Questão Malvinas tem novo capítulo, e exige entrada de Macri no debate

Por Sylvia Colombo
Crianças celebram vitória no referendo das ilhas, em 2013 (Foto Sylvia Colombo)
Crianças celebram vitória no referendo, em 2013 (Foto Sylvia Colombo)

Eis que a intrincada, e às vezes sangrenta, novela sobre a quem pertencem as ilhas chamadas de Malvinas, pelos argentinos, e de Falklands, pelos ingleses, volta a ter um novo capítulo. Nesta semana, uma comissão das Nações Unidas determinou que o arquipélago, de fato, deve ser localizado como dentro do território marítimo argentino. Na verdade, a “notícia” não acrescenta muito à argumentação pré-existente, e nem resolve coisa alguma. Localizadas a menos de 500km do litoral patagônico, não é novidade a afirmação de que, se levamos em conta apenas a proximidade, as ilhas deveriam ser consideradas argentinas. O resultado do informe da comissão reforça uma posição, igualmente já conhecida, das Nações Unidas, de que os dois países deveriam ao menos conversar sobre a soberania das ilhas. Mas é cedo para a Argentina sair às ruas para comemorar.

Esse argumento geográfico e as constatações das Nações Unidas valem pouco no atual jogo de xadrez em que se disputa a questão. Eis aqui as razões:

Primeiro. Há muita desinformação com relação à verdadeira reivindicação argentina. Em geral, as pessoas creem que o desejo de nossos vizinhos é simplesmente sequestrar as ilhas, expulsar seus moradores, chamados de um modo um tanto depreciativo de “kelpers”, e tomar para si toda a indústria da pesca (altamente rentável) e a provável exploração petrolífera (ainda sem ter dado frutos consideráveis). Mas, desde a redemocratização da Argentina, em 1983, a reivindicação do país é mais ou menos a mesma: recuperar a soberania das ilhas, porém respeitar a população que aí vive _cerca de 3.500 pessoas, a maioria descendentes de britânicos vindos ao arquipélago em distintas gerações_, e, obviamente, apoderar-se do controle dos negócios de pesca e petróleo, além de exigir a retirada da imensa base militar com mais de 1.500 soldados ingleses que guardam as ilhas.

Segundo. Os britânicos ao longo da história das ilhas já foram muito mais condescendentes no passado, tendo até mesmo oferecido uma solução de “leasing” do território e de retirada gradual de seu pessoal dali. Tudo isso, porém, mudou depois da Guerra das Malvinas, em 1982 (ler próximo item). Desde então, o Reino Unido não abre mão de apoiar os locais, aceita sua decisão de auto-determinação, definida em referendo, em março de 2013, em que 98% dos ilhéus decidiram continuar sendo britânicos. Hoje, oficialmente, as ilhas são consideradas parte do Reino Unido. A Argentina é vista como ameaça, um invasor vencido e que fez insuflar um sentimento nacionalista local, antes incipiente. Além disso, as ilhas têm orçamento independente, com a arrecadação realizada por meio das concessões para a pesca a diversos países. O Reino Unido banca apenas a sua defesa e cuida de sua representação diplomática no exterior.

Dois garotos nascidos nas Falklands, numa tarde de domingo em Port Stanley (Foto Sylvia Colombo)
Dois garotos nascidos nas Falklands, numa tarde de domingo em Port Stanley (Foto Sylvia Colombo)

Terceiro. Os britânicos e os habitantes das ilhas consideram que a opinião das Nações Unidas, que chamam para a negociação e agora dizem que as ilhas estão dentro de território argentino, não valem nada na discussão, pelo único e indiscutível fato de que, em 1982, os argentinos invadiram à força as ilhas, provocaram uma guerra com mais de 800 mortos e foram derrotados. Na visão do governo britânico e dos moradores das ilhas, se a Argentina tinha, no passado, algum direito sobre o território, por conta da questão geográfica, o perdeu para sempre ao tentar toma-las à força e serem derrotados.

Quarto. Os habitantes das ilhas querem manter o status que têm, e não serem considerados meros ocupantes. Conheci famílias que vivem ali já há nove gerações. É uma população pequena, é certo, mas sua vontade tem de ser respeitada. Portanto, será muito difícil que esse informe das Nações Unidas venha a mudar algo enquanto essa população não quiser mudar de ideia. Não se trata mais, como quer a Argentina, de uma questão a ser discutida entre dois atores (a Argentina e a Inglaterra), mas sim, entre três, incluindo uma representação da população das ilhas.

Estive nas ilhas Malvinas duas vezes. Uma, para fazer uma reportagem sobre os 30 anos da guerra, em 2012. A segunda, para cobrir o tal referendo, em 2013. Foi curioso confrontar as duas certezas tão categóricas de lado-a-lado. Em Buenos Aires, ouvia os argentinos chamarem os ingleses de intrusos, piratas e ladrões. Nas ilhas, os habitantes não sabiam diferenciar bem os generais da ditadura dos anos 1970 do governo kirchnerista, achavam que a Argentina era um país governado por gente autoritária que queria apenas expulsa-los e ficar com seus recursos. No principal pub local (há três), vendem-se canecas com o desenho do mapa-mundi em que no lugar da Argentina está um vazio ocupado pelo Oceano Atlântico. Parecia uma disputa de cegos.

Durante os anos Menem, tentou-se uma aproximação, incentivando voos, promovendo eventos esportivos e financiando familiares de soldados argentinos enterrados na ilha para que visitassem suas covas. Durante o kirchnerismo, porém, a questão ficou espinhosa novamente. Principalmente na gestão Cristina Kirchner (2003-2015) voltou a haver uma posição agressiva, com a presidente levando a questão a fóruns internacionais e criando um verdadeiro ministério para fazer propaganda contra a presença inglesa nas Malvinas.

Manifestação pela permanência das ilhas no Reino Unido, em 2013 (Foto Sylvia Colombo)
Manifestação pela permanência das ilhas no Reino Unido, em 2013 (Foto Sylvia Colombo)

Durante a última campanha presidencial, a questão Malvinas não parecia ter muita importância para Mauricio Macri. O presidente diz que mantém o pedido de soberania, até porque esse deve ser o único assunto sobre o qual todos os argentinos concordam, da extrema direita à extrema esquerda, de peronistas a radicais, de socialistas a liberais: “as Malvinas são argentinas”, como ainda se ensinam nos livros escolares, enquanto a previsão do tempo de todas as emissoras inclui informe diário sobre o clima nas ilhas (sempre frio e ventoso, diga-se de passagem).

Porém, a ideia de Macri, desde o princípio foi baixar o tom da estridência do pedido por diálogo. A chanceler Malcorra, em entrevista que concedeu à Folha em dezembro, falava em manter a posição, mas conversar com a gestão David Cameron em um tom mais amistoso. Assim que assumiu o cargo, Malcorra rebaixou o tal ministério criado pelo kirchnerismo para o status de secretaria.

É sabido e reconhecido, porém, que o tema das Malvinas, por ser tão aglutinador, serviu sempre em momentos de crise de popularidade dos governantes argentinos, para criar consenso e aumentar sua aprovação popular. Menem se agarrou a ele quando a crise econômica começou a corroer o fim de seu governo. Cristina, quando sua popularidade caiu após acidentes de trem, tragédias naturais para as quais não teve resposta rápida e degradação da economia. Macri, que apesar de estar brilhando aos olhos do mercado internacional tem enfrentado uma difícil situação interna _por conta das demissões em estatais e pelo descontrole da inflação (que já estourou a marca dos 35%)_ de repente pode ter ganhado um presente involuntário com esse informe das Nações Unidas. Com ele, pode construir um novo discurso de conciliação com o Reino Unido e de manutenção do pedido de soberania, num nível mais elevado, e rentável, de debate.

Aproveito para ilustrar esse post com as fotos que fiz durante as visitas às Malvinas/Falklands.