Por que Medellín é tão especial?

Por Sylvia Colombo
Imagem da homenagem às vítimas do acidente, em Medellín (Foto El Colombiano)
Imagem da homenagem às vítimas do acidente, em Medellín (Foto El Colombiano)

Em seu mais famoso relato de não-ficção, “Notícia de Um Sequestro”, Gabriel García Márquez (1924-2014) afirma que os “paisas” (habitantes da região de Antioquia, cuja capital é Medellín) combinavam de uma forma muito particular “a reza e a parranda” (parranda significa festa, de modo geral).

Aos brasileiros que se comoveram com a linda homenagem que o Atlético Nacional de Medellín e os moradores da cidade fizeram aos jogadores do Chapecoense e às demais vítimas do acidente aéreo desta semana, os “paisas” deram mais uma prova de serem uma sociedade muito especial, dentro de um país que é nosso vizinho, mas que conhecemos tão pouco. Medellín é colombiana em sua essência, mas possui uma personalidade muito própria, marcada pela solidariedade, pela força dos laços familiares, pela fé e pelo gosto pela festa coletiva.

No livro mencionado, o costenho García Márquez observou os “paisas” quase como um estrangeiro. Gabo nunca viveu em Medellín. Conhecia bem as características dos caribenhos, pois nascera naquela região, antipatizava levemente com certa arrogância da elitista Bogotá, mas em Medellín se deparou com um desafio. Como uma sociedade era capaz de produzir um contexto de extrema violência _que era, exatamente, a razão pela qual ele escrevia sobre ela, afinal, “Notícia” é um relato sobre uma série de crimes cometidos pelo Cartel de Medellín_ e ao mesmo tempo atravessar esses anos de forma tão compacta, tão forte, e com tanta união entre seus cidadãos?

A literatura mesmo oferece outras chaves. Uma obra de um antioquenho célebre, “El Olvido que Seremos”, de Hector Abad Faciolince, vai no centro da questão. Trata-se de um relato memorialista. O autor teve o pai, um médico e defensor dos direitos humanos, assassinado por paramilitares quando ele era pouco mais que um adolescente. Já sabemos isso desde o começo da leitura, mas a obra tem uma força narrativa descomunal desde a primeira linha, porque Abad Faciolince a constrói não para mostrar como era a violência em Medellín, apesar de este ser sempre o pano de fundo, mas sim como se formavam os círculos de amizades, de afetos e a as vidas familiares na Medellín em que ele cresceu, em tempos tão difíceis. Apesar de a história terminar com uma tragédia, encerra-se também com uma mensagem de esperança. A de que a força está no outro, no apoio dos que te rodeiam, sejam eles de seu próprio sangue ou não.

Medellín ainda carrega de modo sofrido esse rótulo de ter sido, por vários anos, uma das cidades mais violentas do planeta. Justamente durante os tempos da atuação do cartel liderado por Pablo Escobar (1949-1993). Não ajuda nada que tanto se celebre sua imagem como ícone cultural nos dias de hoje. Escobar foi um monstro surgido num contexto que precisa ser mostrado e entendido para jamais ser repetido. Não estampado em camisetas vendidas nas esquinas das grandes cidades como se fosse um ídolo nacional.

Mas o que vale ressaltar aqui é o que Medellín conquistou depois de 1993, ano em que o chefão do narcotráfico foi morto. Muitos apontam que a esperança surgiu com uma série de gestões de prefeitos e governadores progressistas, com uma visão de que mudanças urbanísticas poderiam transformar a sociedade.

De fato, a aposta, iniciada por Sergio Fajardo quando foi prefeito da cidade (2003-2007), e continuada por seus sucessores, foi correta. Mas não basta para explicar porque a cidade, de sangrenta e perigosa, se transformou em uma urbe moderna e generosa. Andar de “metrocable”, o sistema de teleféricos que une periferia e centro, poderia ter se consolidado apenas como uma facilidade para as pessoas que vivem no subúrbio chegarem mais rápido ao trabalho (o que por si só seria muito valioso). Mas não, o “metrocable” virou também um passeio de fim de semana e um programa turístico. É, ao mesmo tempo, um modo de famílias de classe média levarem os filhos para conhecer as partes altas da cidade, e também um meio para que os habitantes das favelas tenham acesso mais rápido às ofertas de diversão do centro, entre elas o futebol.

Além das inovações nos transportes, houve também grande investimento na rede de museus e bibliotecas. Mas, novamente, elas de nada adiantariam se, como no caso do “metrocable”, não fossem abraçadas e incorporadas pela sociedade. Essas obras são concebidas para serem inclusivas e acessíveis, e assim foram recebidas.

Entre a costa alegre e festeira e a capital sofisticada e europeia, Medellín é uma Colômbia à parte. Uma sociedade também da montanha, com fama de trabalhadora e religiosa, e que aprendeu, ao longo de décadas de percalços, a ser solidária para atravessar junta períodos difíceis.

Já é hora de parar de associar Medellín ao perigo e à violência. E sim de celebrar Medellín por sua imensa generosidade, e por ser capaz de chorar mortos que não são os seus, de estender a mão ao outro que está sofrendo, mesmo que este seja um desconhecido. De unir, como definiu Gabo, “reza e parranda” também para consolar o próximo em um momento de terrível luto como o que assistimos nesta semana.

Foi bonita e emocionante a festa, Medellín. Gracias.