Fantasma do franquismo ameaça e estimula Javier Cercas

Por Sylvia Colombo
O escritor extremenho Javier Cercas, que vem a Buenos Aires lançar livro, em Barcelona (Foto ABC)

Javier Cercas, 55, não é franquista, longe disso. Seus romances trazem a Guerra Civil espanhola (1936-1939) à tona porque o escritor catalão crê que é preciso entende-la em sua complexidade e sem maniqueísmos. Seus “haters”, porém, não parecem entender seu propósito e não o deixam em paz. Além das agressões nas redes sociais, querem saber por que, mais de uma vez, o autor insiste em retornar ao passado desta dolorosa guerra que cindiu a Espanha para interrogar a Falange (partido fascista que apoiou Franco), seus integrantes e entender como ela se apoderou da mente de tantos espanhóis.

A resposta é simples, disse Cercas recentemente em entrevistas na Espanha: porque ele não quer que essa história se repita e está assistindo a um possível retorno de uma ideologia fascista no mundo, só que com nova roupagem.

Seu interesse pelo tema impulsou-o, primeiro, a escrever, em 2001, seu romance mais famoso até aqui, “Soldados de Salamina”. Nele, recuperava ficcionalmente a história de um miliciano republicano que, de modo misterioso, havia salvado a vida de um falangista famoso, o escritor e intelectual do franquismo Sánchez Mazas.

Agora, o autor extremenho virá a Buenos Aires para lançar, na Feira do Livro, que começa no próximo dia 27, “El Monarca de las Sombras” (Random House), no qual investiga e relata a história de um tio-avô que se juntou às fileiras de Franco quando tinha 17 anos e morreu pouco depois, na Batalha de Ebro.

Misturando investigação pessoal com ficção, “El Monarca de las Sombras” refaz a trajetória de Manuel Mena, nascido em Extremadura, de uma ramo muito conservador de sua própria família. Seus pais tinham poder e dinheiro na região, mas ambos se encontravam ameaçados pela República. Ao construir essa breve biografia, na qual revisitou os locais e falou com poucos sobreviventes do episódio, Cercas analisa as razões pelas quais, naqueles anos 30, as ideias fascistas eram tão sedutoras para uma juventude que via nelas uma força renovadora e inspiradora. “O fascismo era o moderno, era o anti-capitalismo”, diz.

Para o autor, seu parente não passou de uma vítima de “um bando de filhos da puta que envenenavam o cérebro dos garotos, para depois envia-los ao matadouro”.

O soldado franquista Manuel Mena, tio-avô de Cercas (Foto Divulgação)

Cercas alerta para algo que parece se repetir de tempos em tempos na história, e que pode estar batendo em nossas portas novamente. Ao referir-se à geração de seu tio-avô, o escritor identifica um cansaço daquela juventude com relação à política de então, além de uma rejeição ao totalitarismo soviético. Isso tudo junto, de forma ainda mais marcada no interior do país, teria levado meninos como Manuel Mena a apoiarem uma força que parecia não relacionada à política tradicional, e que se mostrava como realmente transformadora.

Através de sua narrativa envolvente e provocativa, “El Monarca de las Sombras” arremete contra a própria sociedade espanhola atual. Numa das entrevistas, lembrou que, “depois do franquismo, se ouvíssemos apenas os meios de comunicação e os partidos políticos, tínhamos a impressão de que ninguém na Espanha havia sido franquista”. E que isso, considera, é uma grande hipocrisia ainda nos dias de hoje, uma vez que vê um setor da sociedade ainda capaz de abraçar as mesmas causas a que se aferrou no passado.

“É por isso que entender não é justificar”, responde, quando questionado sobre a razão de trazer à tona o passado franquista da própria família. Porém, ainda que responda com argumentos sólidos e que a novela deixe claro que seu esforço é compreender seu próprio país naqueles anos, Cercas vem sendo vítima dos que o acusam de fascista e revisionista, até mesmo de negacionista.

Talvez a esses críticos faltasse ler o livro de fato. E, principalmente, lembrar-se que a liberdade de expressão era uma bandeira daqueles que combateram e morreram para derrotar a ditadura franquista. Cercas, no fundo, teve muita coragem de revolver o passado e expor o lado obscuro de seus ancestrais. “El Monarca de las Sombras”, apesar de contar uma história de quase um século atrás, é muito atual, pois se refere à sedução que ideias políticas anti-sistema, divulgadas por líderes carismáticos, podem exercer sobre jovens _e não tão jovens. Talvez o assunto não se limite à Guerra Civil espanhola e tenha mais a ver com o estado das coisas no mundo de hoje do que aparenta à primeira vista.