Herdeiros de Pablo Escobar, hipos se reproduzem na Colômbia

Por Sylvia Colombo
Os hipopótamos de Pablo Escobar (Foto Infobae)
Os hipopótamos de Pablo Escobar (Foto Infobae)

Os últimos meses do cartel de Medellín, nos anos 1990, foram de uma caçada atroz. Polícia e Exército colombianos, aliados aos inimigos do bando criminoso e com ajuda tática e financeira dos EUA, buscaram, um por um, os líderes da facção, muitos foram presos e outros tantos foram executados como animais selvagens, como o próprio líder do cartel, o mítico Pablo Escobar (1949-1993), assassinado enquanto fugia pelo telhado de uma casa em Medellín.

No meio ao caos gerado pela guerra para dizimar o grupo criminoso responsável por um dos mais brutais derramamentos de sangue da história da Colômbia, algumas coisas foram deixadas num segundo plano, para não dizer esquecidas. Agora, retornam ao noticiário, numa espécie de sátira fantasmagórica daqueles tristes tempos.

Quando estava no auge do poderio e da riqueza, enchendo-se de dinheiro pela cocaína exportada aos EUA, Pablo Escobar não mediu as extravagâncias que podia realizar com o dinheiro que chovia em seu quintal. Comprou propriedades, quadros de artistas famosos e levantou a excêntrica Hacienda Nápoles, uma gigantesca área que, além de uma casa luxuosa, com piscina e todos os confortos, tinha também um zoológico. Cada animal foi escolhido e comprado pelo próprio bandido.

Entre eles, quatro hipopótamos trazidos de um zoológico da Califórnia.

Hoje, a comunidade que vive na região da propriedade desativada, no departamento de Antioquia, convive com um estranho, ameaçador e curioso problema. Os quatro hipopótamos se reproduziram, e, rapidamente, viraram nada menos que 35, a maior concentração dessa espécie fora da África.

A população local se divide entre as reações. Há quem se assuste quando, à noite, alguns fogem da área cercada que as autoridades regionais levantaram para impedir que se espalhem. Outros gostam de sua presença, acham que os bichos agora fazem parte da paisagem local e são contra transferi-los e, muito menos, executá-los, ainda que especialistas chamados a ver o problema tenham avaliado que, ali, como estão vivendo, representem um perigo, por se tratar de um animal que pode ser violento e atacar seres humanos. Além disso, a vida média desses animais é de 60 anos e a capacidade de reprodução, muito alta. Logo, as cercas não darão conta da população de hipos colombianos, que encontram na amena região condições propícias para uma vida longa e saudável.

Com isso, Doradal, a cidadezinha mais próxima à Hacienda Nápoles, a 190km de Medellín, vai entrando, de forma indesejada pelas autoridades, entre os destinos de alguns turistas que visitam a Colômbia. Enquanto há um esforço nacional de parte da sociedade para apagar a passagem de Escobar por alguns pontos do país, convencer parte dos que ainda o admiram a tirar seu retrato das paredes e impedir que sua tumba seja local de peregrinação, os hipopótamos surgem para confundir a todos, porque lembra o carisma do líder criminoso que, localmente, ainda é para muitos um herói, apesar das monstruosidades e da quantidades de mortos pelos quais foi responsável.

O grande gênio do jornalismo colombiano, Gabriel García Márquez (1927-2014), infelizmente não viveu para ir até lá e escrever a crônica sobre a origem e a reprodução desses hipopótamos nascidos no coração de uma Colômbia em guerra. Ainda assim, estranhamente, esse enredo parece saído de sua imaginação e das páginas de seus livros.