A trágica transformação do sandinismo naquilo que sempre havia combatido

Por Sylvia Colombo
Daniel Ortega e a mulher, Rosario Murillo, chapa que concorre nas eleições de novembro (Foto Divulgação)
Daniel Ortega e a mulher, Rosario Murillo, chapa que concorre nas eleições de novembro (Foto Divulgação)

Não é apenas Augusto Nicolás Sandino (1895-1934) quem deve estar revirando-se no túmulo. O movimento fundado em sua homenagem, o sandinismo, foi apenas uma das forças da sociedade nicaraguense que lutaram para tirar do poder a temida dinastia Somoza, que governou com mão-dura o país por mais de 45 anos, através das gestões de Anastasio I, seus filhos Luis y Anastasio II e outros líderes subjugados a eles. Os Somoza calaram a oposição, perseguiram e mataram seus líderes, controlaram a imprensa e, por muito tempo, tiveram apoio dos EUA _pelo menos até a chegada de Jimmy Carter ao poder, em 1977, quando então a postura dos EUA em relação à poderosa família passou a ser de recriminação.

A Revolução Sandinista, que durou de 1979 a 1990, mobilizou os setores de classe média, famílias tradicionais como os Chamorro e a própria Igreja Católica, além de boa parte da opinião pública internacional. Por fim, quem liderou a vitória final sobre o somocismo acabou sendo a Frente Sandinista de Libertação Nacional, com o projeto de redemocratizar o país e implementar um governo de cunho socialista.

A trágica ironia é que, justo esta FSLN, hoje comandada por um ex-líder guerrilheiro, Daniel Ortega, 70, está sugerindo a inauguração de uma nova linhagem dinástica e destruindo a democracia na Nicarágua.

Depois de eliminar a oposição do Congresso e impedir sua participação nas eleições de 6 de novembro, o presidente nicaraguense, no cargo desde 2007, se apresenta para disputar um quarto mandato (antes, ele mesmo havia feito aprovar a reeleição indefinida) tendo sua mulher, Rosario Murillo, como vice, e portanto provável sucessora em 2021 ou no pleito seguinte.

A Nicarágua saiu um pouco do radar do noticiário e da atenção de acadêmicos e observadores internacionais depois do fim da Revolução Sandinista. Mas, antes disso, durante os anos 80, o “case” da luta sandinista era uma referência importante para movimentos progressistas e partidos de esquerda de toda a América Latina.

Agora, tristemente, o país retorna aos meios internacionais, mas como um exemplo vergonhoso, o de repetir o passado que tanto combateu. O sonho sandinista de eliminar uma dinastia de linha-dura do poder acabou revertendo-se, e agora é o próprio líder máximo do sandinismo quem está fazendo exatamente a mesma coisa.

Para os pouco familiarizados com a história recente do país, Rosario Murillo está longe de ser uma marionete nas mãos de Ortega. Nos últimos anos, se transformou na segunda pessoa mais importante da Nicarágua, e em algumas áreas, a primeira. Alguns a chamam de co-presidente.

Oficialmente, ela é a primeira-dama e a porta-voz do governo. Na prática, porém, também exerce outras funções: chefe do gabinete de ministros, ministra das Relações Exteriores e uma espécie de fiscal informal do trabalho de autoridades locais. Tornou-se o exemplo máximo de como Ortega desrespeitou e demoliu a institucionalidade do país, fragilmente reconstruída depois da Revolução. Além de Murillo ocupando tantos postos estratégicos, alguns dos oito filhos do casal são diretores das principais estatais do país.

É impossível não dar de cara com o toque ou a voz de Murillo na Nicarágua. Primeiro, porque é ela quem faz um informe diário, sempre ao meio-dia, por meio dos veículos oficialistas, das coisas positivas que o governo realizou no dia anterior. Apenas das positivas, obviamente. Seu relatório nunca traz más notícias e frequentemente critica os meios relativamente independentes, dizendo que qualquer informação que não seja a que vem de seu informe, está “contaminada” ou mal-intencionada politicamente.

Murillo também espalhou muitas árvores iluminadas por Manágua, chamadas de “los árboles de la vida”, justificando que, ali, porque governam os sandinistas, todo dia é Natal, então todo dia é dia de festa. Os cartazes de propaganda do governo levam sua letra, além das diferentes cores com as quais também compõe seu vestuário.

Murillo, 65, recebeu uma educação mais completa e refinada que o marido, oriundo de uma família humilde e que teve um irmão também guerrilheiro, morto durante a Revolução. A primeira-dama estudou idiomas e artes nas universidades de Cambridge, na Inglaterra, e de Neuchâtel, na Suíça, e fala, além do espanhol, inglês, italiano e francês.

De volta à Nicarágua, entrou para a guerrilha sandinista. Perseguida, saiu do país e viveu um tempo no exílio, no Panamá. Desde 1979, está casada com Ortega. Um dos episódios mais obscuros de sua biografia ocorreu quando a filha, Zoilamérica, denunciou ter sido abusada por Ortega. Murillo, em vez de acolher a moça, rompeu relações com ela, defendeu seu marido, e expulsou o companheiro de Zoilamérica do país.

Ao justificar a escolha da mulher como vice, Ortega disse que seria um gesto para “dar mais espaço às mulheres” na política, e que isso tinha a ver com o ideário sandinista.

Hoje, as pesquisas de opinião pública oscilam entre os 40% aos 70% de aprovação popular ao casal. Mesmo que esses números sejam maquiados para cima, de fato isso importa pouco, uma vez que a oposição real não poderá disputar a eleição do dia 6 de novembro, que escolherá presidente e renovará o Congresso. As possibilidades de o casal perpetuar-se no poder, por ora, são altíssimas.

Se até aqui o pesadelo autoritário latino-americano parecia se chamar apenas Venezuela, a Nicarágua surgiu no páreo com grandes chances de roubar parte de seu espaço num curto prazo.