Um depoimento angustiado e ilustrações de Bonil sobre o terremoto no Equador

Por Sylvia Colombo
Ilustração do cartunista Bonil (Divulgação)
Ilustração do cartunista Bonil (Divulgação)

 

O forte terremoto que deixou quase 500 mortos no Equador desde o último fim de semana tem causado uma onda de solidariedade entre cidadãos das regiões afetadas e uma espécie de “pacto político”, em que poucos têm trazido à tona a polarização em torno do presidente Rafael Correa, uma vez que a tragédia humanitária parece se impor às divisões do dia-a-dia. Essa é a opinião da jornalista e escritora Sabrina Duque, cuja mãe mora no epicentro do terremoto e vive com aflição esses dias. Segue, abaixo, uma pequena entrevista que fiz com ela hoje.
As ilustrações são do querido amigo e grande cartunista Bonil, um herói da resistência no enfrentamento entre os meios de comunicação e Rafael Correa, mas que também se mobilizou para retratar e refletir sobre a tragédia. Bonil tem um tio que vive numa das zonas afetadas, se salvou por um milagre, mas está dormindo numa quadra de futebol, debaixo de uma lona.
Segue a entrevista com Duque.
Folha – Os equatorianos convivem com sismos e erupções de vulcões historicamente. Mas, obviamente, cada tragédia é única em sua dor e no luto que provoca. Como você define a relação que os equatorianos têm com esse tipo de catástrofe, se comparado a outros países da região?
Sabrina Duque – Este foi o terremoto mais sério sofrido pelo Equador em sua história recente. Em 1987, houve dois num mesmo dia, um de 6,1 e outro de 6,9. Foi um golpe duríssimo para a economia, porque rompeu um oleoduto e houve mais de mil mortos, não pelo terremoto em si, mas pelos desabamentos posteriores. Foi na serra, numa zona montanhosa.
Desta vez, foi um terremoto de 7,8 graus, em uma zona da costa, entre duas das províncias mais pobres do país. Ainda não se sabe o número de mortos total, estão por volta dos 350, mas são muitas as zonas às quais não chegou ainda a ajuda oficial.
A relação que os equatorianos têm com esse tipo de catástrofe é a mesma que têm os peruanos ou os colombianos. É um país consciente do perigo que está aí, adormecido, mas não possui a prática do Chile, por exemplo, que está em uma zona mais instável e as campanhas de informação e as simulações são um exercício permanente.
No Equador, por exemplo, ainda muitas pessoas se escondem sob as mesas, quando a informação mais recente diz que é preciso se colocar junto a um móvel, para estar em um triângulo de proteção, caso o teto caia.
Folha – Como está sendo a solidariedade entre a população nesse momento?
Duque – Comovedora. Os supermercados estão ficando vazios porque as pessoas estão indo comprar para fazer doações, muitos voluntários trabalham em turnos para que o fluxo de ajuda não se detenha, circula uma longa lista de conselhos sobre como ajudar e muita gente se inscrevendo nas brigadas que vão atuar nos pontos mais críticos.
Folha –  Que impacto acredita que essa tragédia terá na popularidade do presidente Rafael Correa, neste trecho final de seu mandato? Como se reagiu ao fato de que estava na Europa quando ocorreu a tragédia? Sua resposta parece satisfatória?
Duque – Por enquanto, não está muito claro. No Equador, onde havia muita divisão com relação à política, hoje parece existir uma espécie de pacto. Não se fala de política. Quem quiser trazer o tema à tona é recebido com repúdio. Me parece que as pessoas entendem que esse não é o momento de falar de um tema que divide, e sim é preciso unir-se para ajudar as vítimas.
O fato de que Correa estivesse na Europa não importa muito em termos de liderança, pois o vice-presidente assumiu o operativo nacional.
Uma importante figura da oposição, o prefeito de Guayaquil, Jaime Nebot, também estava na Europa e se manteve em comunicação por meio das redes sociais para organizar a revisão das estruturas na cidade e para empreender uma campanha de ajuda à província de Manabí.
A resposta do governo central não parece muito satisfatória a um grande grupo de pessoas, que reagem nas redes sociais. Em Manabí há lugares como Jama ou Canoa onde a ajuda oficial não chegou ainda, apenas voluntários independentes, que encontraram cadáveres amontoando-se nas ruas, pessoas presas e gritando de debaixo dos escombros e nenhum tipo de infra-estrutura médica.
Ainda assim, não se fazem críticas explícitas a Correa _como seria comum num caso não tão trágico.
Ilustração do cartunista Bonil (Divulgação)
Ilustração do cartunista Bonil (Divulgação)
Folha – Entre os aspectos elogiados de seu governo, está o de ter tirado muitos equatorianos da pobreza, por meio de programas sociais. Você acha que o Equador de hoje está mais preparado para enfrentar esse tipo de tragédia do que há 20 anos? A população mais humilde tem mais recursos para sobreviver a esse tipo de coisa do que antes?
Duque – Não creio que o Equador de hoje esteja mais preparado para esse tipo de tragédia. Como o Peru não estava em 2007. São tragédias em suspenso que, às vezes, terminam esquecidas.
Talvez o Equador esteja melhor preparado para enfrentar uma erupção vulcânica, há campanhas, experiência, simulações. Mas um terremoto dessa magnitude não estava na agenda. A única cidade que havia feito simulações para terremoto recentemente havia sido Guayaquil, mas como parte de uma estratégia local.
Com um terremoto assim, as estradas ficam destruídas, não há suficientes pessoas preparadas para realizar resgates e tirar gente de debaixo de escombros -apenas os bombeiros de duas cidades têm esse tipo de experiência.
Por isso têm sido benvindas as brigadas internacionais com esse tipo de profissionais. A população mais humilde não tem mais recursos para sobreviver a algo assim. Se a casa cai, como ocorreu com 80% das casas de Pedernales, não há programa de distribuição de renda que possa te ajudar nesse momento.
Folha – A tragédia afetou a região onde você nasceu? Como a descreve, pessoalmente?
Duque – Eu nasci em Guayaquil, onde caiu um viaduto e uma casa. Houve um morto e seis feridos. O saldo é baixo quando comparado com o que aconteceu em Manabí. Mas Manabí está na minha memória emocional porque minha mãe mora lá, já há oito anos, e onde estão meus tios e primos.
Vejo as fotos dos edifícios que desabaram no centro de Portoviejo, a capital, onde minha mãe mora, e reconheço lugares que frequentava. Caíram casas que pertenciam aos irmãos da minha avó. Eu tenho uma amiga cujo prima ainda está presa sob os escombros do edifício. É possível ouvi-la, mas como não há equipes de resgate, não se pode fazer nada mais por ela. E essa pessoa está em Manta, uma importante cidade de Manabí, onde a ajuda veio primeiro.
Isso me encheu de tristeza. Não consigo encontrar palavras para explicar o choque que levei ao saber que o epicentro do terremoto é tão perto de onde minha mãe mora.
A angústia de cada toque de seu telefone, com os dedos cruzados para que ele respondesse. O frio nos dedos e na espinha, por conta de seu atraso em atender. E o alívio de ouvi-la entre chorosa e meio adormecida, uma vez que demorei a saber, porque vivo em outro país.
Só de saber que ela ainda estava viva, numa cidade que ainda não sabe quantos mortos têm, e que ainda tem um teto sobre sua cabeça, me deu uma tranquilidade enorme.
Mas não deixo de pensar em todos os amigos e conhecidos que perderam tudo, que perderam pais, irmãos, filhos, que ficaram sozinhos no mundo ou que perderam a casa ou o local de trabalho.
A tragédia foi muito dura com muita gente.
Ilustração do cartunista Bonil (Foto Divulgação)
Ilustração do cartunista Bonil (Foto Divulgação)