O governador fujão

Por Sylvia Colombo
Cartazes que começaram a surgir em Veracruz, sobre a fuga do governador Duarte (Foto Reprodução)
Cartazes que começaram a surgir em Veracruz, sobre a fuga do governador Duarte (Foto Reprodução)

O que vem acontecendo no Estado de Veracruz, no México, seria até algo cômico, se não fosse trágico. Basicamente, a notícia é essa: o governador, ainda dentro do período de seu mandato, simplesmente desapareceu e é hoje considerado pela polícia um foragido. Impacientes com a falta de resultado das buscas por parte da força pública, a população começou a se mobilizar e a espalhar pelas cidades lambe-lambes como este acima, que diz “Duarte: Se Busca, Vivo ou Morto”, bem ao estilo do Velho Oeste.

Ao longo de seu mandato de seis anos, não foram poucas as vezes que o nome de Javier Duarte, 43, apareceu nos jornais mexicanos e estrangeiros como um dos líderes regionais do país que mais abusavam de sua posição. As notícias de corrupção surgiam aos borbotões, desde denúncias de uso de dinheiro ilegal na campanha eleitoral, a desvios de recursos federais para obras públicas, criação de empresas fantasmas, desvio de US$ 2 bilhões de gastos com planos sociais e aposentadorias _houve até marchas de protesto de idosos, que deixaram de receber suas aposentadorias.

As notícias eram muitas, e o governador Duarte respondeu a elas da forma mais brutal possível: perseguindo os jornalistas. País da América Latina em que mais repórteres são assassinados no exercício de sua função, o México tem em Veracruz a capital desse crime brutal. Segundo a ONG Artículo 19, dezessete jornalistas foram mortos no Estado desde então. Em muitos desses casos, há evidências de participação da polícia local, o que sugere que Duarte poderia estar por trás dessas mortes. Porém, nenhuma delas foi até agora investigada. Duarte também abriu processos contra veículos locais e contra o jornal “Reforma”, de circulação nacional.

Em geral, o público comum pensa que as mortes de jornalistas no México estão relacionadas de modo direto ao narco. Que se tratam de profissionais que estavam numa linha de frente de investigação da operação dos cartéis.

Porém, quando se lê a lista das matérias em que esses profissionais estavam trabalhando quando morreram, encontramos outro padrão nacional, a maioria estava investigando a ligação de governos regionais com o crime organizado ou simplesmente destrinchando casos de corrupção em órgãos estatais. De certo modo, isso acontece na maioria dos Estados, mas Veracruz, pelos números oficiais, é o campeão deste sangrento ranking.

Depois que o Partido Revolucionário Institucional (PRI) sofreu um enxugamento nas últimas eleições regionais, devido, entre outras coisas, ao desgaste do presidente Enrique Peña Nieto depois que foram descobertas propriedades em nome de sua esposa e de altos funcionários vendidas a preço de banana por um empresário que ganhou várias licitações de obras estatais, EPN se viu pressionado a fazer algo contra a corrupção, que se impôs na agenda de protestos dos mexicanos.

Não que mostrasse muito entusiasmo com a ideia. Quando ainda tentava defender-se pelos casos que atingiam membros da sua cúpula, há alguns meses, declarou: “Ninguém pode atirar a primeira pedra. Todos são parte desse modelo que queremos mudar”. Nas redes sociais, seus opositores o acusam de estar encobrindo a desaparição de Duarte.

Parece que a saída às ruas da população para protestar, algo que se tornou comum desde 2014, com o desaparecimento dos 43 estudantes em Ayotzinapa _outro caso que revelou a íntima relação entre o poder e o cartel local_ vem tendo seu efeito. Os protestos mais recentes apontam para a figura de Peña Nieto, e incluem desde o fato de ter convidado Donald Trump a visitar o país até os casos não investigados de corrupção que atingem autoridades regionais e o próprio governo nacional.

Mas parece que, se EPN só faz prometer a criação de agências de auditorias e um escritório anti-corrupção, que ainda não começou a operar, a Justiça finalmente vem acordando.

E é por conta disso que o governador Duarte sumiu. Do mesmo partido do presidente, o governador acreditava que estaria imune mesmo depois do fim do seu mandato, afinal, esperava-se que seu sucessor também fosse do PRI, e que este então encobriria seus delitos. Mas não foi o que aconteceu, venceu justamente o partido rival, o conservador PAN, com Miguel Ángel Yunes, que assume no dia 1 de dezembro.

Pouco depois da eleição, um juiz federal lançou um pedido de prisão a Duarte, para investiga-lo sobre uma denúncia de lavagem de dinheiro.

Duarte, então, apresentou sua renúncia oficialmente, e simplesmente desapareceu, a 48 dias da data em que de fato deveria entregar o cargo a seu sucessor. Yunes afirma que Duarte já saiu de Veracruz, de helicóptero, e que a essas horas estaria no Canadá, mas ainda não surgiram evidências que corroborem essa tese.

Questionados sobre onde está o governador desaparecido, nem mesmo o Secretário de Segurança, Miguel Osorio Chong, sabe dizer qual é seu paradeiro.

O caso é tão vergonhoso para a gestão Peña Nieto que tende a desgastar ainda mais sua imagem, cujos números de aprovação vêm em queda livre.

Peña Nieto, que quis tanto passar a imagem de perseguidor implacável de barões da droga, e que, apesar das fugas do “Chapo”, ao fim conseguiu recupera-lo, agora lida com uma situação ainda mais embaraçosa e inusitada. Precisa colocar a força pública e os órgãos de inteligência nacionais na caça de um governador de seu próprio partido.

Se não o fizer, estará dando mais motivos para que as pessoas saiam às ruas em protestos, nesses difíceis dois anos que terá pela frente até finalizar seu mandato.