A batalha contra os tupamaros

Por Sylvia Colombo
Marcha de apoio aos tupamaros (Foto Arquivo)

Desde que o ex-líder tupamaro José “Pepe” Mujica, 82, deixou a Presidência, em 2015, parte da sociedade uruguaia anda engajada em desprestigiar não apenas a ele, mas também ao movimento que o celebrizou. Os tupamaros foram uma guerrilha urbana que, apesar de ter surgido em tempos democráticos, atuou principalmente durante a ditadura (1973-1985).

Muitos “tupas” cumpriram longas penas de prisão por suas atividades classificadas como terroristas durante o regime. Quando saíram, em tempos de democracia, alguns passaram a se dedicar à política de forma democrática, como Mujica, Raúl Sendic, Eleuterio Fernández Huidobro. Outros, se aposentaram. Uma minoria, porém, como ressaltou o próprio Mujica recentemente no Congresso, onde é senador, seguiu nas atividades delitivas que antes serviam para arrecadar fundos para o movimento _entre eles o roubo e a extorsão.

Ficaram conhecidas como “tupabandas”, e foram perseguidas pela polícia. Prevaleceu, porém, entre os líderes tupamaros, o consenso de que aqueles eram tempos de largar as armas e de atuar na política de modo democrático. Passaram, assim, a integrar a Frente Ampla, coalizão de esquerda que governa o país desde 2005.

Nos últimos tempos, porém, começaram a surgir livros de investigação sobre as ações das chamadas “tupabandas”, classificando-as não apenas como uma dissidência criminosa dos tupamaros. O mais recente é o de uma renomada jornalista, María Urruzola, e se chama “Eleuterio Fernández Huidobro – Sin Remordimientos” (ed. Planeta). Com a justificativa de fazer uma biografia deste que esteve entre os fundadores do movimento, foi ministro de Mujica e morreu no ano passado, Urruzola utiliza a narrativa para fazer uma séria acusação.

Segundo ela, as “tupabandas” teriam ajudado, com roubos e extorsões realizados entre 1985 e 1998, a arrecadar fundos de mais de US$ 20 milhões para campanhas eleitorais da Frente Ampla.

O livro traz depoimentos de interesse para entender a história tupamara e a trajetória de Fernández Huidobro. Porém, esta acusação pontual carece de base jornalística, está apoiada apenas em uma única fonte, e de forma algo irresponsável coloca Huidobro, que já não pode defender-se pelo fato de estar morto, na posição de uma espécie de administrador dos fundos de campanha obtidos de forma criminosa. O livro causou um imenso rebuliço, abriu-se uma causa na Justiça, posteriormente fechada por falta de provas.

A obra criou, ainda, um imenso mal-estar e fez aprofundar a atual “grieta” na sociedade uruguaia. De um lado, há uma revolta profunda de ex-tupamaros e simpatizantes do movimento contra essa nova campanha contra eles e a falta de reconhecimento que creem que merecem por seu papel na redemocratização do país.

De outro, está o grupo que sempre se opôs a eles e que agora demonstra cansaço após tantos anos de governo da coalizão que os abraça. Isso ficou nítido, por exemplo, em um editorial recente do conservador “El País” local (sem relação com o “El País” espanhol), que pedia uma investigação a fundo sobre as verdadeiras motivações do grupo e uma revisão da história.

Neste contexto de ataques ao legado tupamaro, foi atingido também o atual vice-presidente da República, Raúl Sendic, filho de um dos fundadores e principais nomes do grupo. Acusado de ter usado um cartão de crédito corporativo para uma compra pessoal no exterior, pede-se sua renúncia.

A estes fatos recentes, vão se se somando acusações de corrupção durante o governo Mujica, e outras de desmandos nas áreas de educação e segurança. Num programa recente de televisão, o ex-líder tupamaro não se aguentou e surpreendeu a todos mais uma vez.

Disse que “algumas coisas só se resolvem a tiros” (veja vídeo abaixo) e lamentou que “neste país não exista mais a Lei de Duelos”, referindo-se a uma legislação que existia no passado e que permitia àquele que sentisse ter tido a honra abalada, defender-se por meio de um duelo. “Com a espada, acho que não ganho, porque estou velho, mas com uma arma, é capaz que funcione”. O comentário saiu engraçado, no estilo Mujica, mas o passado que evoca é de uma divisão sangrenta e de disputas que ficariam melhor guardadas nos livros de história, e não novamente nas ruas.