Por que presidentes peruanos são tão impopulares?

Por Sylvia Colombo
Alejandro Toledo, Ollanta Humala e Alan García (Fotos Reuters)
Alejandro Toledo, Ollanta Humala e Alan García (Fotos Reuters)

O fato de a eleição peruana estar ainda sem definição, de o voto ser tão volátil e que, mesmo sem o resultado definido, a vida tenha voltado ao normal tão rápido para os peruanos como se não fizesse diferença quem é o ocupante da Casa de Pizarro leva a crer que o próximo eleito não terá um destino diferente de seus antecessores.

Muito provavelmente sairá do cargo, espera-se que ao fim de seu mandato, pouco popular, e não irá, como seus antecessores, “virar uma estátua”. Sobre essa “excepcionalidade peruana” escrevi hoje na Folha Mundo. Reproduzo aqui o texto, que fica mais atual enquanto essa estranha eleição segue em aberto.

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Analistas ouvidos pela Folha apontam para questões institucionais e históricas para explicar a tradicional baixa popularidade com a qual a maioria dos governantes peruanos deixa a cadeira da Presidência.

Com Ollanta Humala, cujo mandato termina em julho, não será diferente. Segundo a mais recente pesquisa Ipsos, o mandatário sairá da Casa de Pizarro (o palácio presidencial) com apenas 17% de aprovação popular, mesmo com a economia em bom estado (previsão de quase 4% de crescimento em 2016).

“O Peru é de uma debilidade institucional muito grande. É uma herança do fujimorismo. Até hoje o país não recuperou o funcionamento normal da Justiça e de outros órgãos”, afirma Steven Levitsky, especialista em Peru da Universidade Harvard.

“Os presidentes logo se encontram sozinhos porque os partidos não são fortes, e o apoio do Congresso é fluido.”

Para Levitsky, “o fato de não haver reeleição também parece causar um desânimo no mandatário quando as coisas começam a não ir bem, e isso é percebido pela população”. No Peru, é permitido um segundo mandato, mas não de forma consecutiva.

Já o pesquisador e escritor Gustavo Gorriti crê que o peruano é muito sensível a promessas não cumpridas.

“A diferença entre o que se promete na campanha e o que de fato os presidentes conseguem fazer destrói a aprovação dos presidentes.”

Até aí, não parece ser uma frustação exclusiva do Peru na América Latina, mas há quem identifique particularidades na nação andina. “Nos anos 1980 tínhamos um Estado gigantesco e inoperante. Nos anos do fujimorismo, o Estado encolheu, hoje é o menor da Aliança do Pacífico e um dos menores da América Latina. Portanto, quem se elege tem pouquíssimos recursos para chegar ao país todo e entregar o que prometeu”, diz o editor da revista “Poder”, David Rivera.

“Isso num país com tanta desigualdade e carências em regiões distantes é um problema. Dilapidamos tanto o Estado, que o presidente é uma figura mais impotente aqui que em outros lugares da região”, afirma Rivera.

Para Alberto Vergara, também da Universidade Harvard, a desfiguração dos partidos tradicionais após a ditadura “impediu que se reconstruíssem canais entre a população e os governantes.”

O fato de ter sido sede de um dos mais poderosos vice-reinados espanhóis nas Américas é também apontado como um dos motivos pelos quais há uma relação peculiar entre peruanos e poder.

“Esse passado cortesão, uma sociedade fundada sobre uma máquina burocrática, autoritária e conservadora, criou também uma relação de amor e ódio ao poder”, diz Gorriti.

“Nunca adoramos líderes como em outros lugares na América Latina. Não temos figuras magnânimas. Esse país viu apenas um funeral apoteótico testemunhado por uma multidão, que foi o do general Velasco Alvarado [ditador militar de esquerda], em 1977. Mas só ele”, afirma o pesquisador Gorriti.

“Compare com os argentinos, por exemplo. Passando por [Juan Domingo] Perón (1895-1974) e [Raúl] Alfonsín (1927-2009), realizaram funerais pomposos sempre seguidos por muitos. Não transformamos ninguém em estátua desse jeito.”