“Estamos num mundo em que se culpam as vítimas, não o agressor”, diz Junot Díaz

Por Sylvia Colombo
O escritor dominicano e norte-americano Junot Díaz (Foto Divulgação)
O escritor dominicano e norte-americano Junot Díaz (Foto Divulgação)

Pouco antes de deixar a Casa Branca, o ex-presidente Barack Obama recebeu um grupo de escritores para um almoço: Dave Eggers, Colson Whitehead, Zadie Smith, Junot Díaz e Barbara Kingsolver. Também concedeu uma entrevista à crítica literária Michiko Kakutani, apenas para falar de como os livros o ajudaram em sua formação e a enfrentar os oito anos de Presidência. Nesta conversa publicada no “New York Times”, disse que espera trabalhar na divulgação de livros através de listas de recomendações e de campanhas para encorajar o público a “conversar sobre literatura”.

Conversei com o único autor de origem latino-americana presente no tal almoço. O escritor dominicano e norte-americano Junot Díaz, 48, vencedor do Pulitzer de ficção, em 2008, pela obra “A Fantástica Vida Breve de Oscar Wao” (lançado no Brasil pela editora Record).

Nascido em Santo Domingo e hoje vivendo em Boston, Díaz se diz desesperançado com a mudança de gestão, comentou a conversa com Obama e seus temores com relação ao impacto da gestão de Donald Trump na cultura.

Folha – Você e outros quatro escritores almoçaram com Obama há poucas semanas. Ele fez algum comentário especial com relação à literatura latino-americana?

Junot Díaz – O presidente Obama não mencionou nenhum autor latino-americano pelo nome nessa ocasião, mas deixou claro que, no futuro, espera promover livros que representem a diversidade dos EUA, especialmente latinos e asiáticos. Achei isso muito estimulante.

Folha – Os dois autores latino-americanos mencionados por Obama em entrevista recente ao “New York Times” foram Gabriel García Márquez (1927-2014) e você. Gabo parece ser leitura favorita dos democratas, já que era amigo de Bill Clinton, também fã de sua obra. Crê que o Nobel colombiano ainda é a principal referência da literatura latino-americana entre políticos dos EUA?

Díaz – Gabo é muito amado nos EUA e por boas razões. Mas nos últimos tempos, também vem sendo admirado o chileno Roberto Bolaño (1953-2003). Do meu ponto de vista, você não pode nem começar a entender o Caribe, e muito menos a América Latina, apenas a partir de tão poucos títulos. Para realmente entender nossa América é preciso uma vida entre livros e arquivos. Mas é preciso começar com algo e, ao menos, os norte-americanos começam com Gabo _poderia ser com algo bem pior.

Folha – Nessa entrevista, Obama disse que a leitura da sua obra o fez pensar num “tipo particular de imigração contemporânea”, na qual existe um sentimento de busca por um “lugar melhor, mas ainda assim a sensação de estar deslocado”. Você identifica sua literatura com essas definições?

Díaz – Como leitor, o presidente Obama pode dizer o que desejar sobre meu trabalho. Um livro pertence ao leitor. Ainda assim, do meu ponto de vista, eu penso que o que preocupa mais os meus personagens não é tanto que eles se sintam deslocados, mas o fato de que pertençam a dois mundos.

Quando você vive em dois mundos simultaneamente, isso exige que você tenha um segundo conjunto de habilidades emocionais e cognitivas e isso cria vários tipos de esquisitices. Tomo meu caso como exemplo. O que realmente me move como escritor não é apenas minha devoção pela diáspora dominicana, mas também meu interesse obsessivo pelos efeitos destrutivos da cultura colonial e masculina afro-caribenha na minha comunidade.

Folha – Há pouco tempo entrevistei no México a escritora Valeria Luiselli, que há muitos anos vive nos EUA, dá aulas, e tem se preocupado com a situação dos latinos com a chegada de Trump ao poder. Quais são as suas expectativas e que impacto crê que pode ter em sua literatura?

Díaz – Não estou preocupado apenas com os escritores, estou preocupado com toda a minha comunidade! Trump é, claramente, um homem com quase nenhuma capacidade para a introspecção, além de ser um filho mimado, com tendência à crueldade. Sua hostilidade em relação aos negros e aos latinos é muito claro. Inclusive, a única razão pela qual chegou à Casa Branca foi porque incensou, durante toda sua campanha, a xenofobia anti-latinos.

Eu tenho medo de Trump, e de que ele vá causar muito dano à nossa comunidade. Todos os imigrantes que têm sanidade estão preocupados, se não por eles, por seus amigos e familiares. Entramos numa fase em nossa política mundial em que forças de extrema-direita buscam uma escapatória para cobrir seus crimes econômicos contra o planeta. E quem melhor que a população imigrante para ser responsabilizada?

Vivemos num mundo em que as pessoas preferem atacar outras vítimas do que buscar o agressor.

Folha – Em outra entrevista recente, que fiz na Feira do Livro de Guadalajara, o agente literário norte-americano Andrew Wylie, a quem preocupa também a presidência de Donald Trump, disse que “tempos ruins para a política são tempos bons para a cultura”, porque fazem com que os autores e a sociedade reflitam sobre o país em que vivem e sobre a situação. Você está de acordo com essa afirmação? Acredita que a gestão Trump impactará na temática da produção literária ou mesmo na atitude dos escritores?

É certo que tempos de opressão estimulam artistas a criar mais e melhor, mas também destroem vários outros. É fácil dizer que tempos difíceis produzem boa arte quando você não é um daqueles que está sendo destruído. Eu preferiria morar num país onde os artistas vivêssemos em segurança e com apoio. E isso claramente não será possível na gestão Trump. Portanto, tudo o que podemos fazer, como artistas e membros da sociedade, é lutar.

A maioria de meus grandes amigos aqui em Boston, ativistas e professores, estão falando da possibilidade de Trump provocar, em reação a ele, um movimento progressista de massa dentro do país. Essa é uma conversa que está ocorrendo. Estamos nos organizando e nos preparando para a batalha.