Morre Sofía Ímber, dama das artes e inimiga dos totalitarismos

Por Sylvia Colombo
A venezuelana Sofía Ímber, que morreu nesta segunda (Foto Divulgação)

Morreu na madrugada desta segunda-feira (20) um dos grandes nomes das artes da América Latina. Nascida em 1924 em Soroca, na Moldavia, Sofía Ímber chegou à Venezuela em 1930, com os pais, e logo adotou esse país como sua pátria. Estudou em escola pública, pensou em ser médica, mas logo rumou para o jornalismo. 

Escreveu para os principais jornais, “El Nacional” e “El Universal”, e também construiu uma carreira televisiva e no rádio. Seus programas “Buenos Días” e “Solo con Sofía” são considerados precursores do jornalismo de opinião no país, assim como o de rádio, “La Venezuela Posible”.

Seu principal legado, porém, é a fundação, no começo dos anos 1970, do Museo de Arte Contemporáneo de Caracas, até hoje um local de referência cultural e geográfico na capital venezuelana. Por mais de 30 anos, Ímber esteve à frente da instituição, que também levava o seu nome, e tinha na coleção obras de Picasso, Chagall, Bacon, Vasarely e outros. 

O museu se transformou no centro da vida cultural de Caracas. Em entrevista que fiz com ela em 2003, para a Ilustrada, Ímber dizia que a cidade vivia outros ares. “Nos anos 70, a Venezuela viveu um período de extrema criatividade artística e abriu-se para exposições internacionais”, afirmou. Justamente, naquele tempo, o país recebia, também, intelectuais refugiados das ditaduras sul-americanas, que enriqueceram o cenário cultural local. Além disso, Ímber viajou pelo mundo, passou alguns anos em Paris, tornando-se amiga de artistas como Pablo Picasso, Octavio Paz e Pablo Neruda.

Os problemas de Ímber começaram com a chegada ao poder de Hugo Chávez (1954-2013), em 1999. Dois anos depois, o então presidente venezuelano estatizou o museu de Ímber e a destituiu do cargo. Eu, pessoalmente, não posso esquecer o tom lamuriante de sua voz ao telefone quando ela me resumiu o que sentia ao ter de entregar o fruto de seu trabalho a um regime com o qual não concordava ideologicamente.

Dizia Ímber: “A nova direção do museu quer valorizar a produção artística e o artesanato nacionais. É algo parecido com a propaganda soviética”, denunciava essa mulher, cujos pais tinham fugido justamente dos efeitos da Revolução Soviética (1917). E complementava: “Chávez crê que a agricultura e o trabalho urbano devem estar representados na arte, exatamente como era na época de Stálin e do realismo socialista: operários trabalhando nas fábricas, mulheres com crianças…”

A saída do museu, porém, não a deixou prostrada. Seguiu falando e atuando contra o atual regime venezuelano e, nos últimos tempos, se dedicou a deixar o testemunho dos anos que viveu no livro “Sofía Ímber – Una Pasión Indomable”, do jornalista Diego Arroyo Gil (2016), que a entrevistou ao longo de vários meses.

Ímber morreu um dia antes de ser condecorada com a distinção de doutora honoris causa pela Universidade Simón Bolívar.

É de se esperar que, pelo menos postumamente, num próximo governo venezuelano, seu legado seja realmente reconhecido pelo país que adotou como seu lar e por quem tanto trabalhou.