Dez anos em eterna cadência

Por Sylvia Colombo
Balcão principal da Eterna Cadência, no bairro de Palermo (Foto Divulgação)
Balcão principal da Eterna Cadência, no bairro de Palermo (Foto Divulgação)

O velho casarão da rua Honduras, 5582, no bairro de Palermo, estava para ser derrubado quando Pablo Braun o encontrou e decidiu, ali, fazer sua livraria. Buscava, antes de tudo, curar uma depressão pelo fim de um relacionamento. Os livros, ele conta, o haviam ajudado a enfrentar a tristeza e, a partir daí, passou a alimentar o sonho de reunir numa só loja títulos que pudessem tocar o coração de quem a visitasse.

A Eterna Cadência acaba de completar 10 anos de existência. E não é mais apenas uma livraria, transformou-se em uma espécie de mini-centro cultural. Ali promovem-se encontros e lançamentos. Pouco tempo depois de abrir, Braun achou que vender livros era pouco, e lançou uma pequena editora, com ajuda de Leonora Djament. O selo dedica-se a literatura argentina e latino-americana, mas também lançou títulos brasileiros, como “Eles Eram Muitos Cavalos”, de Luís Ruffato. Já possuem mais de 100 títulos lançados, de ficção e não-ficção (entre os quais predominam os de ensaios e crítica literária), preferencialmente de autores locais e latino-americanos. Um dos próximos títulos é “Las Tres Vanguardas”, novo livro de ensaios de Ricardo Piglia. O selo também edita a obra de novos escritores ou consagrados difíceis de figurar nos catálogos, como o uruguaio Felisberto Hernández.

Um dos segredos do sucesso da Eterna Cadência está relacionado com outro fenômeno muito local, a proliferação, nos últimos anos, de pequenos selos independentes, como as editoras Beatriz Viterbo, La Bestia Equilátera, Caja Negra, Mar Dulce, Entropia e Mansalva. Essas pequenas editoras cresceram à sombra das grandes, privilegiando títulos menos comerciais, novos autores, traduções, e ocupando espaço durante um tempo em que ficou muito caro importar livros, por conta das travas impostas pelo governo kirchnerista e pelos custos.

Não demorou para o velho casarão se transformar em sede de um projeto mais amplo, a Fundação Filba, que todos os anos realiza um festival literário, com leituras e mesas-redondas. Além de Buenos Aires, a festa ocorre anualmente também em Santiago e em Montevidéu, e a curadoria fica a cargo de Gabriela Adamo, ex-diretora da Feira Internacional do Livro de Buenos Aires. Desde o ano passado, o evento ocorre em mais uma sede, a Abadia de Belgrano, recém-reformada e aberta ao público. Também o Malba (Museo de Arte Latinoamericano) recebe atividades do evento, que ocorre sempre no começo da primavera portenha.

A Eterna Cadência é uma das principais livrarias independentes desta cidade que tem mais de 750 lojas _um verdadeiro recorde não apenas em termos regionais. Mesmo com a expansão da venda on-line e do crescimento das mega-stores, a capital argentina tem, mais ou menos, 25 livrarias para cada cem mil habitantes. Só para se ter uma ideia, Londres tem 10, Madri tem 15. Isso sem contar os sebos, que são ao redor de 102, também bem mais do que a maioria das capitais europeias.

Com um café e um pequeno espaço com sofás, onde se pode folhear um dos volumes ou trabalhar com computador, a Eterna Cadência vive cheia, e é um oásis de silêncio e tranquilidade numa região de bares, restaurantes e agitação. Está um pouco fora do circuito turístico tradicional, que prefere desembocar em grandes livrarias como a imponente Ateneo, na calle Santa Fe.

Entre as marcas particulares da Eterna Cadência estão também os livreiros, que adoram conversar sobre literatura. Não é raro entrar ali e logo encontrar alguém encostado numa das pilhas travando um papo animado com o livreiro de plantão, que por sua vez se distrai com relação ao resto do público _o descaso faz parte do charme do lugar.

Quem não tiver visitas a Buenos Aires planejadas, pode seguir a Eterna Cadência na internet, no site e no blog (http://www.eternacadencia.com.ar/blog.html). Com a agonia dos cadernos de cultura locais _o ADN, do “La Nación”, deixou de circular, e a revista “ñ”, do “Clarín”, está cada vez mais magra_ as publicações da livraria se transformaram em referência da vida cultural local.