O último inédito de Rodolfo Fogwill

Por Sylvia Colombo
O escritor argentino Rodolfo Fogwill (Foto Divulgação)
O escritor argentino Rodolfo Fogwill (Foto Divulgação)

Com Rodolfo Fogwill (1941-2010) ocorreu algo curioso. Lido, em vida, mais por uma casta restrita de autores e intelectuais mais alternativos, o escritor argentino vem se transformando numa espécie de autor de culto, influenciando principalmente as novas gerações. É de se comemorar, portanto, que sigam saindo “novos” livros do autor, mesmo após sua relativamente precoce morte, aos 69, vítima de um enfisema pulmonar.

Fogwill havia deixado, em seu apartamento, em Palermo, manuscritos, anotações, cartas e vários trechos de livros e projetos inéditos e semi-inéditos. Um pouco temerosa de meter-se de cabeça nos escritos do pai, sem saber o que poderia encontrar, Vera Fogwill contratou a historiadora Verónica Rossi e, desde então, as duas vêm trabalhando junto na edição de sua obra póstuma, que está saindo pel Alfaguara argentina.

O primeiro volume que surgiu foi o belo “La Gran Ventana de los Sueños”, uma compilação das anotações que o escritor fazia desde os 12 anos de idade, praticamente de forma diária, sobre o que havia sonhado na noite anterior. É seu trabalho mais íntimo e, ao mesmo tempo, revelador dos efeitos que uma Argentina em constante tensão política causava em seus intelectuais. Fogwill, que conjugava os ofícios de escritor, professor, sociólogo e publicitário, era exímio em descrever imagens ficcionais, pensamentos, como se tratassem de coisas concretas. Só assim, creio, foi possível que, em sua obra mais importante, “Los Pichiciegos”, pudesse revelar as angústias e fantasias dos soldados argentinos nas ilhas Malvinas, durante a Guerra, em 1982, sem ter de sair de Buenos Aires.

Depois de “La Gran Ventana…” veio um livro menos interessante em seu conteúdo, mas de trajetória muito rica. Trata-se de “Nuestro Modo de Vida”, escrita nos anos 1980, mas que Fogwill não considerava publicável numa Argentina ainda sob a ditadura (1976-1983). O texto, todo ele escrito à máquina e corrigido com minuciosas anotações, encontrava-se intacto, com uma amiga do escritor, no Chile, com quem a família não havia tido contato.

Acabo de ler “La Introdución”, a terceira e última obra póstuma do autor, que acaba de chegar às livrarias argentinas. O enredo é básico, um homem que sai da cidade grande e viaja a Las Termas, buscando arejar o pensamento. Se passa já na Argentina do começo do século 21. Não é mais a da ditadura nem a do conflito com os ingleses, mas sim a que se encontra em crise de identidade por conta dos abalos politico-economicos do ano 2001, e ainda antes do mergulho planetário em tempos de internet.

É curioso ler o livro e reconhecer o autor que tive a sorte de encontrar, em 2007, perdido numa onda de fumaça de cigarro num stand da Bienal do Livro do Rio de Janeiro. Já naquela época, Fogwill, mesmo com o cigarro aceso na ponta dos dedos, dizia que andava obcecado em melhorar seu modo de vida, estava indo a uma academia e nadava. Seu corpo magro, alto e enrugado transmitia uma estranheza excêntrica que tinha como emblema máximo seu olho mais aberto que o outro, atento no interlocutor, e sua extrema ironia. O tempo provou que o estímulo do autor em buscar uma vida saudável veio um pouco tarde, pois Fogwill já havia vivido décadas de excesso e não conseguia largar os vícios adquiridos. Esse universo está muito latente nas pouco mais de 150 páginas de “La Introdución”.

Infelizmente, segundo informa Vera Fogwill, não haverá mais novos lançamentos. O acervo do escritor, porém, está sendo organizado para ser exibido no Malba (Museo de Arte Latinoamericano) e, posteriormente, entregue à Biblioteca Nacional. De escritor cult, portanto, Fogwill parece estar se transformando, como merece, em cânone da literatura argentina.