Macri x Mirtha Legrand, um duelo em forma de show político

Por Sylvia Colombo

Tem de haver algo errado com o jornalismo argentino quando quem consegue fazer as perguntas mais incômodas e urgentes do país ao seu presidente é uma veterana apresentadora de TV, sem vínculos com partidos, mais identificada com o mundo da “farándula” (showbiz) do que com a política, pertencente à mesma classe social que o entrevistado e sem ligação alguma com a oposição ao governo.

Pois foi isso que aconteceu no último sábado, quando Mirtha Legrand, logo após cumprir 90 anos _sendo assim uma das apresentadoras televisivas mais longevas do mundo ainda em atividade_ foi até a Quinta de Olivos, a residência presidencial, para entrevistar Mauricio Macri, dando início à temporada 2017 de seu programa “La Noche de Mirtha”, um hit da TV argentina desde 1968, com altos índices de audiência.

O programa tem um formato peculiar. Os entrevistados sentam-se à mesa e, durante uma refeição cheia de anúncios de marketing dos produtos consumidos ao longo do jantar, são sabatinados por essa verdadeira instituição argentina. Legrand foi uma bela atriz de teatro e cinema em sua juventude, mas sua carreira ganhou projeção mesmo na TV, onde aparece sempre impecavelmente bem vestida. Mesmo com a idade avançada, é vista frequentando elegantemente a noite de Buenos Aires, em estreias de teatro e festas de poderosos e endinheirados. Ela e os membros de sua família também não saem do noticiário de celebridades (revistas, programas de fofocas, etc).

Conhecida por interromper bruscamente os entrevistados e mudar de assunto quando vê que o interlocutor está falando demais ou parece estar cansando a audiência, Legrand não abandonou seu estilo na entrevista com Macri. Mais do que isso, veio carregada de perguntas bastante identificadas com os gritos de protesto que vêm sendo repetidos nos atos de rua, piquetes e marchas que vêm num crescendo pelo país e devem desaguar na greve geral marcada para 6 de abril.

Macri, que recebeu o apoio da apresentadora no final da campanha de 2015, e que foi ovacionado por Legrand ao ganhar as eleições, talvez esperasse que sua velha amiga fosse ser mais dócil com ele, ou que abordasse amenidades e fizesse mais perguntas pessoais _também algo de seu estilo. Porém, não foi assim.

A veterana apareceu com a metralhadora carregada. Sem serem informados com antecipação sobre o conteúdo das perguntas que seriam feitas, Macri e sua mulher, a primeira-dama, Juliana Awada, em vários momentos foram flagrados titubeando, perdendo-se nas respostas, e com os olhos abertos demonstrando estarrecimento diante das enfáticas e quase agressivas perguntas.

Os principais momentos (o link para a entrevista completa vai abaixo) foram quando Legrand questionou, por distintos ângulos, por que Macri, há 15 meses no cargo, não tinha ainda conseguido fazer a economia decolar. O presidente respondeu de modo correto, mas sem se impor e, pior, sem conseguir convencer. Começou a falar de números específicos que mostravam um verdadeira, porém muito sutil, retomada do crescimento e da redução da inflação. Escorregou feio ao errar, para mais, qual era o valor que recebem mensalmente os aposentados do país.

Ao entrar em termos técnicos para detalhar como uma melhora vem sendo alcançada, ainda que a passo de tartaruga, era interrompido. Ao perceber que o marido estava se enroscando em longas e pouco conclusivas respostas, Awada, reconhecida por ter um papel praticamente de adorno ao lado do presidente, arrancou a explicar porque ainda não haviam chegado ao país os benefícios dos prometidos investimentos estrangeiros _tema que, todos sabem, está longe de ser sua expertise_ deixando o ambiente ainda mais tenso.

Mas as melhor passagem do programa, que foi o grande assunto da Argentina durante a semana, foi quando Legrand interrompeu uma das explicações lamurientas do casal para dizer: “vocês não veem a realidade, as pessoas estão reclamando muito”. As câmaras pararam no rosto de uma Awada estupefacta e nos olhos arregalados de Macri buscando uma resposta que não só revertesse o golpe, mas que fosse capaz de relaxar o ambiente. Mas Legrand insistia, queria que o presidente falasse diretamente sobre o descontentamento popular com a alta inflação do país, de 40%, do aumento do desemprego, da pobreza e das taxas de eletricidade e gás. Awada, outra vez equivocada, criticou aqueles que se manifestavam e cortavam as ruas com os piquetes, e que assim “impediam as pessoas que queriam ir trabalhar” por complicarem o trânsito.

Macri insistia em reforçar que o pior momento da transição de modelo econômico teria passado, mas prevaleceu a versão de Legrand que, tomando o lugar de porta-voz do povo, insistia que a população ainda não via nada disso e estava “muy quejosa” (reclamando muito).

Um certo ato falho, ou provocação premeditada, ocorreu quando Legrand disse que o “derrumbe” (a queda) da gestão havia sido em meados do ano passado, com os primeiros aumentos de tarifas _o “tarifaço”, que levou centenas de milhares às ruas em protesto. Depois, a apresentadora corrigiu, trocando “queda” por um termo mais ameno. Mas o mal já estava feito, e os espectadores foram dormir com a palavra “derrumbe” na cabeça, algo que, na Argentina, faz com que se ativem memórias traumáticas _como as de Alfonsín deixando o mandato antes da hora ou de Fernando de La Rúa abandonando vergonhosamente a Casa Rosada de helicóptero.

O contraditório dessa interessante atração de sábado à noite, que foi um verdadeiro sucesso de audiência, é que talvez tenha sido boa para os dois lados. Para Legrand, com certeza, porque ganhou a simpatia de esquerdistas que a consideram uma “perua” privilegiada e apolítica e ainda satisfez seu público de costume, com uma invejável performance e exibição de coragem e boa forma retórica. E, ao contrário do que muitos pensam, talvez tenha sido boa também para Macri. Reforçou a ideia de que este é um presidente que aceita ser confrontado _quando sua antecessora não admitia nem dar coletivas de imprensa_ e porque exerceu bem seu papel quase que de vítima de uma situação que, de fato, parece ser maior do que ele realmente possa controlar.

E, mais importante: falou-se dele a semana toda. É por isso, talvez, que seu sorriso ao final do programa pareça mesmo legítimo.