Publicar ou não os inéditos de Bolaño?

Por Sylvia Colombo
O escritor chileno Roberto Bolaño (Foto El País)
O escritor chileno Roberto Bolaño (Foto El País)

Essa pergunta foi a principal polêmica que rondou a última edição da Feira do Livro de Guadalajara, que terminou na semana passada no México e que, entre seus destaques, teve o lançamento de mais uma obra póstuma do cultuado escritor chileno Roberto Bolaño (1953-2003).

A vida nômade (morou no Chile, no México e na Espanha), a morte repentina aos 50, os mistérios que o circundam (como por que havia escrito tanto ao longo de toda a vida, mas só decidiu começar a publicar tão mais tarde?), as raras aparições públicas, seu “look” desalinhado que indicava que sua vida era a literatura antes de qualquer outra coisa, a larga agonia causada por uma doença hepática degenerativa, além do aclamado experimentalismo de suas obras editadas em vida (como “Os Detetives Selvagens” e “Noturno do Chile”), criaram em torno de Bolaño uma idolatria que permeia quase todas a criação da nova geração de autores latino-americanos e segue arrebanhando uma multidão de leitores-cultuadores.

Porém, o lançamento, na Feira do Livro de Guadalajara, de “El Espíritu de la Ciencia-ficción”, não foi apenas motivo de festa. Afinal, revelaram-se bastidores turbulentos da publicação da obra, e, com eles, veio a questão: “Será que Bolaño gostaria mesmo de ver esse livro editado?”.

“El Espíritu de la Ciencia-Ficción” é parte do imenso Arquivo Bolaño, composto por 14.374 páginas que o autor deixou sem publicar, ao morrer. Conta a história de dois jovens poetas, Jan e Remo, que tentam viver de literatura na Cidade do México, nos anos 1970. Ecos de personagens que apareceriam em obras posteriores e de um suposto alter-ego podem ser identificados. O manuscrito, encontrado inteiro, tem uma data de encerramento, 1984, e a assinatura do autor. Portanto, parece que permaneceu completo e inédito por quase 20 anos antes da morte do autor.

Por que, estando pronto, Bolaño não o publicou?, perguntam alguns críticos.

Não seria uma grande polêmica caso uma celeuma, ou um verdadeiro barraco, entre editores, a ex-mulher e a então namorada, não acompanhasse o lançamento. Afinal, outras obras póstumas do autor já haviam sido lançadas (“2666” e “El Tercer Reich”) e recebidas apenas de forma festiva.

O que ocorreu desta vez foi que a viúva e herdeira de seu legado, Carolina López, de quem Bolaño estava separado, porém não divorciado, resolveu deixar a editora pela qual Bolaño havia publicado durante toda a vida, a Anagrama, do prestigiado catalão Jorge Herralde, e levar a obra para a Alfaguara.

Herralde não ficou quieto, afirmou que a decisão não se dava por motivos de dinheiro, e sim porque a viúva o havia colocado numa “lista negra”. Disse: “nós formávamos parte do grupo de amigos íntimos de Bolaño a quem ele apresentava Carmen Pérez de Vega como sua namorada”.

De fato, Bolaño já não vivia há alguns anos com López, com quem teve dois filhos. Foi Pérez de Vega quem o acompanhou em sua doença e quem o levou ao hospital no dia em que morreu. Era ela, também, a quem Herralde consultava quando tinha dúvidas sobre algum detalhe de edição dos manuscritos do autor.

López não quis mais aceitar essa situação e resolveu colocar um fim na história. Tirou os direitos de Bolaño da Anagrama e os levou para a Alfaguara, que agora reeditará também sua obra anterior. Na FIL, López respondeu aos que perguntaram se Bolaño realmente queria ver “El Espíritu de la Ciencia-Ficción” no mercado.

“Esse livro não é uma montagem, é um livro terminado. Não sei dizer quando ele iria querer pubicar, é possível que fosse publicando o que estivesse produzindo no momento, mas tenho certeza de que estaria contente de ve-lo publicado agora.”

A resposta não convenceu muita gente, principalmente Herralde e Pérez de Vega. Mas os críticos, que elogiaram a obra, definindo-a como “essencial” na bibliografia do autor, a receberam bem. Também os leitores, que a buscaram avidamente no stand da editora na feira.

Não foram poucos os que saíram em defesa da publicação, como a norte-americana Valerie Miles, da Granta: “se ele quisesse mesmo que não fosse publicada, teria deixado instruções para que fosse destruída, porque esteve doente muito tempo e poderia ter tomado essa decisão”.

Já os do contra, porém, usam o argumento da enfermidade no sentido contrário, afirmando que, se Bolaño teve tanto tempo para publica-la, desde sua conclusão, em 1984, até o dia de sua morte, em 2003, por que não o fez?.

As particularidades do caso Bolaño jogam lenha na discussão sobre até onde vai o poder dos herdeiros _e quem são eles_ de publicar material inédito de um artista morto. Sabe-se que Bolaño começou a escrever aos 17, mas seus primeiros textos só foram publicados a partir dos 43. Viveu sete anos como escritor reconhecido, e morreu em 2003. Agora já completa 13 anos como “autor de obras póstumas”. Além disso, não há que esquecer-se de que ainda restam muitos manuscritos em posse da viúva Carolina López. Sobre o assunto, também falou seu agente, Andrew Wylie, na FIL e na entrevista que publiquei na Ilustrada do último sábado.

Como muitos ainda agradecem a Max Brod por não ter seguido as orientações do amigo, Franz Kafka (1883-1924), de destruir sua obra não publicada, como julgar a viúva de Bolaño agora? A pergunta segue no ar.