A solidão de Michelle Bachelet

Por Sylvia Colombo
A presidente chilena Michele Bachelet (Foto La Tercera)
A presidente chilena Michelle Bachelet (Foto La Tercera)

Julho não foi um bom mês para Michelle Bachelet, 64. A crise política que vive o Chile nos últimos meses, desdobramentos de casos de corrupção, denúncia de mau uso de verbas do Estado e a dificuldade de cumprir as promessas de campanha fizeram com que sua popularidade caísse dois pontos desde a última medição. Agora, a presidente chilena tem apenas 17% de apoio popular, menos que Juan Manuel Santos Colômbia, com 20%), o recém-saído Ollanta Humala (Peru, com 23%) e até que Nicolás Maduro (23%). Na verdade, Bachelet neste momento só ganha do interino brasileiro, Michel Temer, e de modo bem apertado. Já a rejeição à sua gestão atingiu 73% (dados Admark). É muito pouco para quem deixou o governo após sua primeira gestão (2006-2010) com mais de 80% de aprovação, e foi eleita para um segundo mandato, não consecutivo, em 2013, com 62%.

Visto de fora, para quem não está totalmente informado sobre o que rola no país andino e acha que aqui no Brasil estamos vivendo um fim de mundo, a pergunta mais óbvia é: “Mas o que há de tão errado no Chile?”.

Primeiro, é preciso entender que as sociedades não medem sua própria satisfação com um governo comparando-se às outros governos que estão indo mal. Se na Venezuela há carestia de alimentos, na Argentina a inflação está a quase 40% e, no Brasil, vive-se nessa tormenta política e em grave recessão, pouco importa para o chileno na hora em que avalia seu próprio presidente. Cada sociedade o faz olhando para seu bolso, para o futuro que pode ver para seus filhos, para o bem-estar próprio, de seus afetos e negócios. E neste sentido, os chilenos não estão se sentindo bem.

Os números da economia tampouco anunciam uma tormenta terrível a atravessar. Em 2015, o crescimento do país foi de 5,6%, e, para este ano, o FMI (Fundo Monetário Internacional) projeta 2%. É pouco, mas bastante aceitável para o momento de desaceleração econômica mundial e a situação na região.

As explicações para a má avaliação de Bachelet já haviam sido assunto de uma matéria que publiquei em Mundo, em maio. Agora, os componentes da crise são os mesmos, mas agravados, e os protestos nas ruas seguem. Nos últimos dias, houve passeatas de estudantes e de aposentados.

Bachelet foi eleita em 2013 com promessa de reformar a Constituição, principalmente para fazer uma reforma educativa, atendendo aos protestos estudantis dos últimos anos, e trabalhista. Ambas estão paradas no Congresso. Também alguns anúncios que fez no começo do governo, a de que impulsaria a aprovação da lei do aborto (o Chile é um dos poucos países do mundo em que o mesmo é proibido em qualquer circunstância) não receberam respaldo.

O caso de corrupção envolvendo sua nora, Natalia Compagnon, chamado de “Nueragate”, que teria obtido um empréstimo milionário por favorecimento ilegal, e acusações de que sua ministra de Justiça havia sido conivente por casos de corrupção na Gendarmeria nacional vêm minando sua imagem. Mesmo o futebol, que andou dando alegrias ao país ganhando as duas Copas América mais recentes, está no meio de um vendaval de acusações de corrupção de sua cartolagem.

Já no parlamento, o apoio de Bachelet vem diluindo-se rapidamente. Seu partido, o Nueva Mayoria, mostra sérias divisões. Enquanto a centro-esquerda e a esquerda se fragmentam, a direita se fortalece. O ex-presidente Ricardo Lagos (2000-2006), figura respeitada nos dois lados do espectro político, deu, na semana passada entrevista ao jornal “La Tercera” dizendo que essa era a crise institucional mais séria que o Chile vive desde o golpe militar de 1973. Não sem interesse particular no assunto, o ex-mandatário, aos 78, cogita lançar-se candidato às eleições de 2017, assim como outro ex-presidente, cuja popularidade vem subindo, o direitista Sebastian Piñera (2010-2014), aos 66.

Parte da bronca dos jovens que vão às ruas é também a falta de alternativas de gente mais jovem concorrendo. Primeiro, porque pela lei chilena, ninguém com menos de 40 anos pode concorrer, o que exclui lideranças populares cujo apoio cresceu a partir das manifestações estudantis de 2006 e 2011, como Giorgio Jackson, 29, e outros.

O certo é que o impasse na governabilidade acabou por acelerar a campanha presidencial do ano que vem, que parece já ter tido início. O Congresso, agora dividido, parece decidir as coisas de forma cada vez mais lenta, esperando a renovação de parte de suas cadeiras, que também só ocorre nessa data. Assim, a própria Bachelet já admitiu que não há condições de aprovar tudo o que prometeu entregar ao fim de seu mandato. É pouco o que pode fazer, de mãos atadas, para reagir neste ano e meio que ainda tem de gestão.

As eleições municipais de outubro, em que, de acordo com as pesquisas, a esquerda deve se enxugar ainda mais e a direita crescer, serão um termômetro da sucessão chilena. Seria interessante que a classe política, de ambos os lados, se renovasse a apresentasse novos nomes, e mais jovens, à contenda.