Roa Bastos, 100 anos e uma necessária homenagem

Por Sylvia Colombo
O escritor paraguaio Augusto Roa Bastos (Foto Divulgação)
O escritor paraguaio Augusto Roa Bastos (Foto Divulgação)

Quando a democracia paraguaia dá sinais de que pode patinar outra vez, com as tentativas do partido Colorado de reunir os votos suficientes para aprovar uma mudança na Constituição que permita um novo mandato ao atual presidente, Horacio Cartes, parece ainda mais válido homenagear um dos principais autores latino-americanos da história da literatura. Afinal, Augusto Roa Bastos (1917-2005) lutou contra os ditadores e autocratas de sua época e os de tempos anteriores. Seu centenário é comemorado neste ano.

Em seus principais livros, os que chamava de “trilogia paraguaia”: “Hijo de Hombre” (1960, depois revisado em 1993), “Yo, el Supremo” (1974) e “El Fiscal” (1993), fazia indagações e reflexões sobre o poder, ao mesmo tempo em que deitava o olhar para os dramas dos paraguaios comuns, seu passado de guerras, seu duro cotidiano e sua dupla herança cultural _indígena e europeia. Não desaparecia de suas preocupações o fato de o Paraguai, no começo do século 20, ter metade de suas terras nas mãos de 79 pessoas, enquanto mais de 80% da população vivia no analfabetismo.

A obra mais importante que deixou, “Yo, El Supremo” (1974), trata do temido ditador José Gaspar de Francia, que liderou o país entre 1814 e 1840. Obra de narrativa que mistura fatos, visões e pensamentos, é contada a partir do ponto de vista do próprio Francia. Na verdade, Roa Bastos estava também tratando de entender a cabeça de outras personalidades autoritárias, como a do ditador que então governava o Paraguai, Alfredo Stroessner, que esteve no poder de 1954 a 1989 _obrigando o próprio Roa Bastos a passar a maior parte de sua vida longe de seu país-natal.

O vínculo de Roa Bastos com a política vinha da adolescência. Quando tinha apenas 15 anos, fugiu com um grupo de amigos do colégio para juntar-se ao Exército no conflito com a Bolívia que ficou conhecido como a Guerra do Chaco (1932-1935). Não pôde fazer mais do que trabalhar como assistente de enfermaria, mas a experiência marcaria sua obra.

Já formado, foi trabalhar como jornalista e enviado à Europa nos anos 1940, quando o continente estava em pleno conflito. Cobriu o final da Segunda Guerra Mundial e os julgamentos de Nuremberg. Anos depois, quando tentou voltar ao Paraguai, já na era Stroessner, não pôde permanecer porque o ditador o considerava um “difusor de ideias comunistas”.

Primeiro, refugiou-se em Buenos Aires, cidade em que trabalharia e publicaria algumas de suas principais obras, tendo como grande amigo o argentino Tomás Eloy Martínez (1934-2010). Mas a mão-dura da ditadura cairia também sobre a Argentina, com o golpe militar de 1976. Roa Bastos, então, aceitou o convite para ensinar guarani e literatura latino-americana em Toulouse (universidade que lhe daria depois o título de Doutor Honoris Causa). Disputado e reconhecido na Europa, também viveu na Espanha, e os dois países lhe concederam cidadania para que tivesse tranquilidade para trabalhar.

Mas Roa Bastos não apenas escrevia. Organizava jornadas de diálogo, transmissões de rádio, colóquios e entrevistas para chamar a atenção para a situação em seu Paraguai natal. Nesta conversa com a TV espanhola (vídeo abaixo), interpreta algo da história de seu país, e põe ênfase no papel que as mulheres tiveram na reconstrução do mesmo após a Guerra do Paraguai (1864-1870). Em um dado momento, faz uma dura crítica à tradição machista de sua própria cultura: “e o país que poderia ter se transformado num matriarcado, não o foi. Depois de reconstruírem as casas, levantarem as fazendas e as cidades, e de dar de comer a seus filhos, as mulheres voltaram a ter um papel secundário na sociedade, como sempre foi”.

Com relação a suas opções de estilo e de narrativa, é preciso frisar que Roa Bastos, que nasceu em Assunção, mas foi criado em Iturbe, uma região de grande presença indígena, sempre fez questão de ressaltar a tradição bilíngue de seu país e elevar o guarani. Mais que difundir o idioma, buscou compreender a cultura da qual era parte. Fez isso primeiro atuando, ainda jovem, no grupo “Vy’a Raity” (ou “ninho da alegria), formado em Assunção com outros artistas, depois incorporando essa dualidade cultural paraguaia em suas obras. Mais ou menos como também faria o peruano José María Arguedas (1911-1969), autor de “Os Rios Profundos”.

Roa Bastos voltaria ao Paraguai apenas em 1996, já enfrentando problemas de saúde, mas seguiu produzindo. Além da prosa, escreveu poemas, contos e participou da adaptação de seus trabalhos ao teatro e ao cinema. Morreu em 2005, e seu enterro foi assistido por milhares de paraguaios que acompanharam o féretro pelas ruas de Assunção com respeito solene.

Dá até vergonha procurar a obra de Roa Bastos disponível no Brasil. Uma busca rápida pelas nossas livrarias online apenas apresentam livros importados ou já esgotados. Escritor reconhecido com o Prêmio Cervantes em 1989, com a obra traduzida para mais de 20 línguas e com títulos e outras premiações entregues por diversos países do planeta, é praticamente desconhecido nesse grande país-vizinho.

Por sorte, as livrarias e editoras argentinas estão fazendo jus à data e preparam lançamentos comemorativos. Quem sabe alguma das brasileiras se dê conta do grande erro que é deixar esse imenso escritor longe do conhecimento dos brasileiros?