Castañeda toma as rédeas de campanha anti-Trump no México

Por Sylvia Colombo
O escritor e ex-chanceler mexicano Jorge Castañeda (Foto Reprodução)
O escritor e ex-chanceler mexicano Jorge Castañeda, em cena do vídeo (Foto Reprodução)

Com as possibilidades cada vez mais concretas de que Donald Trump garanta a vaga republicana na corrida pela Casa Branca, artistas, políticos e personalidades mexicanos resolveram deixar o silêncio e tornar mais pública a imensa preocupação que sentem caso se confirme a hipótese de ter o magnata desbocado como líder do país-vizinho _principal sócio comercial do México. Há que se lembrar que uma das bandeiras de Trump é culpar o México por vários dos problemas atuais dos EUA _assim como os muçulmanos. Uma de suas falas mais famosas sobre os vizinhos do sul foi: “Quando o México manda suas pessoas, eles não estão mandando o que têm de melhor. Eles estão mandando gente que tem muitos problemas, estão trazendo drogas, estão trazendo crime. São estupradores.” A solução para o “problema”, considera Trump, seria construir um imenso muro entre os dois países e, é claro, deportar milhões de indocumentados.

Conversei hoje com Jorge Castañeda, intelectual, escritor e ex-ministro das Relações Exteriores do governo Vicente Fox (2000-2003). Já há muito alarmado e ofendido pelas declarações racistas e xenófobas de Trump, o autor de “A Utopia Desarmada” lançou uma campanha, pedindo que nomes célebres do mundo das artes e do esporte mexicanos se pronunciassem, como o diretor de cinema Alejandro Iñárritu, a atriz Salma Hayek e o jogador Chicharito. A ideia é que gravassem spots contando suas histórias, afirmando não serem estupradores e mostrando como o México vêm contribuindo em tantas áreas, aos EUA e ao mundo. “Já achava há alguns meses que este era o momento de fazer uma grande campanha. Silêncio nesse momento significa cumplicidade”, disse à Folha.

Num primeiro momento, o pedido de Castañeda não ecoou. Mas, com a pré-candidatura Trump arrancando, vencendo várias primárias, fazendo com que seus competidores desistissem, e transformando-se numa possibilidade cada vez mais concreta de virar candidato, os ânimos começaram a se inflamar. Castañeda lançou então um novo vídeo (abaixo), em versões em espanhol e em inglês, que desta vez viralizaram, recebendo mais de 8 milhões de visitas.

Até então, a estratégia do governo mexicano vinha sendo a de não opinar na corrida eleitoral do país-vizinho. Mas a pressão popular para que o presidente Enrique Peña Nieto se pronunciasse sobre as declarações anti-mexicanas de Trump, se intensificou. No contexto de uma visita do vice Joe Biden, “Peña” [como o chamam os mexicanos] foi mais enfático e deu declarações até bastante lúcidas e incisivas, contrastando com seu próprio estilo. Disse o presidente mexicano: “Esse tom estridente [de Donald Trump] nos faz lembrar dos riscos do populismo, seja de esquerda como de direita, essas expressões estridentes que buscam apresentar soluções muito fáceis, muito simples, para problemas que obviamente não se resolvem de maneira fácil são perigosas. A história da humanidade nos mostra que os desafios e os problemas que uma sociedade enfrenta levam algum tempo para serem solucionados, e é preciso ser perseverante. Houve episódios da história da humanidade em que expressões dessa retórica estridente levaram a cenários muito fatídicos. Foi assim que chegaram Mussolini e Hitler ao poder, aproveitando um contexto de um problema que a humanidade vivia depois de uma crise econômica, e causaram uma conflagração mundial. Isso não queremos que aconteça em nenhuma parte do mundo.”

 

A reação do governo é, de fato, contundente. Mas, na avaliação de Castañeda, veio “tarde demais”. “Não apenas é tarde demais, eu diria, mas além disso se trata de algo pouco organizado. Peña Nieto não disse isso para um meio norte-americano, não publicou essa opinião em jornais dos EUA. Deveria ter se preocupado em divulgar isso lá”, diz à Folha. 

Para o escritor, muitas das propostas de Trump são muito difíceis de realizar, mas o estrago que o magnata pode causar nas relações entre EUA e México são devastadores. “Só o fato de que Trump possa se eleger já criará um clima racista na sociedade norte-americana, um clima de caçada aos mexicanos, tendo eles papéis ou não [cerca de 6 milhões de mexicanos vivem legalmente no país, e outros 6 milhões sem o visto adequado]. Com isso virão as demissões, deportações sem base legal, sem respeito aos direitos humanos”, acrescenta.

Outro aspecto que elenca como importante, e que se encontra sob imenso risco, em sua opinião, é o comércio bilateral entre os dois países. Nos últimos anos, o México se transformou no principal parceiro comercial dos EUA, suplantando até mesmo os chineses. E Trump já se pronunciou contra o fato de várias empresas norte-americanas estarem se instalando no México. “Trump pode causar muito estrago, nos tratados, nos acordos comerciais. Vamos retroceder numa relação que tem sido benéfica para ambos os lados”, conclui Castañeda.

A corrida eleitoral norte-americana entra em sua fase mais competitiva. Será que não é o caso de personagens de outros países latino-americanos se posicionarem? Afinal, uma eleição de Trump pode representar um retrocesso dos EUA também em outros temas da região, como a reaproximação com Cuba, o apoio ao plano de paz na Colômbia e mesmo os tratados comerciais.