Aniversário ilumina a atualidade de Octavio Paz

Por Sylvia Colombo
O prêmio Nobel mexicano, Octavio Paz (Foto Letras Libres)

Em mais um aniversário de nascimento do escritor e Prêmio Nobel mexicano, Octavio Paz (1914-1998), não há como não se perguntar o que o autor de “O Labirinto da Solidão” estaria pensando sobre o atual momento de seu país.

Encontro algumas sugestões de resposta para isso no livro “Conversaciones con Octavio Paz”, lançado na ocasião de seu centenário, há três anos, pela editora espanhola Confluencias, e que agora se distribui por outros países da América Hispânica. Trata-se de três entrevistas realizadas pelo cubano Enrico Mario Santí, com quem Paz trabalhou. Os dois primeiros diálogos, mais literários, ocorreram em 1985 e 1987. O último, porém, de 1996, dois anos antes da morte do poeta e ensaísta, tem mais tom de balanço de vida e obra e é mais político, expondo mais claramente suas desilusões.

Santí considera que o fato de ser ele um estrangeiro, nascido em Cuba, tenha ajudado Paz a ser tão sincero nesse depoimento, em que conclui, nada menos, que seu diálogo com o México seguia sendo uma “ferida que não cicatrizava” e que, em seu próprio país, sentia-se como “uma especie de ilha”.

O entrevistador chama a atenção para o fato de, mesmo depois de seis anos após ter recebido o Nobel (em 1990), a imprensa local mexicana agia de modo ingrato com relação a seu principal intelectual, “não havia dia em que não se publicasse um ataque, uma crítica ou um constrangimento a suas opiniões, e às vezes algo contra sua pessoa”. E observava que Paz havia se transformado num fenômeno estranho no México. “São dias em que, como pensador, ele é plagiado, como poeta é invocado, mas, como homem público, é menosprezado”, escreve Santí.

Para quem está pouco familiarizado, Paz, além de ter sido um dos principais poetas da América Latina, é também autor de um desses poucos clássicos que nos explicam as peculiaridades dessa região do mundo. “O Labirinto da Solidão”, publicado originalmente em 1950, insere-se na longa tradição de grandes ensaios interpretativos latino-americanos, que deu origem também a “Facundo” (1845), do argentino Domingo Faustino Sarmiento, ou aos clássicos dos brasileiros Sérgio Buarque de Holanda (“Raízes do Brasil”, 1936) e Gilberto Freyre (“Casa Grande & Senzala”, 1933).

Trata-se de um ensaio sobre a identidade mexicana (individual e coletiva), baseado na investigação das heranças culturais (coloniais e pré-colombianas) e na originalidade dessa mistura com o elemento europeu.

No pano de fundo, está a ideia da pátria violada, que seria a mãe de todos os mexicanos. No capítulo “Filhos da Malinche”, Paz opina que os mexicanos seriam filhos dessa mãe que não resiste à violação, à conquista. A relação direta é com Hernán Cortés, conquistador espanhol que tomou como amante uma indígena náhuatl, Malintzin.

Malinche, como se tornou mais conhecida, teria sido sua guia e intérprete. Mas é vista por muitos como uma traidora, uma vez que, com suas habilidades e conhecendo o idioma local, facilitou a conquista do território.

Ao referir-se aos “filhos da Malinche”, Paz quer dizer que os mexicanos são frutos da violação da pátria, uma ideia extremamente ousada e por alguns considerada insultante, mas que parece se confirmar em repetidos episódios históricos.

O desconforto dos intelectuais mexicanos com Paz enquanto estava vivo tem a ver com o afastamento dele da esquerda de um modo geral. Sua frustração com seus pares progressistas ficou especialmente marcada após a prisão do poeta cubano Herberto Padilla (1932-2000), em 1971, pelo regime de Fidel Castro.

O caso marcou o abandono por parte de vários intelectuais da defesa da Revolução Cubana (1959). Além de Paz, Mario Vargas Llosa, Julio Cortázar, Susan Sontag, Jean-Paul Sartre, entre outros, pediram a libertação do poeta. A pressão internacional teve resultado, e Padilla acabou deixando Cuba para ir viver nos EUA.

A guinada ideológica de Paz não foi bem aceita pelos seus pares, e ele passou a ser considerado um escritor “de direita”. Sem encontrar espaço no México para suas denúncias contra os campos de concentração soviéticos, passaria a publicar artigos políticos e literários em revistas argentinas, como a “Sur”.

Seu comportamento não foi bem visto também por parte daqueles que o tinham como herdeiro de uma linhagem de intelectuais e revolucionários que começara com seu avô, o também escritor Ireneo Paz, e seguira com seu pai, Octavio Paz Solórzano, que em 1911 juntou-se aos revolucionários e foi amigo de Emiliano Zapata, entre outros. A Revolução Mexicana é um dos únicos processos na América Latina a moldar quase que completamente um país e a servir de referência a muitos. Teve início em 1910 e culminou na promulgação da Constituição de 1917 _que neste ano completa seu centenário.

Foi única, entre outras coisas, por afastar a Igreja das decisões políticas, tirar terras do Estado eclesiástico, promover uma ampla reforma agrária, além de garantir liberdade de culto, direitos trabalhistas e outros direitos sociais, dois anos mesmo da mítica Constituição de Weimar. Foi vanguardista em termos mundiais. A obra de Paz, de certo modo, dialoga com ela todo o tempo.

Mas voltemos às confissões de Paz a Santí. A primeira delas que me chamou a atenção foi justamente sobre “O Labirinto da Solidão”. O escritor diz que escreveu o ensaio, que tenta definir a alma do mexicano, sentindo-se um estrangeiro. “Há uma parte de autobiografia nesse livro, como em todo livro dessa índole. Desde pequeno me senti excluído, por razões misteriosas. E isso continua até agora. Me diziam e me olhavam como quem dissesse ´este não é mexicano´, porque me consideravam um forasteiro, alguém cujas ideias apenas ecoavam as que vinham da França e dos Estados Unidos.”

Noutra passagem reveladora, e que talvez mostre por onde Paz leria os acontecimentos dos dias de hoje, é a que dedica a comentar a obra de Sor Juana Inés de la Cruz (1651-1695), sobre quem escreveu, em 1982, “Sor Juana Inés de la Cruz o Las Trampas de la Fe”.

Diz Paz na entrevista: “Sor Juana encarna de certo modo o destino dos intelectuais da época moderna. Ainda que tenha vivido no final do século 17, a sociedade em que viveu foi uma sociedade dominada por uma ortodoxia ideológica e por uma burocracia que era a beneficiária dessa ortodoxia. E as burocracias se transformam em algo feroz quando a ortodoxia se quebra. A sociedade em que viveu Sor Juana prefigura debilmente o que depois ia ocorrer no século 20. Quando essa ortodoxia se rompe ou começa a afundar, reage de modo furioso, mas deixa buracos, onde podem aparecer a crítica que leve a anunciar, de fato, o fim dessa burocracia. Por isso, acho que Sor Juana antecipa a situação do intelectual do século 20, sobretudo em países totalitários.”

Já no fim do século passado, Paz já falava de um esgotamento dos modelos vigentes da política e fazia um balanço negativo daquele ciclo de guerras e totalitarismos. “Quando se fala de fracasso da América Latina e do México, é porque ambos fazem parte de um fracasso muito maior, o da civilização da segunda metade do século 20. O que nos falta agora talvez seja um novo pensamento que seja, ao mesmo tempo, critico e criador. O pior é que não vejo isso surgindo por nenhum lado.”

Será que sua opinião seria diferente nos dias de hoje, vendo o México ser, justamente, um dos primeiros alvos de uma nova visão autoritária e demagógica da política, vinda de seu vizinho do norte?