E 2016 também disse adeus a Eliseo Subiela

Por Sylvia Colombo
O diretor de cinema argentino Eliseo Subiela, morto nesta semana (Foto Divulgação)
O diretor de cinema argentino Eliseo Subiela, (Foto Divulgação)

Já que o obituário foi, infelizmente, um dos gêneros mais praticados no jornalismo cultural deste 2016, encerro meu ano neste blog com mais um. Vem com um pouco de atraso, mas não queria deixar passar em branco, porque o personagem, para o cinema latino-americano, é gigantesco. Trata-se de Eliseo Subiela, morto no último dia 25 de dezembro, aos 71 anos, em Buenos Aires.

Para quem nos últimos anos achou que o cinema argentino resume-se a dramas cheios de ironia sobre a vida íntima da classe média, novos olhares sobre episódios do período militar (1976-1983) ou comédias românticas dominadas por uns poucos nomes (Ricardo Darín, Guillermo Francella, Juan Campanella), vale lembrar que houve mais de uma “época de ouro” na produção do país vizinho. É uma tradição de dar inveja e que vem de longe no tempo.

Subiela pertencia a uma geração anterior a essa que brilha hoje. Cineasta difícil de classificar, suas películas dialogavam com o “realismo mágico”, com a poesia de alguns autores em particular, com a escola francesa de cinema _que dizia ser uma de suas principais influências_ e com a literatura da região do Rio da Prata.

Filmou e teve seu auge principalmente no período pós-ditatorial, os anos 1980 e 1990. As feridas deixadas pelos anos de chumbo estão ali, mas aparecem quase sempre como burla ou sugestão trágica. Há uma cena de “Hombre Mirando al Sudeste” (1986), por exemplo, em que um médico é advertido pelo diretor de um manicômio por ter deixado um dos internos ir a um concerto. O paciente acabou regendo a orquestra com uma maestria incrível, e aquilo sai nos jornais, ridicularizando a instituição. O diretor, então, diz ao doutor: “Hoje a manchete é ´demente sai do hospício e rege orquestra´, e todos estão rindo. Mas e se fosse ‘demente sai do hospício e ordena uma invasão militar?´”. Ao que o médico apenas responde: “Bom, mas isso já aconteceu…”, ironizando a invasão das Malvinas ordenada pelo general Galtieri, em 1982.

“Hombre”, como ficou conhecida, é sua produção mais famosa. A ideia nasce muitos anos antes, quando Subiela realizou um documentário num conhecido hospício de Buenos Aires, o Borda. Anos depois, neste filme ficcional, a trama gira em torno de Rantés, um sujeito que aparece dizendo que veio de Marte. Essa é sua única “anormalidade”. Passa em todos os exames médicos e não apresenta nenhum outro sinal de alucinação ou de comportamento psicótico. Ao contrário, mostra ter um QI muito acima da média e possui conhecimentos em várias áreas, encanta os outros internos, que passam a ser seus seguidores. As tentativas de identifica-lo fracassam, pois suas digitais não são reconhecidas. Parece ser um sujeito sem passado. A equipe médica passa, então, a trata-lo como um “louco” a mais. Porém, um dos médicos duvida, crê que nele há um enigma a ser resolvido. E acaba tendo sua própria vida virada do avesso. Afinal, até ali, era apenas um funcionário cansado da rotina daquele velho manicômio, e de repente vê em Rantés um desafio. O homem que diz vir de Marte apenas explica que sua missão neste planeta é entender a estupidez humana, cujos exemplos são sua coleção de recortes de jornais sobre crimes, pobreza e outros males do mundo. A peculiaridade rara de Rantés é que passa horas no jardim do hospício, olhando sempre para o sudeste.

Cena de "El Lado Oscuro del Corazón", com Darío Grandinetti (Foto Divulgação)
Cena de “El Lado Oscuro del Corazón”, com Darío Grandinetti (Foto Divulgação)

Mas meu filme favorito de Subiela é outro. Trata-se de “El Lado Oscuro del Corazón” (1992), que traz um jovem Darío Grandinetti _ainda cabeludo e mais alternativo que o ator que conhecemos hoje_ fazendo o papel de um homem que vive à beira da marginalidade. Em vários sentidos. Não tem dinheiro e, como é poeta, usa seus versos como moeda para comprar refeições para si e seus amigos, também artistas alternativos. Eles comem num quiosque da Costanera portenha, em noites frias e inóspitas, e falam de amor e do exílio _um deles é um estrangeiro que deixou seu país de origem para estar em Buenos Aires o resto de seus dias. E justifica dizendo: “é um lugar onde o céu e o inferno convivem ao mesmo tempo e tudo é imprevisível”.

Mas o personagem de Grandinetti, Oliverio (homenagem a Oliverio Girondo 1891-1967), acredita no amor. Um amor fora do convencional. “Quero uma mulher que saiba voar”, repete. Já para as que se apaixonam e lhe propõem um relacionamento usual, ele tem (aí entram os toques de surrealismo), um botão que as ejeta de sua própria cama depois do sexo _”materialização da máxima fantasia machista”, disse em certa ocasião, brincando, Subiela.

Oliverio caminha sem rumo por duas cidades, Buenos Aires e Montevidéu. Ambas aparecem grises, com a tonalidade de seus invernos, assim como as travessias em barco pelo Rio da Prata, com um vento constante que leva e traz os sentimentos e as recordações. Pelas ruas, Oliverio recita poemas, tendo como guia o mestre uruguaio Mario Benedetti (1920-2009), além de Girondo e Juan Gelman (1930-2014). Não por acaso, num cabaré de Montevidéu onde boa parte da ação se passa, surge o poeta uruguaio em pessoa, interpretando a ele mesmo, a recitar seus versos em alemão para uma figurante. Anos depois, numa entrevista, Subiela diria que essa mulher não conseguia parar de chorar, tomada pela emoção que lhe provocava Benedetti, verdadeira instituição uruguaia, e a cena teria de ser gravada várias vezes.

Oliverio, por fim, encontrará o amor numa prostituta, só que, neste caso, será ela a mais propensa a apertar o botão para ejetá-lo de sua vida.

Na Espanha, “El Lado Oscuro del Corazón” ficou por muitos anos em cartaz, numa sessão da meia-noite, num cinema frequentado apenas por fãs de filmes “cult”. Mas Subiela só poderia parecer “cult” na Europa, pois seu cinema sempre se identificou profundamente com a cultura, a sociedade e a literatura da região do Rio da Prata.

Com o desaparecimento dos DVDs e a imposição de serviços como Amazon e Netflix em nossos costumes, filmes como os de Subiela poderiam estar condenados a desaparecer para sempre. Por sorte, boas almas subiram a maioria deles para o Youtube. Não é a melhor versão possível, e minimiza seu potencial como cinema. Mas estão ali e podem ser vistos online.