sendero, no interior do país, o que ajudou a manchar ainda mais sua imagem.

Em 2011, Humala retornou completamente repaginado. Comprometeu-se com a democracia, aproximou-se de empresários e intelectuais e ganhou seu apoio, selado numa noite na Universidade de San Marcos, em que jurou seu comprometimento, lendo o documento “Compromisso em Defesa da Democracia”.

Então, até o Nobel Vargas Llosa, com ressalvas, pediu apoio dos peruanos a Humala, diante da ameaça do retorno do fujimorismo, por meio da candidatura de sua filha, Keiko Fujimori.

Com uma diferença pequena de votos, o ex-oficial do etnocacerismo venceu Keiko.

Ollanta Humala, em discurso, já durante sua gestão (Foto El Comercio)

Humala não descumpriu suas promessas. Em seu governo, reforçou na economia a abertura do país ao investimento estrangeiro, o PIB cresceu, empurrado pelo “boom” das commodities, e o governo implementou uma série de programas sociais que, se não terminaram com a imensa desigualdade social do país, pelo menos foi eficiente em reduzir a pobreza. Não houve perseguição ou atropelos à liberdade de imprensa nem ameaças graves às instituições.

Porém, a instabilidade política, causada pela frágil aliança de partidos que compunham sua base de apoio, marcou seu mandato, em que vários ministros e membros da cúpula foram caindo após a revelação de escândalos de corrupção. Humala foi vendo sua popularidade despencar, como também costuma ser praxe no Peru.

O fato é que deixou o poder de modo curioso. Embora bem avaliado, sua popularidade ficou estancada em 19%.

Nos últimos dias vimos um Humala de semblante tranquilo entregando-se à Justiça e sendo transportado de helicóptero ao mesmo presídio em que, quase que de forma irônica, também está o homem contra quem se rebelou no passado, o autocrata Alberto Fujimori, hoje cumprindo pena de 25 anos por corrupção e crimes de lesa humanidade.

Se a primeira prisão de Humala havia sido envolta por um ar de heroísmo _afinal, era um rebelde levantando-se contra um poder autoritário_, há tristeza nesta segunda detenção. Desta vez, trata-se de um político decadente que, apesar de ter crescido e se alimentado de ideais ancestrais, nobres e nacionalistas, aparentemente não resistiu e caiu na teia da corrupção latino-americana.

É preciso atentar para o fato de que a prisão preventiva de Humala, apenas, não significa que a Justiça peruana esteja sendo mais eficiente que as demais da região. Não é por acaso que quem cai primeiro é o político mais frágil, com poucos aliados dentro e fora do “establishment” da política atual.

Há que se perguntar, sim, se haverá insistência na extradição ou ao menos na prestação de contas por parte de Alejandro Toledo, fugitivo nos EUA _que pode implicar o atual presidente, PPK, que foi seu primeiro-ministro. E mais, se será denunciado também Alan García, este sim um “peixe gordo”, também presidente no período abarcado pela Lava-Jato, mas, diferentemente do solitário Humala, ancorado numa aliança de partidos que há tempos maneja as relações entre poder e empresariado no Peru.

Como ficará o nome de Ollanta Humala nos livros de história, ainda estamos por descobrir.