Cizânia entre irmãos ameaça fujimorismo

Por Sylvia Colombo
Os irmãos Keiko e Kenji Fujimori (Foto El Comércio)
Os irmãos Keiko e Kenji Fujimori, filhos do ex-ditador Alberto Fujimori (Foto El Comércio)

Há quem compare, no Peru, os recentes desentendimentos entre os filhos do ex-ditador Alberto Fujimori (1990-2000) a uma trama digna da série “Game of Thrones”. Dois irmãos, marcados pela herança maldita, mas poderosa, deixada pelo pai, tentam levar o clã de volta ao trono, mas discordam dos meios e do que fazer com o mesmo, caso o fujimorismo volte a ocupa-lo.

Esta é a segunda vez que Keiko, 40, concorre à Presidência. Ex-primeira-dama do país após o divórcio dos pais, formada nos EUA e, até hoje, uma filha obediente, Keiko postulou-se em 2011 com um perfil muito mais “low profile”.

Discreta e “recatada” (para usar termo da moda), falou apenas em nome daqueles ainda fiéis ao fujimorismo _certo setor do empresariado que muito lucrou com as privatizações dos anos 1990 e boa parte da população andina e indígena, antes marginalizada pelos políticos tradicionais da elite limenha. Não foi suficiente.

Comandando uma aliança mais ampla, da esquerda à direita, o ex-nacionalista esquerdista Ollanta Humala venceu-a no segundo turno, ainda que por uma diferença bastante apertada.

Agora, Keiko adotou outra estratégia, de olho nos votos além dos 30% que lhe garante o “fujimorismo duro”. Pela primeira vez, trouxe à tona temas de direitos humanos, questões de gênero e o “assunto-tabu” corrupção. Não falou pontualmente dos envolvimentos do pai em todos esses temas _dos desvios de dinheiro em esquema com o ex-chefe de inteligência Vladimiro Montesinos, nem das desaparições de opositores ou da política de esterilizações forçadas de que foram vítimas mais de 250 mil mulheres no interior do país. Mas se mostrou a favor de julgamentos e punições, e de estimular leis de proteção à mulher.

Deu certo, e sua votação no primeiro turno acabou sendo melhor do que a esperada, com 39,85% dos votos. Keiko conseguiu, também, reduzir a rejeição à sua candidatura, antes de 52%, agora de 48% _embora o número siga sendo muito alto para quem quer de fato vencer a eleição.

Quem não parece ter gostado da “nova Keiko”, mais sorridente e falante, mais expressiva e compreensiva, mais aberta ao diálogo e menos, enfim, “recatada”, foram, quem diria (ou não), seus próprios familiares.

Da cadeia, onde cumpre pena de 25 anos por corrupção e crimes contra a humanidade, o ex-ditador fez recriminações à filha. Alberto não gostou nada do fato de Keiko ter afastado, da liderança de sua campanha, velhos nomes do fujimorismo que faziam parte de seu governo. Recriminou-a por não agir de forma mais “discreta” em suas aparições e pela ampliação das bandeiras que vinha defendendo o fujimorismo clássico. A antiga filha obediente e ex-primeira dama começava a dar seus passos de forma independente.

Keiko Fujimori como primeira-dama do Peru, cargo que assumiu ainda com 18 anos (Foto Arquivo)
Como primeira-dama do Peru, ao lado do pai presidente, Keiko assumiu o posto aos 18 anos (Foto Arquivo)

Com o ditador preso e de mãos (aparentemente) atadas, coube a seu filho mais novo, Kenji, 35, emitir as reprimendas mais contundentes à irmã. Pela segunda vez candidato mais votado ao Congresso peruano, Kenji está longe de ser um principiante em política e demonstra desenvoltura junto aos apoiadores do fujimorismo.

Pude observar isso no dia da votação do primeiro turno, no último dia 10, quando Kenji chegou primeiro ao “bunker” de Keiko, após fechadas as urnas, para organizar o palco para a aparição da irmã. Determinado e eficiente, Kenji dava ordens, declarações firmes à imprensa, enquanto atendia com ar carinhoso aos populares que haviam comparecido para saudar os dois irmãos. “Kenji! Kenji!” gritavam os apoiadores. Parecia, na ocasião, ser um fiel participante da campanha da irmã.

Na semana passada, porém, Kenji começou a colocar as asinhas de fora.

Em desastrosas declarações à imprensa chilena, que depois afirmou estarem fora de contexto, Kenji disse que poderia ser o próximo candidato da família em 2021, com ou sem uma vitória de Keiko neste ano. Ao tentar consertar o desconforto criado por meio de sua conta de Twitter, Kenji apenas piorou a situação, dizendo que “apenas” se postularia na próxima eleição no caso de nova derrota da irmã mais velha.

A mensagem foi interpretada como quem assume que a chapa vá fracassar novamente, e que por meio dela Kenji admitia, por antecedência, que a irmã de fato não tem talento nem habilidade para ganhar uma eleição. Nesse cenário, ele, sim, seria a solução.

Keiko reagiu com vigor. “Ninguém pode se candidatar cinco anos antes. Não há espaço para posições personalistas nesse partido. Quem pretende ficar na aliança tem de entender isso.”

Kenji continuou tuitando, dessa vez demonstrando amplo apoio à irmã e tentando voltar às boas com ela. Mas o estrago já estava feito. A fricção entre os Fujimori ganhou as primeiras páginas dos jornais e a boca do povo. Não sem explicação, os primeiros números relacionados ao “balotaje”, que ocorre no próximo dia 5 de junho, já colocam ao economista Pedro Pablo Kuczynski, segundo colocado no primeiro turno, adiante de Keiko.

Segundo os números do instituto Ipsos, a fujimorista não conseguiu, ainda, aumentar sua votação e segue com 39% das intenções de voto, enquanto que Kuczynski, num trabalho incansável de reunir a oposição da esquerda à direita, já desponta com 43%.

Há, ainda, mais de um mês para o segundo turno. A campanha, que andava meio morta e de ressaca da primeira votação, de repente se incendeia novamente.

Agora, surgem esses dois fatos novos: a cisão entre os irmãos fujimori e a arrancada de PPK (Pedro Pablo Kuczynski), dando nova cor à disputa. Parece que a corrida pelo segundo turno, de fato, começou.