Enquanto isso, na Argentina, Darín encarna piloto dos “voos da morte”

Por Sylvia Colombo
Ricardo Darín em cena de "Kóblic" (Foto Divulgação)
Ricardo Darín em cena de “Kóblic” (Foto Divulgação)

Só agora o filme “Truman”, sobre o qual escrevi nesta quarta (13) na Ilustrada, entra em cartaz no Brasil, após ser sucesso de bilheteria na Argentina, nos países de língua hispânica, de ganhar o festival de San Sebastian e de levar cinco estatuetas Goya. OK, antes tarde do que nunca.

Mas, como tem feito nos últimos anos, Ricardo Darín não para. E justamente nesta semana entra em cartaz na Argentina a película “Kóblic”, do diretor Sebastián Borensztein, com quem o estrelado ator argentino já trabalhou em “Un Cuento Chino”. Se “Truman” é para rir, chorar e se enternecer, “Kóblic” tem outra pegada. É um drama baseado numa tragédia real, que teve lugar nos anos de chumbo da última ditadura argentina (1976-1983).

Desta vez, Darín vive um piloto militar chamado Tomás Kóblic, designado para um terrível missão _desaparecer com os prisioneiros políticos do regime. Uma das inventivas e cruéis maneiras que os repressores engendraram na época para não deixar rastro dos inimigos era leva-los amarrados e sedados, mas ainda vivos, para um sobrevoo do Rio da Prata. Ali, em diferentes pontos, eram jogados, com pesos amarrados aos pés. Por que ainda vivos? Não só para aumentar o terror e exalar crueldade, mas porque, se afundassem assim, não boiariam rapidamente como cadáveres. Engoliriam água e, ajudados pelo peso nos pés, iriam para o fundo do rio mais rápido.

A história dos voos da morte é mais um capítulo monstruoso da fatídica ditadura, e sua trama completa só foi descoberta muito tempo depois. Apesar de os primeiros restos decompostos de seres humanos terem começado a surgir nas costas uruguaias já em 1976, as investigações foram acobertadas na época, até porque o Uruguai, também uma ditadura, era parte da chamada Operação Condor, em que as forças militares dos países do Cone Sul atuavam em conjunto e compartilhavam inteligência. Um dos casos mais horripilantes de desaparições via voos da morte, logo no começo do regime, foi o das mães de desaparecidos e manifestantes por direitos humanos que se reuniam na Iglesia de la Santa Cruz, em 1977, para discutir o que fazer para reencontrar seus seres queridos. Pois o grupo foi infiltrado por repressores, depois sequestrado. Após torturas na Esma, essas mães de desaparecidos também foram jogadas no fundo do rio.

Um pequeno bom documentário sobre o tema foi feito por Ippolito Simion e Giancarlo Ceraudo, com colaboração de pilotos e vítimas da Esma, pode ser visto aqui:

Foi apenas em 1995, que um ex-repressor da Escola Mecânica da Marinha, principal centro de detenção clandestino da ditadura, Adolfo Scilingo, contou a história dos voos e detalhou as operações ao então jornalista Horacio Verbitsky _recentemente colaborador assíduo do governo Cristina Kirchner. Verbitsky publicou o relato com uma longa investigação no livro “El Vuelo”. Ali, conta que os voos se faziam na calada da noite, e saíam do aeroporto da cidade de Buenos Aires, o Aeroparque, onde hoje tantos turistas chegam e vão desavisados de seu passado sombrio. Segundo o levantamento de Verbitsky, mais de 4.500 pessoas foram mortas dessa maneira. Um trabalho sistemático de equipes de busca e da Equipe Argentina de Antropologia Forense já recuperou muitos desses desaparecidos. Mas há muito por fazer.

Scilingo está hoje preso na Espanha, mas vários repressores envolvidos na operação esperam sentença num julgamento que já está em sua fase final _que é o processo chamado de “mega causa Esma”, possibilitada pela reabertura dos julgamentos dos crimes da ditadura iniciada nos últimos anos.

Voltando a “Kóblic”, o filme não encara a questão frontalmente. O personagem de Darín é, justamente, um piloto que não se conforma com o que está fazendo e resolve abandonar a missão. Trata-se de um personagem de ficção, mas que levanta questões de consciência que alguns repressores depois revelariam, em distintos graus, em relatos e confissões. Kóblic decide ir para uma pequena cidade, a Colonia Elena, e aí tentar viver meio escondido até que a situação geral do país mude. Obviamente, a coisa não se revela tão simples, e é quando entra em cena outro grande ator argentino em atividade nos dias de hoje, Oscar Martínez _que está em “Relatos Selvagens” e “La Patota”, entre outros.

Neste ano em que a Argentina relembra os 40 anos do golpe militar e em que vários julgamentos de crimes daquela época chegam ao fim, inclusive o que se refere aos voos da morte, um filme como “Kóblic” coloca algumas questões essenciais sobre como lidar com a memória daquela época e suas sequelas na sociedade.