Mostra em Buenos Aires reúne manuscritos raros de Borges

Por Sylvia Colombo
Exposição "Borges, El Mismo, Otro", na Biblioteca Nacional de Buenos Aires (Divulgação)
Exposição “Borges – El Mismo, Otro”, na Biblioteca Nacional de Buenos Aires (Foto Divulgação)

Nem bem desembarcou em Buenos Aires para assumir a Biblioteca Nacional argentina, como já contei nesta matéria da Ilustrada, o escritor Alberto Manguel, 68, já inaugurou uma mostra em homenagem a seu antecessor e mestre, Jorge Luis Borges (1899-1986). “Borges – El Mismo, Otro” é uma exposição modesta em dimensões, mas riquíssima em valor documental. Trata-se de uma reunião de manuscritos, originais e diferentes versões de contos e textos do principal autor do país e um dos mais importantes do século 20. Desde que inaugurou, no último dia 15, a exibição tem como principal estrela um manuscrito, tido como o original, de “Pierre Menard, Autor del Quijote”, uma de suas obras consideradas mais brilhantes e complexas.

Editado pela primeira vez na revista Sur, em maio de 1939, e depois publicado em livro dentro da coletânea “Ficciones” (1944), o texto trata de um escritor francês fictício, apresentado se fosse uma resenha de seus trabalhos, que lista seus feitos e sua tentativa obsessiva de “reescrever” o “Dom Quixote”, obra-prima do espanhol Miguel de Cervantes (1547-1616), palavra por palavra, propondo um típico jogo borgeano.

A originalidade do “conto” de Borges abriu uma imensa discussão, ainda hoje em aberto no meio literário, sobre as questões de autoria e da apropriação de ideias, como que dando uma continuidade a um debate contido na própria obra cervantina.

Pois nessa mostra em Buenos Aires é possível ver o documento, com anotações de rodapé, correções e marcas do próprio Borges, com sua letra pequena, discreta e sem floreios, numa folha de caderno de matemática da marca Haber, comum à época. O documento pertence a um livreiro norte-americano, proprietário também de outros manuscritos de Borges. Completam a exposição peças do acervo da própria Biblioteca Nacional, versões de alguns contos (“Tema del Traidor y del Heroe”, “Emma Zunz”, “La Biblioteca Total”). Era comum que Borges escrevesse os contos de diferentes maneiras, trocando parágrafos de lugar, mudando a linha narrativa ou mesmo sua conclusão, até chegar a uma versão final. A mostra permite vislumbrar um pouco de seu modo de trabalhar.

A exposição completa-se com a inauguração, nesta semana, de outra mostra, “História Universal de la Fama” (que faz um jogo de palavras com outro título importante do autor (“Historia Universal de la Infamia”, de 1935), cuja ideia será contextualizar Borges na cultura pop a partir dos anos 1970 e 1980. Ambas irão até dezembro, na bela sede da Biblioteca, para quem estiver com viagem marcada a Buenos Aires. E são gratuitas.

Os eventos marcam as celebrações dos 30 anos da morte do escritor, junto com uma série de reedições e novos lançamentos.