O hacker que abala eleições na América Latina

Por Sylvia Colombo
O hacker Andrés Sepúlveda, após ser preso, em Bogotá (Foto El Espectador)
O hacker Andrés Sepúlveda, após ser preso, em Bogotá (Foto Cristian Garavito/El Espectador)

Quando cheguei à Colômbia para cobrir as eleições de 2014, havia acabado de começar a chamada “guerra suja” entre uribistas e anti-uribistas. A escolha que os colombianos tinham de fazer era entre o então presidente Juan Manuel Santos (ex-aliado de Álvaro Uribe), que encabeçava as negociações de paz com as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), e a cria do caudilho direitista, Óscar Iván Zuluaga. Este, transformado pelo publicitário brasileiro Duda Mendonça numa espécie de Zorro, que enterraria o acordo de paz e partiria com tudo para cima da guerrilha, vinha disposto a destruir a imagem de Santos. Disputada voto a voto, a eleição foi ficando cada vez mais aguerrida e o nível das acusações de lado a lado, iam afundando no lodo.

O ponto mais emblemático da baixaria generalizada foi quando a revista “Semana” lançou um vídeo (abaixo) que mostrava Zuluaga conversando com o sujeito aí da foto acima. Era uma conversa gravada de modo escondido, e que mostrava uma armação tão suja e desleal que deixou os colombianos estupefactos. Basicamente, mostrava o candidato preferido de Uribe recebendo um relatório oral de Sepúlveda sobre quais informações sigilosas do Exército e do governo colombianos ele havia conseguido roubar, e que incluíam perfis de mais de 100 integrantes da guerrilha, quem eram os negociadores (até então secretos) por parte das Farc, onde estavam escondidos seus líderes, e quais seriam as ações das Forças Armadas e da guerrilha, além de resumir esse pacote como uma espécie de “arma secreta” para jogar contra a campanha de Santos para derrota-lo de vez no segundo turno.

Sepúlveda, hoje com 31 anos, não apenas havia roubados as informações como tinha numerosos perfis atuando nas redes sociais para multiplicar o efeito de suas “notícias” e sentir as reações do eleitorado. Um verdadeiro manipulador criminoso das novas tecnologias.

Obviamente, nem todos o viam do mesmo jeito. Os partidários de Santos achavam que Sepúlveda era um terrorista, comprometendo a segurança nacional, além de um mercenário, ameaçando jogar o acordo de paz na lata do lixo apenas para receber em troca um vultoso pagamento da campanha de Zuluaga. Já outra parte da sociedade, a que votou no candidato de Uribe, deu-lhe a vitória no primeiro turno e quase o transforma em presidente da Colômbia, na verdade via em Sepúlveda um super-herói moderno, um cyber-justiceiro desvelando planos do governo colombiano de “entregar o país às Farc”.

E foi assim que, de repente, todos os outros temas da campanha, os debates entre os candidatos, a cobertura da eleição na TV foram sequestrados pela figura onipresente de Andrés Sepúlveda _transformando-o em elemento definidor da eleição. A defesa de Zuluaga saiu-se com uma estapafúrdia alegação de que o vídeo tinha sido editado, e até chegou a colocar em dúvida que fosse o próprio Zuluaga no vídeo, algo completamente descartado tanto pelos leigos como pelos peritos.

Em entrevista que fiz com o candidato, em Bogotá, poucos dias depois do escândalo (http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2014/05/1457397-negociacao-de-paz-com-as-farc-vai-por-caminho-errado-diz-candidato-colombiano.shtml), Zuluaga dizia que Sepúlveda nada mais era que um consultor informático e que a gravação não passava de uma montagem.

As notícias divulgadas nos últimos dias, porém, indicam que esse episódio foi apenas um infortúnio na vida do hacker. Se a eleição colombiana de 2014 para ele terminou em derrota, e em cadeia, o mesmo não ocorreu em muitas outras ocasiões. Na verdade, segundo a entrevista bombástica que deu à Bloomberg Businessweek, da prisão, Sepúlveda se meteu em diversas eleições na América Latina, e coleciona “vitórias” que seguramente encheram seus bolsos. À publicação, o hacker diz ter trabalhado para candidatos na Venezuela, na Nicarágua, no Panamá, em Honduras, em El Salvador, na Costa Rica , na Guatemala, e, finalmente, no México.

Seus serviços iam de pequenas intervenções a imensas campanhas virtuais para promover ou desmoralizar um candidato. Conta que começou em 2005, com políticos de menor porte, até seu serviço começar a ser requisitado por peixes grandes. Seu cardápio oferecia pacotes básicos, a US$ 12 mil, que incluíam hackear celulares ou clonar páginas, aos pacotes “premium”, que ofereciam interceptação digital, decodificação de códigos de defesa de e-mails e armação de verdadeiros exércitos de centenas de perfis falsos no Twitter e no Facebook criados para fomentar e turbinar discussões segundo o gosto e as necessidades do cliente.

 

A revelação mais bombástica que fez à revista foi haver realizado, com um orçamento de US$ 600 mil, uma campanha para ajudar a eleição de Enrique Peña Nieto, em 2012, desacreditando seus opositores e colocando em discussão nas redes os pontos da agenda que o candidato elegeu como prioritários. O governo mexicano negou veementemente a acusação. Porém, durante esta sexta (1), políticos de oposição e as redes sociais só fizeram reverberar a especulação de que Peña Nieto tenha contratado os serviços de Sepúlveda. E a notícia chega justo num momento em que “Peña” (como é chamado pelos mexicanos) enfrenta uma crise de queda de popularidade.

A reportagem conta que Sepúlveda dizia atuar e movimentar-se sozinho. Não recebia chamadas nem e-mails pessoais. Recebia as missões em pedaços de papel, que depois destruía. E que, após um serviço realizado, destruía os computadores e telefones utilizados, fritava seus circuitos internos e depois quebrava os destroços com um martelo.

 

Muito ainda será investigado e repercutido sobre suas declarações. Até separar as verdades das mentiras, a novela, e o mito em torno de Sepúlveda seguirá.

O que fica para reflexão, seguramente, são algumas de suas frases sobre o poder da internet. Diz Sepúlveda: “Quando me dei conta de que as pessoas acreditam mais do que leem na internet do que o que veem na realidade, descobri que tinha poder para fazer com que acreditassem em quase tudo”.