Macri e Trump, entre a amizade e uma saia-justa

Por Sylvia Colombo
O argentino Mauricio Macri e o norte-americano Donald Trump (Foto Arquivo)
O argentino Mauricio Macri e o norte-americano Donald Trump (Foto Arquivo)

O presidente argentino poderia ter comemorado mais que qualquer mandatário latino-americano a vitória do republicano Donald Trump, nas últimas eleições dos EUA. Além do perfil parecido _ambos herdeiros de fortunas e empresários_, os dois se conhecem há décadas, já fizeram negócios de valores milionários juntos, jogaram golf e almoçaram várias vezes em viagens de Macri a Nova York. Em uma entrevista do começo dos anos 2000 resgatada pela mídia argentina nos últimos dias, Macri chama Trump de “amigote”.

Porém, a eleição do republicano não caiu de forma muito leve no estômago de Macri e de sua equipe econômica. Desde sua posse, há quase um ano, a Argentina se apressou em derrubar as barreiras comerciais e em livrar o país do intenso protecionismo kirchnerista contra o qual Macri armou de forma enfática sua campanha eleitoral. Além disso, o argentino começou também a dar passos largos para aproximar-se da Aliança do Pacífico e viajou para Europa e para os EUA para avisar que a Argentina estava de volta aos mercados internacionais e que queria e precisava, desesperadamente, do retorno do investimento estrangeiro ao país.

A mensagem se espalhou de forma positiva, e foi coroada com a visita que recebeu do presidente Barack Obama, em março, quando mais portas se abriram nesse sentido. Além de simbolicamente reforçar essa imagem de uma nova Argentina, aberta e carente de mais laços comerciais internacionais, o encontro aproximou Macri de Obama, e por consequência dos democratas. Numa visita marcada pela “buena onda” entre os dois líderes e as duas primeiras-damas, Juliana Awada e Michelle, com direito a baile de tango e visita a Bariloche juntos, ambos os líderes acertaram uma agenda ampla comum que priorizava intensificar a relação comercial bilateral, e ainda incluía outros temas de colaboração nas áreas de segurança, de combate ao narcotráfico e até na de direitos humanos, não exatamente uma prioridade na gestão macrista.

Para demonstrar a boa vontade de Obama com a nova gestão argentina, meses depois aterrissou em Buenos Aires o secretário de Estado John Kerry, trazendo uma pasta com novos documentos sobre a ditadura (1976-1983), até então classificados, e que serviram, de fato, às investigações das organizações de direitos humanos e de historiadores locais, mostrando que a participação e ingerência dos EUA no governo dos militares argentinos tinha sido maior do que se pensava.

A ambição do macrismo seguia sendo, até as vésperas da eleição, a de recuperar uma relação de comércio bilateral que já havia sido mais intensa no passado. No período de Bush pai, as vendas aos EUA representavam 10% do total exportado pela Argentina. No final do período Clinton, alcançaria 18%, mas, já nas gestões Bush e Obama, se encontravam na magra marca de 7%. Macri estava confiante que o novo amigo na Casa Branca o ajudaria a elevar essa cifra e tiraria a Argentina do atual sufoco. Entre os acordos desenhados na visita de março, estava um de uma ampliação expressiva das exportações agropecuárias do país-vizinho ao do norte. 

Todo esse rápido e positivo histórico da relação de Macri com Obama fez com que o governo argentino apoiasse abertamente a candidatura de Hillary Clinton. Em entrevista à emissora do Buzzfeed, o argentino declarou em alto e bom som preferir Hillary a Trump. Mais, reforçando sua fama de piadas que de vez em quando geram saias-justas, Macri chamou Bill Clinton de “futuro primeiro-marido” dos EUA, em evento da Fundação Clinton.

A realidade do resultado da eleição do último dia 8 colocou Macri numa situação complicada.

Ele, que tencionava liderar essa guinada da América Latina para a abertura de mercados depois de uma década e meia em que o protecionismo predominou em vários de seus países _num caminho no qual vinha sendo seguido pelo peruano Pedro Pablo Kuczynski, pelo paraguaio Horacio Cartes e, mais timidamente, pelo Brasil, sem contar os que já estavam nessa rota, como o colombiano Juan Manuel Santos_, tomou uma ducha de água fria com a vitória de Trump. Isso porque o republicano tem pregado a revisão da participação dos EUA no Nafta e em outros tratados internacionais. À primeira vista, por seus discursos de campanha, o presidente-eleito norte-americano aponta para uma política econômica protecionista, que tende a levantar barreiras para o comércio exterior, justo no momento em que a América Latina sugere tomar o caminho contrário.

O argentino, então, mobilizou sua tropa para readaptar-se ao novo cenário. Em seu primeiro pronunciamento sobre o novo governo americano, disse: “Espero que continuemos trabalhando nessa relação construtiva, madura, inteligente, que iniciamos com Obama. Vamos ao governo Trump com a melhor predisposição para dialogar. Espero que o que foi acordado seja mantido”. 

Até agora, o norte-americano falou ao telefone com apenas dois líderes latino-americanos após a eleição, o mexicano Enrique Peña Nieto e o colombiano Juan Manuel Santos. Porém, nos últimos dias, um dos filhos do magnata ligou para a chanceler argentina Susana Malcorra para acertar um telefonema de Trump a Macri, provavelmente durante a próxima semana. Eric Trump, sem mencionar o apoio recente de Macri aos democratas, recordou à Malcorra a velha amizade dos anos 80 entre Trump pai e os Macri (pai e filho): “Diga ao presidente Macri que meu pai sempre se lembra dele com carinho”, disse à chanceler.

Macri, portanto, inicia a semana esperando essa chamada e que ela signifique a continuidade dos negócios entre Argentina e EUA que ele pensava ter inaugurado com êxito com Obama.

Mais, deve estar torcendo para que nenhum assessor de Trump tenha tido acesso e mostrado ao presidente-eleito a entrevista que deu no ano passado a uma jornalista de celebridades argentina que lhe perguntou como era Trump. Assim respondeu Macri: “É um sujeito muito exibicionista, já se penteava desse mesmo jeito naquela época. Era toda uma atuação, desde a manhã até a tarde. Prova disso está naquele seu programa de televisão, um ´reality show´ ridículo. Eu não acredito que possa ganhar uma eleição porque suas posições são muito extremas, vai acabar facilitando as coisas para a Hillary.” Na mesma entrevista (veja abaixo), o presidente argentino classificou Trump como “un tipo chiflado” _que seria algo como “um sujeito doidão”.

A ver como a história prossegue.