A obra póstuma de Eduardo Galeano

Por Sylvia Colombo
Uruguayan writer Eduardo Galeano gestures at his favorite pub "Cafe Brasilero" in Montevideo, in this October 25, 2002 file picture. Galeano, a Uruguayan journalist and author who was a leading light in Latin America's anti-capitalist movement, died after a battle with lung cancer on April 13, 2015, his publisher said. He was 74. REUTERS/Andres Stapff/Files
O escritor uruguaio Eduardo Galeano no café Brasileiro, em Montevidéu (Foto Reuters)

 

O primeiro aniversário da morte do escritor uruguaio Eduardo Galeano (1940-2015) está sendo lembrado na Feria Internacional del Libro de Buenos Aires, que ocorre na capital argentina até o próximo dia 9 de maio. O principal evento é o lançamento de “El Cazador de Histórias”, livro no qual vinha trabalhando ao adoecer (tinha câncer de pulmão), e que sai agora pela Siglo 21, em espanhol. Seus editores na Argentina reforçam que não se trata de uma obra póstuma amarrada com coisas deixadas à solta pelo escritor, e sim que ele planejava lançar “El Cazador de Histórias” assim como chega às livrarias: uma coletânea de quase 250 textos que misturam poesia, autobiografia, ficção e reflexões sobre a morte. 

Em menos de uma semana, a obra atingiu o topo do ranking de livros de não-ficção, na Espanha.

Para Román Cortázar Aranda, pesquisador mexicano e amigo pessoal de Galeano, o primeiro ano de seu falecimento, porém, ainda não trouxe uma boa discussão sobre seu legado. “Pouco se publicou, mas Galeano tem estado na boca do povo e na sua memória”, diz o estudioso, que trabalha numa biografia literária do autor de “As Veias Abertas da América Latina”, em entrevista à Folha.

Para Aranda, até hoje o uruguaio tem sido celebrado como jornalista e historiador de referência da esquerda do continente, mas quando se fala de sua literatura, ainda há muita resistência em reconhecê-lo. “Na sequência se percebem silêncios incômodos, algumas pessoas torcem a boa. Creio que se trata da estreiteza e das doutrinas estético-políticas do elitizado mundo ilustrado de hoje.” Essa resistência, prossegue, não existia na época em que o escritor despontou, “nem Mario Benedetti nem Ángel Rama titubearam ao julgar sua literatura, a atitude da crítica foi que mudou com o tempo”, completa.

Para Aranda, ainda, é necessário recolocar em contexto as afirmações que Galeano fez sobre “Veias Abertas” nos últimos tempos, quando afirmou que não havia estudado economia o suficiente para elaborar seu livro, que tem muito de libelo político de esquerda. O mexicano afirma que não se levou em conta sua “paixão absurda pelo paradoxo, seu humor e ironia” e que Galeano não renegava a obra à qual dedicara mais de quatro anos de estudo, mas sim que a considerava “superada”. “Galeano tinha fé e não lhe faltava razão. A América Latina seguia sendo, para ele, uma chave para abrir outro mundo possível.”

Abaixo, o spot publicitário da obra póstuma do escritor, ainda inédita no Brasil.