Mesmo com crise, mercado editorial argentino parece mais vivo que o brasileiro

Por Sylvia Colombo
Feira do Livro de Buenos Aires, que terminou na última segunda-feira (Foto Divulgação)

Apesar de não existirem muitas estatísticas que possam oferecer uma comparação técnica precisa sobre a movimentação dos mercados editoriais do Brasil e da Argentina, alguns índices comuns permitem perceber que, apesar de ambos os países terem sido impactados fortemente pela crise econômica, os leitores argentinos permanecem sendo mais fieis ao hábito da leitura, comprando, frequentando eventos literários e movimentando a indústria local.

Essa é uma das conclusões a que se pode chegar ao comparar, por exemplo, o número absoluto de títulos lançados anualmente. Segundo a Camara Argentina del Libro, este vem se mantendo, nos últimos tempos, em 28 mil novos títulos lançados por ano. No Brasil, houve uma queda de -1,16% de 2016 com relação a 2015. Hoje, o número de títulos lançados anualmente é de 51.819, segundo o último relatório da Câmara Brasileira do Livro e do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel).

Ora, 51.819 títulos é bem mais do que 28.000, mas não chega nem mesmo a ser o dobro. E, se compararmos a população dos dois países _o Brasil com seus 207 milhões de habitantes e a Argentina, com 43 milhões, notamos que, proporcionalmente, há muito mais público leitor no país-vizinho.

Para enfrentar a queda das vendas de livros em quase 20% nos últimos dois anos, as editoras argentinas apostaram não em publicar menos, mas em manter o tamanho da oferta de títulos, só que reduzindo suas tiragens. De tiragens médias de 3 mil exemplares, muitos selos preferiram apostar em lançamentos de menor escopo, com primeiras edições de 2.500 ou mesmo de 2 mil exemplares.

Na Argentina, não há compras sistemáticas por parte do Estado para bibliotecas públicas, algo que dá fôlego a muitas editoras no Brasil. Dos 28 mil títulos anuais, 40% são obras de literatura para adultos, e entre os outros 60% estão principalmente os didáticos e um crescente número de títulos juvenis.

A Feira do Livro deste ano fechou com um balanço positivo para um período econômico difícil, com uma inflação de 40%. Em relação ao ano passado, vendeu-se 20% mais durante os dias do evento, e o público, que sempre rondava 1 milhão (em três semanas de feira), desta vez ultrapassou o 1,2 milhão de visitantes. A razão disso está relacionada a um programa de distribuição de ingressos gratuitos para jovens da periferia e um incremento em atividades para essa faixa.

Por outro lado, a programação artística também esteve caprichada. Vieram os Nobeis J.M. Coetzee (África do Sul) e Mario Vargas Llosa (Peru), autores de primeira linha como o alemão Bernhard Schlink e o espanhol Javier Cercas, best-sellers como Jojo Moyes (Inglaterra) e Carlos Ruiz Zafón (Espanha), além de outros 100 convidados internacionais e um incrementado time de autores argentinos.

Bernhard Schlink, autor de “O Leitor”, que deu origem ao filme homônimo, em cartaz da feira

Uma constante nesses eventos é a proliferação de obras políticas. Quase um gênero à parte, são livros de jornalistas sobre figuras ou fenômenos históricos recentes, que investigam e analisam a realidade atual e são consumidos com avidez. Os hits deste ano foram “M”, uma biografia do presidente Mauricio Macri, por Laura Di Marco, “Kirchner – El Tipo que Supo”, de Mario Wainfeld, “Fueron por Todo”, de Nicolás Wiñazki ,e “Mentir a Diario”, de Víctor Hugo Morales. Mostrando que a “grieta” entre peronistas e anti-peronistas segue viva como nunca, o número de títulos pró e anti o atual governo esteve mais ou menos equilibrado.

Se na Feira predominam as vendas das grandes editoras, as mais independentes e os selos pequenos _nascidos justamente durante os anos do kirchnerismo, em que o país teve mais travas à importação, dificultando a entrada de livros_ fazem sua festa em poucas semanas. Entre 9 e 11 de junho, 140 selos participarão da Feria de Editores, que ocorre num espaço descolado no bairro de Chacarita, com direito a palestras, vinho em copo de plástico e papo na calçada, enquanto do lado de dentro as editoras dividem um espaço minúsculo disputadíssimo pelos compradores.

Para o segundo semestre, ainda se aguarda a programação da Filba, agora estendida a vários endereços na cidade, enquanto o Ministério da Cultura se prepara para armar as delegações da Argentina para as feiras de Madri, Guayaquil e Bogotá do ano que vem, uma vez que as três escolheram a literatura argentina como a homenageada em suas próximas edições.