Por que decapitar?

Por Sylvia Colombo
Capa do livro "El Hombre Sin Cabeza", de Sergio González Rodríguez (Foto Divulgação)
Capa do livro “El Hombre Sin Cabeza”, de Sergio González Rodríguez (Foto Divulgação)

Não é de hoje que o México vem tentando refletir sobre a onda de violência iniciada em 2006, quando teve início a “guerra ao narcotráfico”, impulsada pelo governo conservador de Felipe Calderón, na qual, desde então, já se contabilizam mais de 80 mil mortos _de enfrentamentos entre Forças Armadas e cartéis e dos cartéis entre si.

Algumas dessas reflexões talvez sejam úteis para pensar sobre os terríveis acontecimentos nos presídios brasileiros nas últimas semanas, em que, além do banho de sangue e das mortes, fomos expostos à prática disseminada da decapitação dos prisioneiros assassinados.

Lembrei-me, então, de um livro que me causou muito impacto quando li, em 2008, quando foi lançado. Chama-se “El Hombre Sin Cabeza”, e seu autor é talvez um dos jornalistas investigativos mais importantes do México, Sergio González Rodríguez.

A obra é parte de um trabalho de investigação mais amplo do profissional sobre a violência que assola seu país. Antes, já havia lançado “Huesos en el Desierto” (2002), sobre as mortes de mulheres dentro do conflito. E segue nos dias de hoje, com pesquisas sobre o caso Ayotzinapa, quando desapareceram 43 estudantes, e outras.

Mas “El Hombre Sin Cabeza” é até aqui seu trabalho mais interessante. Não apenas por oferecer um contexto bastante pormenorizado de como a violência se espalhou pelo interior do país e da formação dos cartéis dentro da lógica regional _tudo isso a partir de um olhar muito pessoal, de quem percorreu esses locais. Mas por que a pergunta da qual parte oferece uma abordagem distinta ao problema.

Por que decapitar? Qual a diferença de um assassinato comum, de um só homem ou de todo um grupo, perpetrado por tiros, facadas ou golpes e de uma morte por decapitação? Ou mesmo, por que apresentar um assassinato cometido de outra forma, mas arrancando depois a cabeça do morto para exposição?

A resposta não é simples, e González Rodríguez não chega a formular uma resposta fechada. Mas logo de cara apresenta o problema como uma questão humana, antes que mexicana. E vai buscar o significado das decapitações em suas representações mais antigas. Surgem aí os monumentos feitos com caveiras em várias culturas, a ativa guilhotina de outros tempos, e, mais atrás, o mito de Perseu _que sai em busca da cabeça de Medusa_ e da passagem bíblica em que se apresenta a cabeça de São João Batista.

Mas o que isso pode ter a ver com a guerra dos cartéis mexicanos e _se pode-se aplicar aqui_ com as decapitações nos presídios brasileiros? Segundo González Rodríguez, as decapitações promovidas pelo crime organizado podem se justificar de diversas formas. Uma delas, o sentido midiático _também encontrado nos vídeos de decapitações feitas por extremistas islâmicos, com as quais estabelece um paralelo. É uma forma de aterrorizar uma sociedade já anestesiada para notícias de assassinatos, banalizadas pela frequência com que aparecem nos meios de comunicação. Uma decapitação traria de volta o horror, a revolta e o medo que um “simples assassinato” já não pode causar.

O autor também evoca uma questão místico-religiosa, uma alma que para muitos poderia reviver numa outra dimensão poderia chegar lá (onde quer que seja) sem a cabeça? É mais desejável morrer com o corpo inteiro ou descabeçado? Aí González Rodríguez faz analogias entre as decapitações do narcotráfico com os sacrifícios humanos cometidos pelos povos pré-colombianos, em busca de um imaginário comum do temor ao desmembramento com fundo religioso que talvez tenha sobrevivido no inconsciente coletivo mexicano.

O jornalista também associa o ato de um assassino que resolve arrancar a cabeça de sua vítima com uma rebeldia extrema a qualquer sistema racional. É esvaziar a humanidade da capacidade de pensar, racionalizar. Ou seja, a entrega clara de nossa espécie à barbárie _num mundo de degolados a razão não tem lugar.

Parece um papo de revirar o estômago, mas González Rodríguez chama a atenção para a necessidade de falar do assunto, num momento em que o fenômeno das decapitações começava a se fazer comum no México. Até o lançamento do livro, haviam aparecido em menos de um par de anos mais de 170 cabeças soltas, algumas entregues com bilhetes, largadas em esquinas, deixadas em caixas de isopor, com ou sem o resto dos corpos largados por perto.

Em suas andanças, o jornalista encontra com um integrante de um cartel que era o responsável, em seu grupo, justamente por realizar as decapitações. O homem descreve seus métodos a González Rodríguez com frieza, e ele conclui que, para aquele criminoso, esse rito macabro já havia se transformado numa profissão como todas as outras.

A principal mensagem do livro dirigia-se, à época, à anestesia coletiva dos mexicanos quanto às cifras de mortos que só faziam aumentar. Dizia que uma decapitação é uma mensagem muito forte e um chamado para que não se abandonasse o sentido humano de indignação e, mais do que isso, à necessidade de não apenas sentir asco ou pânico, mas de informar-se e refletir sobre as razões que nos trouxeram diante de um espetáculo tão tenebroso como esse.

Apesar de dirigido ao público mexicano e mirando a violência dos cartéis, “El Hombre Sin Cabeza” é uma leitura que traz algumas considerações que são internacionais e atemporais. Bastante apropriado para este momento no Brasil.