Surpresa no Chile, novato sai na frente da “velha política”

Por Sylvia Colombo
O pré-candidato chileno Alejandro Guillier (Foto La Nación)
O pré-candidato chileno Alejandro Guillier (Foto La Nación)

Nem o conservador Chile parece estar imune à onda de cansaço da cidadania com relação à política tradicional que vem causando resultados eleitorais surpreendentes no mundo. Na primeira pesquisa eleitoral de 2017, com vistas às eleições presidenciais no segundo semestre, sai na frente da disputa o esquerdista Alejandro Guillier (do independente Partido Radical). Sem uma larga carreira política, o hoje senador por Antofagasta (seu primeiro cargo público) passou a maior parte da vida mesmo sendo jornalista, passando por vários canais de televisão, emissoras de rádio e como professor da escola de jornalismo da Universidade Diego Portales.

Divulgados nesta quarta (1), os números da Adimark o colocam um ponto adiante do conservador Sebastián Piñera, até agora tido como favorito. É certo que um ponto ainda está dentro da margem de erro e se trata de uma situação de empate técnico. De todo modo, ainda distante da disputa, marca uma diferença que pode virar tendência. Guillier aparece nesse levantamento com 28% das intenções de voto, e Piñera com 27%.

Até o momento, a disputa pela sucessão de Michelle Bachelet parecia estar destinada a se dar entre dois ex-presidentes, o empresário Piñera (que governou o Chile entre 2010 e 2014) e o advogado de centro-esquerda, Ricardo Lagos (presidente entre 2000 e 2006). Apesar de o país ter visto surgir nos últimos anos, em decorrência das manifestações estudantis, uma série de novos líderes com sede e vontade de poder, nenhum deles está ainda apto a se candidatar, uma vez que não atingem a idade mínima de 40 anos para poder concorrer.

O cansaço com essas duas figuras tem diversas razões. Com Piñera, o Chile teve bom desempenho macroeconômico, mas o país ainda tem graves problemas ao redistribuir sua riqueza, mantendo grandes bolsões de pobreza, principalmente ao sul do país. Além disso, não fez os suficientes investimentos em infraestrutura e em diversificação de produção, sendo ainda dependente de “commodities” vindas da mineração, em baixa no mercado internacional. Já Lagos está demasiado distante dos anseios dos novos eleitores, e associado a um movimento, a Concertação, que foi protagonista no pós-ditadura, mas acabou virando um saco de gatos em que já não havia mais um projeto claro após alguns anos.

Guillier, que surgiu independente, deve concorrer dentro da primária da Nueva Mayoria, atual aliança governista, em julho. Ainda não são conhecidos os outros nomes, mas o seu desponta desde cedo e parece que irá aglutinar o voto da centro-esquerda. Se receberá ou não a benção de Bachelet, ainda não se sabe, mas por ora é sua melhor opção. Apesar de se dizer de esquerda, Guillier tem visão muito bem mais moderada que a atual presidente e até conservadora em alguns temas, como o aborto, contra o qual é contra.

O número de indecisos ainda ronda os 30%, e o Chile é um país de alta abstenção, que às vezes chega a 60%. Qualquer previsão, a essa altura, seria muito apressada. Mas uma coisa é começar a campanha eleitoral sem novidades, com a disputa concentrada em dois ex-presidentes, avançados em idade, e ambos já com a imagem desgastada. Outra, que a trama inicie com um novo ator, de fora da política tradicional e já subindo postos meses antes da votação. Coloca, ao menos, mais emoção em uma disputa na qual os principais temas devem ser mais os institucionais do que os econômicos.

O Chile tem essa diferença com o resto da América Latina. A preocupação com a economia, mesmo em tempos de crise como este, não supera em muito as demandas por outros temas. No caso de 2017, estes surgem nas pesquisas como melhoria da representatividade, o fortalecimento das instituições, a reforma da educação e o combate à violência. Pelo menos até aqui, esta é a pauta da campanha eleitoral, que apenas começa a se desenhar.