Depois das Farc e de Uribe, Santos encara Trump

Por Sylvia Colombo
Os ex-presidentes Andrés Pastrana (Colômbia) e Bill Clinton (EUA), nos anos 1990 (Foto Reuters)
Os ex-presidentes Andrés Pastrana (Colômbia) e Bill Clinton (EUA), nos anos 1990 (Foto Reuters)

É verdade que, tirando o ataque ao México e a sugestão de que vem por aí uma guerra comercial entre os dois países do norte, os EUA de Donald Trump ainda não puseram muita atenção (por sorte, talvez) nos outros temas candentes da América Latina. É improvável, porém, que se esquivem dos mais urgentes: Cuba, Venezuela e Colômbia, pelo menos. E, de fato, em suas respostas ao Senado, o novo secretário de Estado, Rex Tillerson, fez alguns comentários sobre o processo de paz colombiano que andam preocupando o governo local. Antes de mais nada, porque em suas declarações estava incluída a expressão “revisar o acordo de paz”, condicionando a isso a continuidade da ajuda norte-americana. E, depois, porque, desde que tomou posse, Donald Trump está dando sinais de que voltará a tratar com linha-dura a questão do narcotráfico, algo que Obama preferia ter resolvido de outra forma _apoiando tratados como o colombiano e deixando que os Estados consumidores fossem relaxando suas leis sobre o tema.

Para entender como os EUA, neste momento, podem ajudar, ou atrapalhar, na implementação do acordo de paz acertado entre o governo colombiano e as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), talvez valha olhar um pouco a história recente.

Ela nos mostra que a participação dos EUA, tanto na fase do chumbo grosso como na fase da negociação foi essencial, e não deixará de ser agora, na etapa do chamado “pós-conflito”.

Quando o governo colombiano do conservador Andrés Pastrana (1998-2002) apostou numa saída mais bélica contra o narcotráfico cometido, em parte, por guerrilhas como as Farc e o ELN (Exército de Libertação Nacional), os EUA do democrata, sim, do democrata Bill Clinton (1993-2001) abraçou a causa. Juntos, lançaram o chamado Plan Colombia, que seria depois levado adiante pelo sucessor de Pastrana, Álvaro Uribe (2002-2010), e com a benção de George W. Bush (2001-2009).

Entre outras coisas, o plano consistia na entrega de altas somas de dinheiro pelos EUA à Colômbia _ mais de US$ 10 bilhões em 15 anos_ para uso em inteligência, armamento e combate ao narcotráfico. O modo como Uribe lidou com as guerrilhas é uma complexa história à parte. O mais importante é dizer que, se por um lado, o então presidente andou à margem da legalidade, apoiando a ação de grupos paramilitares, entre outras coisas, por outro, de fato contribuiu para a diminuição do número de combatentes das Farc _em seus tempos áureos, falava-se de até 30 mil pessoas, entre guerrilheiros e milicianos, e quando as negociações de paz começaram, há quatro anos, este efetivo não passava de 8 mil. O modo como essas pessoas “desapareceram” também é outra questão, que tanto Uribe quanto as Forças Armadas colombianas, e os paramilitares, deveriam, em algum momento, responder por completo, diante da Justiça ou, ao menos, da sociedade.

Mas o certo é que a redução drástica do número de guerrilheiros das Farc permitiu que se montasse a mesa de negociações em Havana. Por um lado, as Farc, enfraquecidas, mas ainda oferecendo perigo, se prontificavam a esclarecer seus crimes, reparar as vítimas e entregar-se à Justiça, com a garantia de reduções de penas e de participação política. Por outro lado, o governo colombiano, já comandado por Juan Manuel Santos, se apresentava menos belicoso e mais propenso a fazer concessões desde que, por fim, aquela guerra de mais de 50 anos terminasse.

A participação dos EUA, agora no mandato Obama (2009-2017), foi mais uma vez fundamental para a Colômbia. Os norte-americanos tiveram um representante como observador na mesa de negociações durante todo o processo. Obama pessoalmente não se cansou de demonstrar publicamente seu apoio a Santos para encerrar o conflito pacificamente. Aceitou, inclusive, alguns pontos do documento que eram vistos com desconfiança em seu país, especialmente entre os republicanos, como aquele que impedia a extradição dos líderes do narcotráfico das Farc que houvessem cometido crimes contra os EUA.

Obama bancou Santos em tudo isso, e um pouco mais. Prometeu que a ajuda econômica, agora não mais para a guerra, e sim para a paz, continuaria. O Plan Colombia foi rebatizado como Paz Colombia, e estavam previstos repasses de cerca de até US$ 500 milhões anuais durante o “pós-conflito”, período no qual a Colômbia deve, entre outras coisas, reinserir os ex-guerrilheiros na sociedade, reconstruir a infraestrutura destruída na guerra, tirar uma grande quantidade de minas terrestres de largas faixas de território e promover uma reforma agrária. Nada disso vai sair barato.

A Colômbia, portanto, aguarda com expectativa os próximos passos do governo Trump com relação ao país. E é por isso que as declarações de Tillerson, embora moderadas e evocando a tradição de boas relações entre os dois países, deixaram o governo colombiano um pouco alarmado. Ao falar de “revisar o acordo”, Tillerson mencionou a preocupação com o aumento da área de cultivo de coca na Colômbia nos últimos anos. E isso é fato. Atendendo a uma demanda de camponeses e da guerrilha que vivem em áreas de cultivo, Santos mandou suspender as fumigações com químicos que matavam as folhas de coca, mas não apenas isso, também causavam danos para os seres humanos, guerrilheiros ou civis, que ali viviam.

O resultado foi que, de 100 mil hectares dedicadas ao cultivo, agora já se tratam de quase 200 mil. Se Trump for de fato exercer uma política de linha-dura com as drogas, como de fato parece que vai, continuar dando dinheiro a um país que duplica sua área de produção de coca para a fabricação de cocaína pode parecer, para seu modo de pensar e de atuar um tanto binário e de curto prazo, um absurdo.

O apoio dos EUA ao plano de paz colombiano é neste momento incerto. Se há algo que favorece Santos é o fato de que se trata de um político extremamente diplomático e hábil para fazer pontes com os mais improváveis potenciais rivais, como o venezuelano Nicolás Maduro ou o equatoriano Rafael Correa.

Por outro lado, favorece a Uribe, que é contra o acordo porque o considera demasiado concessivo às Farc, o fato de que tanto ele como Trump compartilham a mesma visão sobre o tema das drogas e têm uma maneira parecida, apelativa e popular, de se expressar, apresentando soluções simples e radicais a problemas que, na realidade, são bem mais complicados e envolvem uma infinidade de fatores.

Depois de fazer a paz com as Farc, e de se equilibrar para permanecer sem topar muito de frente a Uribe, Santos agora tem que iniciar outro “processo de paz”, nada menos que com… Donald Trump.

O presidente Juan Manuel Santos e o ex-presidente Barack Obama (Foto Divulgação)
O presidente Juan Manuel Santos e o ex-presidente Barack Obama (Foto Divulgação)