Farc iniciam fase democrática com crítica à Odebrecht

Por Sylvia Colombo

O processo de instalação dos ex-guerrilheiros das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) nas chamadas “zonas veredales” ou de segurança ainda não está completo, suas armas não foram totalmente entregues e seu partido político ainda não está formado nem registrado. Porém, as Farc já começaram a fazer propaganda de sua nova roupagem, a de um partido político prestes a entrar no jogo da democracia, como está garantido no acordo de paz firmado com o Estado no fim do ano passado.

Os ex-guerrilheiros estão de olho nas eleições presidenciais e legislativas de 2018. A estratégia de lançamento da milícia na política começou com a divulgação de alguns spots publicitários.

O que vem chamando mais atenção é este acima, que critica a corrupção instalada na sociedade e na política colombianas. Um casal pede a conta num restaurante e assusta-se com o preço. O garçom, sorridente, explica que as taxas extras são para pagar os desvios de dinheiro público em diversos escândalos recém revelados, entre eles o da Odebrecht _segundo o Departamento de Justiça dos EUA, a empreiteira brasileira teria pago US$ 11 milhões ao país governado por Juan Manuel Santos.

Guerrilheiro das Farc, ainda com arma em punho (Foto AP)

Muitos consideraram o lançamento inapropriado, pois a sociedade segue dividida quanto à participação da ex-guerrilha nas próximas eleições. É preciso lembrar que o “não” foi vencedor do plebiscito, em outubro, e o acordo só foi possível depois de uma manobra e aprovação parlamentares.

A senadora María del Rosario Guerra foi uma das que se posicionou contra a divulgação dos vídeos. “Se ainda não são um partido, de modo formal, e mantêm armas em punho, não têm autoridade moral para fazer propaganda contra a corrupção.” A congressista também chama a atenção para o fato de o vídeo tocar no desvio de verbas do sistema de saúde nacional. “É uma vergonha que ataquem a questão da saúde, justo eles que se dedicaram por tantos anos a assassinar gente.” Há, ainda, uma menção de pagamento de propina da Odebrecht à guerrilha, ainda não esclarecido.

Por outro lado, os spots surgem em momento oportuno politicamente. O presidente e Nobel colombiano Juan Manuel Santos foi chamado à declarar na Justiça justamente sobre o escândalo Odebrecht, que vem colaborando para desgastar ainda mais sua imagem, cuja aprovação vem em queda livre. Como o pagamento de propinas no país andino envolve também a outra principal força política do país, o partido do ex-presidente Álvaro Uribe (Centro Democrático), a guerrilha está tentando se apropriar da bandeira anti-corrupção e do cansaço generalizado da população com os partidos tradicionais. Trata-se de uma aposta sintonizada com a de novos partidos e novos políticos que rejeitam o establishment político e que vêm ganhando eleições e adeptos pelo mundo. Pode ser acertada nesse sentido. A interrogação que fica no ar é se irão conquistar adeptos a tempo das eleições, antes mesmo de terminar de prestar contas de seus crimes e de completar o trabalho de reparação e de pedidos de desculpas por seus atos de terror.