Morte de mochileiras reacende feminismo na Argentina

Por Sylvia Colombo
As jovens argentinas desaparecidas no Equador (Foto La Nación)
As jovens argentinas desaparecidas no Equador (Foto La Nación)

O Dia da Mulher encontrou uma Argentina em alta tensão.

Desde que se anunciou que as duas turistas de Mendoza desparecidas no Equador haviam sido assassinadas numa localidade praiana próxima a Guayaquil, instalou-se um debate inflamado no país. Os meios tradicionais saíram divulgando que Marina Menegazzo, 21, e María José Coni, 22, viajavam “sozinhas” quando foram abordadas por homens que as teriam forçado a fazer sexo. Ao resistir, foram assassinadas.

As redes sociais, então, começaram a destilar a violência virtual tradicional, e não foram poucos os comentários que acusavam as vítimas da própria morte. “Claro que deviam estar bêbadas”, “usavam roupas provocativas e foram para um lugar pouco seguro” ou, o mais comum “eram mulheres viajando sozinhas”, apesar de serem ambas maiores de idade e viajando em dupla. Um psiquiatra chegou a dizer que se tratavam de “vítimas propiciatórias”. Não faltaram acusações aos pais, que teriam sido irresponsáveis por deixarem que viajassem sem a companhia de homens.

O outro lado reagiu com vigor. Nos últimos dois anos, os movimentos feministas argentinos ganharam bastante relevo e lograram alguns avanços, como a aprovação da lei do feminicídio e levando centenas de milhares às ruas na campanha #NiUnaMenos. O curioso é que, mesmo assim, os grandes jornais e noticiários não deixaram de usar a expressão “viajar sozinha” quando tratam do assunto. Parece não haver outro modo de descrever uma dupla de mulheres andando pelo mundo sem a companhia de homens.

Enquanto os pais e familiares das vítimas, sem confiar na Justiça equatoriana e na ajuda do governo argentino, resolveram ir ao Equador e estão fazendo as investigações por conta própria. Até agora, não aceitam a versão apresentada pela polícia local, que prontamente apresentou um culpado já com a confissão assinada. Forenses independentes consideram possível, até mesmo, que os cadáveres não sejam das moças. A novela, acompanhada de forma sensacionalista por TVs e diários argentinos, prossegue.

Reproduzo aqui a carta de Guadalupe Acosta, uma estudante de comunicação paraguaia, que virou em emblema da revolta feminina ao tratamento do caso pelos meios e nas redes. Postada no Twitter e no Facebook, a carta viralizou e teve milhares de compartilhamentos. Segue o texto de Guadalupe, em espanhol:

“Ayer me mataron.

Me negué a que me tocaran y con un palo me reventaron el cráneo. Me metieron una cuchillada y dejaron que muera desangrada.

Cual desperdicio me metieron a una bolsa de polietileno negro, enrollada con cinta de embalar y fui arrojada a una playa, donde horas más tarde me encontraron.

Pero peor que la muerte, fue la humillación que vino después.

Desde el momento que tuvieron mi cuerpo inerte nadie se preguntó donde estaba el hijo de puta que acabo con mis sueños, mis esperanzas, mi vida.

No, más bien empezaron a hacerme preguntas inútiles. A mi, ¿Se imaginan? una muerta, que no puede hablar, que no puede defenderse.

¿Qué ropa tenías?

¿Por qué andabas sola?

¿Cómo una mujer va a viajar sin compañía?

Te metiste en un barrio peligroso, ¿Qué esperabas?

Cuestionaron a mis padres, por darme alas, por dejar que sea independiente, como cualquier ser humano. Les dijeron que seguro andabamos drogadas y lo buscamos, que algo hicimos, que ellos deberían habernos tenido vigiladas.

Y solo muerta entendí que no, que para el mundo yo no soy igual a un hombre. Que morir fue mi culpa, que siempre va a ser. Mientras que si el titular rezaba fueron muertos dos jóvenes viajeros la gente estaría comentando sus condolencias y con su falso e hipócrita discurso de doble moral pedirían pena mayor para los asesinos.

Pero al ser mujer, se minimiza. Se vuelve menos grave, porque claro, yo me lo busqué. Haciendo lo que yo quería encontré mi merecido por no ser sumisa, por no querer quedarme en mi casa, por invertir mi propio dinero en mis sueños. Por eso y mucho más, me condenaron.

Y me apené, porque yo ya no estoy acá. Pero vos si estas. Y sos mujer. Y tenes que bancarte que te sigan restregando el mismo discurso de “hacerte respetar”, de que es tu culpa que te griten que te quieran tocar/lamer/ chupar alguno de tus genitales en la calle por llevar un short con 40 grados de calor, de que vos si viajas sola sos una “loca” y muy seguramente si te paso algo, si pisotearon tus derechos, vos te lo buscaste.

Te pido que por mí y por todas las mujeres a quienes nos callaron, nos silenciaron, nos cagaron la vida y los sueños, levantes la voz. Vamos a pelear, yo a tu lado, en espíritu, y te prometo que un día vamos a ser tantas, que no existirán la cantidad de bolsas suficientes para callarnos a todas.”