“Se Gabo dizia que Cem Anos era um vallenato, por que Dylan não pode ganhar o Nobel?”

Por Sylvia Colombo
O escritor colombiano Juan Gabriel Vázquez (Foto Semana)
O escritor colombiano Juan Gabriel Vázquez (Foto Semana)

Em conversa nesta quarta (26) com artistas de hip hop e dança de Cartagena, o escritor colombiano Juan Gabriel Vázquez disse que tinha “mixed feelings” (sentimentos mesclados, contraditórios) sobre a escolha do Nobel de Literatura deste ano para o cantor e compositor Bob Dylan.

“É óbvio que a arte de Dylan é maravilhosa, que suas letras são poesia de alta qualidade, mas creio que muitas delas dependem da música, e nesse sentido não sei se é possível compara-lo a poetas que já ganharam o Nobel, como Wislawa Szymborska. Por outro lado, não consigo pensar em que de um lado esteja a arte de Dylan, que é inspiradora e criativa, e de outro a de García Márquez, que nos abriu janelas para mundos nunca imaginados. Nós, seres humanos, somos animais que para entender-nos uns aos outros nos contamos histórias, e nesse sentido todos os gêneros da arte têm o mesmo valor”, provocando aplausos do público.

E acrescentou: “Além disso, García Márquez dizia que ´Cem Anos de Solidão’ era um vallenato (gênero musical mais famoso na Colômbia) de 400 páginas. Depois dessa frase, não há o que se recriminar em dar um Nobel a Bob Dylan”, disse, provocando risos na plateia.

Vázquez participou deste evento na cidade caribenha, que é preparatório para o encontro de presidentes da Cúpula Iberoamericana, que tem início nesta quinta-feira (27). Organizado pela Segib (Secretaria Iberoamericana), esta edição contará com a apresentação de artistas locais de rap e hip hop como recepção aos mandatários.

Curiosamente, há alguns dias, em São Paulo, o escritor britânico Ian McEwan me disse que, o autor latino-americano de quem mais tinha gostado nos últimos tempos era Juan Gabriel Vázquez, esse bogotano de 40 anos que já leva um tempo radicado na Espanha.

É dele o fantástico “El Ruído de las Cosas a Caer”, que ganhou o prêmio Alfaguara, em 2011, e que conta a história do impacto do narcotráfico em duas famílias, mas que é, sobretudo, uma novela sobre o medo que acossa os colombianos desde os tempos da época chamada de “La Violencia”, após o assassinato do líder popular Jorge Eliecér Gaitán, em 1948.

E é exatamente sobre as consequência da morte desse homem, que Vázquez considera o “JFK colombiano”, que trata o mais recente romance do autor, “La Forma de las Ruínas”.  A trama se passa em 2014, quando um homem é preso por tentar roubar de um museu uma roupa que pertenceu a Gaitán. A forma como esse crime ficou em aberto até hoje, sem que nunca se descobrisse quem foi seu assassino e o mandante do crime, é uma das razões pelas quais, muitos creem, a reconciliação colombiana permanece sendo um assunto tão difícil.

O resto do debate foi dedicado a discutir as distâncias entre a cultura da elite colombiana, mais europeizada, e a da população mais humilde da costa, marcada pela presença indígena e africana.

Em sua intervenção final, Vázquez disse que, na literatura, vê sua contribuição no fato de ser um ato de rebeldia. “Na literatura nós nos rebelamos contra o fato terrível de só podermos ser, na vida real, apenas aquilo que somos. Eu, no caso, um bogotano branco de 40 anos, Mas quero viver outras coisas, e isso só a literatura, no meu caso, me permite.”

A jornalista viajou a convite da Segib