Paz com as Farc é histórica, mas só funcionará se houver plano para o resto do país

Por Sylvia Colombo
Guerrilheiros do ELN, ainda em atividade na Colômbia (Foto El Espectador)
Guerrilheiros do ELN, ainda em atividade na Colômbia (Foto El Espectador)

Apesar de dizer que “nada está acordado até que tudo esteja acordado”, Juan Manuel Santos já foi mais longe do que qualquer presidente colombiano antes dele em termos de chegar próximo a um acordo de paz com as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). Se de fato ambos os lados assinarem o tratado que vêm negociando há mais de três anos, cuja previsão é final de julho, e o mesmo for referendado pelo povo colombiano, o que deve ocorrer entre setembro ou outubro, será o fim de uma guerra que já dura mais de 50 anos e deixou 250 mil mortos, além das 8 milhões de pessoas que tiveram de abandonar suas casas, em áreas de conflito, e hoje vivem em péssimas condições nas periferias das grandes cidades. Será um feito e tanto que inscreverá Santos como um herói nos livros de história da região.

Mas… tão urgente quanto é finalizar esse acordo, é também negociar com outras milícias e finalizar outros conflitos hoje ainda em atividade no mapa colombiano. Obviamente que as Farc eram a maior ameaça ao país, com seus mais de 9 mil membros e espalhados por zonas estratégicas do território. Porém ELN (Ejército de Liberación Nacional), Oficina de Envigado, Aguilas Negras, Urabeños e ex-AUC são apenas alguns dos grupos armados que operam em distintas regiões, mesclando atividades de narcotráfico, exploração ilegal de minas e extorsão de populações locais. Todos em áreas às quais o Estado falha em chegar.

O ELN, de cara, é o desafio mais premente. Com seus cerca de 3 mil soldados, são um grupo mais engajado do que as Farc. Enquanto as Farc nasceram com a preocupação inicial de reivindicar uma reforma agrária, o ELN se comprometeram desde o princípio com a defesa de bandeiras ideológicas. O que defendem é uma mistura de comunismo com princípios da teologia da libertação. Se as Farc se desideologizaram quase que completamente, transformando-se basicamente num bando de criminosos, o ELN segue com um projeto político muito claro. E já há dissidentes das Farc, aqueles que não aceitam o acordo com o governo, que se estão juntando ao ELN.

Sabendo disso, Santos já está em conversas com os líderes dessa força, e a ideia é que as negociações comecem logo. O ELN, porém, colocou pré-requisitos desafiadores ao governo colombiano, entre eles a ideia de que as tratativas devem ser mais transparentes e ocorrer em solo colombiano, diferentemente do que ocorreu com as Farc, cujo acerto vem sendo feito em Havana. A garantia de participação política como força organizada, após um provável tratado, também é condição da qual o ELN não abre mão. Se já é difícil convencer os colombianos de que as Farc poderão disputar eleições, mais complicado será dizer que o mesmo tratamento será dado ao ELN.

Um dos temas desafiadores, ao qual o governo não deu uma resposta completa ainda, é a tal “garantia de segurança” aos ex-guerrilheiros das Farc. Na última quinta, foi anunciado que, assim que o cessar-fogo for declarado, os rebeldes deverão ir até as 23 zonas de segurança estabelecidas pelo acordo, onde não poderão ser presos nem atacados e onde aguardarão julgamento e reintegração à vida civil. Nesse processo, ocorrerá, em três fases, a entrega das armas da ex-guerrilha, sob supervisão da ONU e que serão destruídas. Porém, o problema que se cria aqui não é pequeno e preocupa demais os ex-guerrilheiros. Como garantir que aqueles que foram seus inimigos até ontem: ex-paramilitares, latifundiários, outros cartéis e bandos, não venham atrás deles? Como irão defender-se, caso isso aconteça, se não tiverem armas? O Exército, que até ontem os combatia, terá de oferecer-lhes segurança? Este é o principal assunto na mesa de Havana nas próximas semanas. Enquanto isso, Santos tem de convencer colombianos que não entendem porque ex-criminosos merecem proteção especial que cidadãos comuns não têm. De seu lado, o ex-presidente Álvaro Uribe dirá que isso é um absurdo e uma entrega do país nas mãos do crime organizado.

Por último, Santos sabe que precisa se envolver mais com relação à situação na Venezuela. Não apenas porque este país é seu principal vizinho e parceiro comercial, mas também porque é na Venezuela que guerrilheiros tanto das Farc como do ELN buscam refúgio em tempos de tormenta. Uma Venezuela em destroços, como vemos desenhar-se no cenário, será território livre para a reorganização de grupos armados. Não foi para fazer quórum que Juan Manuel Santos chamou o desacreditado Nicolás Maduro para a reunião em Havana na semana passada. Seu gesto foi lido por analistas como um apoio ao líder do país vizinho e uma espécie de apresentação de um acordo: “você me ajuda a controlar a guerrilha e eu não apoio a OEA contra sua gestão”.

Como se vê, há muita coisa em movimento em torno do acordo. Se este for mesmo assinado e referendado, será algo histórico para a América Latina e poderá, como disse o secretário-geral da ONU Ban ki-moon, estimular outros conflitos a serem resolvidos via negociações pacíficas e não por meio da violência. Porém, o tabuleiro que Santos tem diante de si agora não é simples. E não ajuda em nada o fato de sua popularidade estar na casa dos 20%.

Ao Brasil e à região, o melhor a fazer é torcer por ele e pelo sucesso deste acordo. A ninguém interessa uma guerra civil ainda em andamento dentro da América Latina.