Santos pede alternativa à guerra às drogas

Por Sylvia Colombo
O presidente colombiano Juan Manuel Santos, em Oslo (Foto Reuters)
O presidente colombiano Juan Manuel Santos, em Oslo (Foto Reuters)

O ponto mais importante do discurso do presidente colombiano Juan Manuel Santos, em Oslo, no último sábado (10) passou um tanto despercebido. A emotiva homenagem às vítimas e o repeteco de suas falas anteriores sobre a importância da paz com as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) ganharam as manchetes do mundo.

Mas talvez o trecho mais essencial de sua intervenção seja outro. Santos pediu abertamente, por uma “necessidade urgente”, “construir uma alternativa” à estratégia bélica para combater os cartéis de narcotráfico. O mandatário já havia ensaiado defender essa posição na Cúpula das Américas de 2012, mas, naquele encontro, em que questões mais urgentes se impuseram _as situações de Cuba e Venezuela_ a sugestão ficara no ar. Santos depois colocou a questão à ONU e à OEA, mas o tema não ganhou adeptos e não frutificou.

Agora, Santos foi mais claro, e para uma audiência internacional e qualificada. Tomara que tenha sido ouvido. “A Colômbia foi o país que mais mortos e sacrifícios colocou nessa guerra. Temos autoridade moral para afirmar que, depois de décadas de luta contra o narcotráfico, o mundo não conseguiu controlar esse flagelo, que alimenta a violência e a corrupção em toda nossa comunidade local”, afirmou.

No trecho final de seu mandato, Santos agora parece mais à vontade para abrir espaço para discutir a legalização das drogas em seu país. E, de fato, na Colômbia, esse debate vem aumentando, produzindo como resultado, até agora, a legalização do uso da maconha medicinal.

Disse, ainda, o presidente colombiano: “O narcotráfico é um problema global e requer uma solução global que parta de uma realidade que não se pode mais esconder: a guerra contra as drogas não foi vencida, nem está sendo vencida.” Neste momento, foi intensamente aplaudido. E ainda mais quando deu um exemplo. “Não tem sentido mandar para a cadeia um camponês que planta maconha quando hoje é legal produzi-la e consumi-la em oito Estados dos EUA.”

Santos deixou, assim, aberta a porta para uma discussão mais ampla sobre a legalização em todo o continente. “A guerra às drogas se mostra mais daninha que todas as guerras que estão ocorrendo no mundo juntas. É hora de mudar de estratégia.”

Curiosamente, o discurso do colombiano ocorre quando, no México, lembra-se que faz exatamente dez anos que o Estado deu início à sua “guerra ao narcotráfico”. Apenas oito dias depois de eleito, o conservador Felipe Calderón (2006-2012) enviou tropas a seu Estado natal, Michoacán, para reprimir uma disputa entre cartéis locais. Desde então, intensificou esses ataques, com ajuda financeira dos EUA.

O balanço dos números que essa guerra gerou, em dez anos, são assustadores. Segundo dados oficiais, desde então, quase 200 mil pessoas foram assassinadas e 28 mil são dadas como desaparecidas.

Espetáculos trágicos e sangrentos foram povoando a memória coletiva mexicana e anestesiando-a aos piores cenários: fossas comuns com mais de cem pessoas encontradas com frequência em vários pontos do país, plantações clandestinas de papoula (para a produção de heroína) recrutando crianças nos Estados mais pobres, a desaparição dos 43 estudantes de Ayotzinapa, a execução de 72 imigrantes, a maioria da América Central, pelo cartel dos Zetas, em 2010. O surgimento das milícias cidadãs, os “autodefensas”, também brutais e também metidos com o narcotráfico, eliminando a autoridade dos governos regionais. A lista de danos é imensa.

Números recentes, já do governo do priista Peña Nieto, mostra que o número de mortes como consequência de disputas entre cartéis ou entre cartéis e o Exército não vem diminuindo, pior, do ano passado para cá registrou-se um aumento de 16%.

A boa notícia é que também neste país do Norte, a discussão sobre a legalização das drogas começa a entrar na pauta do Congresso e dos políticos, ainda que recebendo muita resistência por parte da sociedade. O ex-presidente Vicente Fox é o nome mais destacado entre essas vozes, pedindo a legalização “de todas as drogas”.

Apesar da análise de vários especialistas de que isso, num primeiro momento, poderia ter um impacto negativo, também é uma conclusão de muitos estudiosos que, a médio e longo prazo, legalizar as drogas traria benefício, como a destruição desses cartéis ao dinamitar seu milionário negócio. Com o fim dos enfrentamentos armados, o número de vítimas fatais cairia brutalmente.

Que o discurso de Santos seja mais um passo para abrir de vez a porta para o debate sobre as alternativas ao combate bélico ao narcotráfico, como a legalização das drogas e o tratamento do problema na órbita da saúde pública, com campanhas de educação e prevenção e políticas de redução de danos e tratamento aos viciados, como já acontece em alguns países da Europa.

Até lá, a América Latina, como mostram os números do México em uma década de combate bélico, continuará dessangrando.