Colômbia leva ao Oscar drama das crianças guerrilheiras

Por Sylvia Colombo

No ano passado, a Colômbia foi a representante do cinema latino-americano no Oscar, colocando entre os cinco finalistas da categoria filme estrangeiro o ótimo “O Abraço da Serpente” (Ciro Guerra), drama baseado em fatos reais ocorridos em dois momentos do passado na Amazônia colombiana. Não levou porque, afinal, era difícil tirar o trono do incômodo e brilhante “O Filho de Saul” (Lászlo Nemes).

Neste ano, na mesma semana em que as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) fizeram a primeira entrega dos menores de idade que estavam nas fileiras da guerrilha para as forças de paz, cumprindo com um dos itens do acordo que vem fechando com o governo, a academia de cinema local escolheu, para representar o país no Oscar 2017 um filme justamente sobre esse tema.

“Alias Maria”, que competiu na na seção Un Certain Regard, em Cannes, e foi elogiado pela crítica europeia e local, conta a história da menina guerrilheira Maria (Karen Torres), de 13 anos, que recebe a tarefa de entregar, são e salvo, o bebê recém-nascido de um comandante que está num acampamento distante do dela. O que seus companheiros, e os chefes que a designam para a missão, não sabem, é que a própria Maria está grávida de seu namorado, Mauricio (Carlos Clavijo), também um guerrilheiro jovem, carinhoso com ela, mas muito duro em relação a seus princípios e à obediência à hierarquia da guerrilha.

Usando em geral não-atores, o diretor José Luis Rugeles logra mostrar o assombro mesclado às reações impulsivas e espontâneas desses guerreiros adolescentes diante dos desafios que a vida na selva, e em plena guerra, vai colocando à sua frente. Às guerrilheiras de baixo escalão, como Maria, a regra é abortar quando engravidam. Apenas as mulheres dos chefes podem ter filhos. Para praticar os abortos, um médico improvisado examina as meninas regularmente. Numa das primeiras cenas, Maria está na fila para ser atendida, sabe que está grávida, mas, ao ver sua companheira ser levada ao quartinho para o procedimento do aborto, tem a primeira reação contra o que a espera.

Ela segue escondendo seu problema como pode, mesmo do namorado, que a percebe estranha. Sem jeito com a “encomenda”, Maria se vira como pode para fazer com que o bebê que lhe foi confiado deixe de chorar, enquanto carrega, ainda, seu fuzil e uma pesada mochila. Os guerrilheiros que a acompanham não entendem porque ela não consegue controlar o bebê, que berra pela separação da mãe verdadeira e, assim, expõe sua localização aos paramilitares e aos soldados do Exército, que estão em seu encalço na floresta. O clima entre o grupo vai ficando tenso.

Enquanto isso, Maria vai se envolvendo com o bebê e vendo despertar seu instinto maternal. A partir daí, impõe-se para a ela a vontade de decidir sobre o seu próprio destino e da criança que leva na barriga. Só que a escolha, na guerrilha, para os soldados de baixo escalão, não é algo permitido, e ela precisa decidir se enfrenta seus companheiros e chefes, se escapa ou se deixa-se matar.

Num momento de aceleração dos acontecimentos, encurralados pelos “paracos” (como chamam aos paramilitares), o namorado de Maria decide que o bebê do comandante deve ficar com um casal de idosos camponeses, até que o grupo se encontre a salvo. Maria se revolta, e acaba revelando que ela mesma também está grávida, de quatro meses. Ele se enfurece e diz que buscará um médico imediatamente para realizar o aborto, Maria se recusa.

A partir desse momento, ao lado de seu amigo Yuldor (Erik Ruiz), também um garoto, que machuca uma perna na travessia, ambos começam a questionar, afinal, o porquê  de estarem na guerrilha. Mas o debate é menos verbal do que se imagina, se dá por olhares contrariados, pequenos gestos de resistência e defesa. A carnificina da guerra, com o encontro de corpos enforcados pendurados em povoados destruídos, já não lhes parece uma consequência normal do conflito que nunca questionaram, mas algo que vai tomando cores absurdas.

Cartaz de "Alias Maria", representante colombiana no Oscar 2017
Cartaz de “Alias Maria”

Segundo a diretora da academia de cinema colombiana, a escolha de “Alias Maria” tem a ver com o momento político que vive o país e representa um modo de mostrar ao mundo o conflito por meio dos dramas humanos de que é composto. O governo colombiano e as Farc estão às vésperas de assinar um acordo de paz, que passará por um plebiscito. Em caso de ser aprovado, poderá colocar um a um conflito de mais de 50 anos e que deixou 250 mil mortos e mais de 8 milhões de refugiados internos. 

Já Rugeles diz que seu filme é uma tentativa de “fazer uma contribuição para a memória desse período, dessa guerra e de seus heróis desconhecidos, essa outra realidade colombiana”.

O filme segue uma tendência de crescimento da importância do cinema colombiano na cena regional, e de aumento de sua participação e projeção em festivais europeus. Impulsados por novas leis de incentivo e com uma nova geração de cineastas engajados em mostrar um país que muda e que pela primeira vez dá acesso a áreas antes vedadas pelo conflito, os filmes começam a mostrar o drama da vida em meio a violência, como em “Alias Maria” ou “Manos Sucias”, ou simplesmente desvendando uma região do país, sua história e suas cores, até então desconhecidas, como o longa “O Abraço da Serpente” e o documentário “Colombia Magia Salvaje”.