Romance evoca passado esquecido e isolado do Paraguai

Por Sylvia Colombo

 

A escritora equatoriana Gabriela Alemán, autora de “Humo” (Foto La Republica)

Nascida no Rio de Janeiro e criada em diferentes países, a equatoriana Gabriela Alemán, 48, acaba de lançar “Humo” (Penguin Random House, importado), uma história que se passa no Paraguai, onde viveu anos da adolescência e jogou basquete pelo Olimpia.

Apesar de morar hoje na América Andina, em Quito, uma parte importante de suas memórias tem a ver com o Cone Sul, e foi essa a inspiração para escrever este que é uma espécie de romance histórico, misturado a uma trama de suspense, e que se passa em distintos momentos.

Um deles é talvez o episódio mais sangrento da história da região no século 20, a Guerra do Chaco, entre Bolívia e Paraguai (1932-1935), que deixou cerca de 90 mil mortos. O livro também investiga a escalada ao poder do general Alfredo Stroessner (1912-2006), também o ditador mais longevo dessa zona, e que governou o Paraguai por 35 anos (1954-1989). Mais do que isso, explora as chagas do violento regime deixadas na sociedade e nas relações pessoais até os dias de hoje.

Na obra, uma personagem de nome Gabriela, como a autora, retorna ao país após 17 anos, instigada pelo conteúdo de um envelope que lhe deixou um amigo já morto.

Vencedora do prêmio de contos Gabriel García Márquez e selecionada na lista Bogotá 39, Alemán lançou o livro na Colômbia e no Equador, por enquanto _mas este pode ser comprado daqui em formato e-book.

Abaixo, segue entrevista que Alemán, que além de boa romancista é uma excelente anfitriã em Quito, deu à Folha.

Folha – Em que sentido sua experiência pessoal _ter tido um pequeno problema na perna recentemente e ter vivido no Paraguai nos anos Stroessner_ te guiaram na escritura de “Humo”?

Gabriela Alemán – Me apoiei nesses conhecimentos de primeira mão para construir a história. A bengala ecoando na casa que se desfaz me ajudou a criar uma sensação de agonia e de terror. Da mesma maneira em que a protagonista habita em sua dor, era uma dor que podia ser invocada.

O silêncio, o medo e o autoritarismo presentes no final dos anos 1980, no Paraguai, eram algo que eu havia vivido. Não tive que construir um universo para o romance sem ter outra referência que testemunhos ou leituras. Tinha uma base real na qual apoiar-me.

Folha – Como se lê, no Equador, o tipo de romance que se produziu no Cone Sul desde os tempos da ditadura? De alguma forma se sente influenciada por autores como Tomás Eloy Martínez (Argentina), Carlos Liscano (Uruguai), Martín Kohan (Argentina), Alberto Fuguet (Chile) ou outros, de distintas gerações, que buscaram e ainda buscam compreender aqueles anos pela via literária?

Alemán – Eu os li, e também vi muito do cinema que o Cone Sul produziu após o retorno à democracia, e o que se produz hoje em dia. Há distintos momentos. Creio que existe a necessidade de visualizar, de falar, de tentar entender, de repensar e de olhar desde outro lugar.

“Humo” está inscrita numa certa tradição do Cone Sul, mas que remonta ainda mais ao passado. O romance está atravessado também por textos do século 19 escritos por Rafael Barrett (1876-1910), onde se fala sobre a exploração do campo, sobre a falta de democracia e a precariedade de um país que havia atravessado a ditadura do doutor Francia, a dos López e a a Guerra da Tríplice Aliança.

A história paraguaia flutua como fumaça sobre todo o romance _a história dos séculos 19, 20 e 21. E também há uma referência a uma crônica do argentino Rodolfo Walsh que não é gratuita, que vai além da referência concreta, e que busca inserir o Paraguai de Stroessner dentro dessas narrativas às quais você se refere.

Folha – Ainda relacionando com a pergunta anterior, como crê que “Humo” dialoga com a tradição latino-americana das chamadas “novelas de ditador”, como as que escreveram Augusto Roa Bastos, Miguel Ángel Asturias, Gabriel García Márquez e outros?

Alemán – Eu as tive presentes. Reli “Eu, o Supremo” (Roa Bastos) enquanto escrevia “Humo”, mas em nenhum momento foi minha intenção escrever desde este lugar.

Se em algo “Humo” busca distanciar-se é dos livros do “boom” e das novelas totalizantes. “Humo” está construída por fragmentos, diferentes pontos-de-vista e de vozes, de tempos distantes e paralelos. Está escrita desde o lugar dos homens e mulheres que viveram antes, durante e depois da ditadura Stroessner; não é um romance sobre o poder.

Folha – O Paraguai e a literatura paraguaia não são muito conhecidos fora do Cone Sul, e especialmente na América Andina. Crê que isso, associado à imagem de suas memórias num país em que você viveu no passado o transformam em terreno ideal para fazer literatura? Seu isolamento hoje ajuda a afinar o vínculo com sua uma memória desse lugar?

Alemán – Sim, o desconhecimento do Paraguai e a falta de interesse por esse país dificultou, num primeiro momento, que se publicasse o livro. Mas agora parece ser um “plus”. Tanto no Equador como na Colômbia, onde o livro está circulando _ainda que se possa conseguir a versão digital desde qualquer país_ há um interesse renovado por falar do Paraguai e de sua peculiar história e sua relação, por exemplo, com o processo de paz pelo qual passa a Colômbia.

Folha – Há elementos de suspense, thriller gótico, e se trata de uma novela histórica. Por que escolheu esse caminho?

Alemán – Creio que “Humo” permite várias leituras. Há investigação histórica, há dados reais, mas são informações que utilizei para fazer com que soasse verossímil a história que eu contava.

Não pensei em escrever um romance histórico, ainda que se possa ler assim. É também uma saga familiar, uma novela de suspense e de terror gótico.

Folha – Li que você demorou mais de 10 anos para escrever “Humo”. O que foi mais difícil?

Alemán – Que se publicasse. Foram tantas as reescrituras, e depois insisti para que não voltasse à gaveta. Também foi difícil convencer editoras aqui do Equador ou da Argentina em publicar um romance sobre o Paraguai, sobre seu passado. Foi questionado por que uma equatoriana deveria escrever sobre o Paraguai, por exemplo.

Isso me levou a mudar algumas coisas, como o começo, para que se iniciasse no presente e fosse para o passado, para que falasse a um leitor contemporâneo.

Folha – E por que a Guerra do Chaco? Vê seus efeitos no Paraguai dos dias de hoje?

Alemán – Cheguei à Guerra do Chaco porque foi nesse momento em que começou a escalada de Stroessner dentro da hierarquia do Exército paraguaio. E porque é uma guerra que representa o pior das guerras que ocorreram no continente: a falta de sentido, a morte e a decadência econômica que veio depois.