Marginalidade na AL volta a ser tema de boa obra televisiva

Por Sylvia Colombo
Juan Minujín e Martina Gusmán em “El Marginal” (Foto Divulgação)

Mais uma vez a bandidagem e o mundo do crime na América Latina estão por trás de uma eletrizante produção televisiva, conquistando a muitos com sua mistura de suspense e exposição de uma dura realidade social. Aconteceu com “Escobar – El Patrón del Mal”, na Colômbia, e agora com “El Marginal”. Febre na Argentina, essa produção da TV Pública, logo abraçada pela Netflix e agora distribuída a 70 países (Brasil incluído), com 13 episódios, venceu as principais categorias do prêmio Martín Fierro, uma espécie de Oscar do mundo do espetáculo na Argentina.

Até o presidente Mauricio Macri se mostrou um fã da série e teria dito, numa reunião de gabinete, ter aprendido sobre o sistema carcerário do país com ela.

Escrita pelo renomado cineasta uruguaio Adrián Caetano (“Crônica de Uma Fuga”, “Bolívia”) e dirigida por Luis Ortega, tem como protagonistas os atores Juan Minujín e Martina Gusmán. A trama conta a história do ex-policial Miguel Palacios (Minujín), que entra como prisioneiro na cárcere de San Onofre _filmada nas ruínas de uma antiga prisão, em Caseros.

Palacios é na verdade um infiltrado. Sua identidade é falsa, assim como sua pena (um suposto duplo homicídio). Sua missão, na verdade, é resgatar a filha de um juiz, sequestrada por um bando de mafiosos que comanda a prisão. O plano, apesar de arriscado, parece bem planejado. Palacios atua com a ajuda do irmão, Fernando, um advogado, que o protege e cobre suas atividades do lado de fora. A coisa desanda, porém, quando este irmão decide ir além do que simplesmente salvar a garota, e pede ao tal juiz um resgate milionário. O juiz não aceita, mata Fernando, e Miguel se vê, de repente, metido dentro da prisão, sem proteção, e tendo de se comprometer com sua lógica interna de delitos: tráfico de drogas, acertos de contas, rebeliões e brigas internas entre quadrilhas.

Sua única esperança passa a residir na assistente social Emma (Martina Gusmán, de “Leonera” e “Elefante Blanco”), a quem revela seu problema e por quem se apaixona. O romance avança, mas acaba colocando Emma também em conflito consigo mesma. Engajada e comprometida com a ética de sua profissão, acaba sendo obrigada a fazer coisas fora das regras para ajudar Miguel.

Apesar de guardar semelhanças com o sistema penitenciário brasileiro exposto em filmes nacionais, como a degradação física das prisões, a corrupção de parte dos carcereiros e dos diretores das instituições, “El Marginal” mostra que a realidade argentina tem suas peculiaridades, como as cadeias com muito mais estrangeiros (colombianos, paraguaios, chineses), que as transformam num mix cultural mais variado.

O roteiro bem escrito e cheio de suspense é complementado por boas atuações também de atores que fazem papéis secundários, como os dois irmãos que são chefes de um dos bandos da prisão, os Borges, interpretados por Claudio Rissi e Nicolás Furtado, e Gerardo Romano, que faz um cínico e cômico diretor da cadeia, Antín.

Depois do prêmio, foi anunciado que a série terá uma segunda temporada para 2018.